Cubo Mágico

aqui tinha artes, teatro, cultura digital e crônicas contemporâneas

Archive for the ‘Contemporâneos’ Category

Ando assim: quase chovendo pra burro

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4 ou 5 frases-desabafo retiradas de um texto alheio:

nuvem

Carta aberta para um amigo além-mar

João Paulo Cuenca

Caro Chico, li o e-mail que você me mandou mas não tive tempo de respondê-lo antes. Fico feliz em saber que tudo vai bem por aí: os estudos, o trabalho e a mulher. Manda beijo pra Ana. Tenho saudades de vocês, temo que fiquem por aí de vez. Há dias em que acho que seria bom negócio. Lembro que você estava assustado com a leitura dos jornais brasileiros pela internet e me perguntou se o bicho estava pegando mesmo por aqui.

Está, não está. Tudo continua dando um jeito diferente de continuar igual. Os senhores barrigudos de sunga continuam tomando chope no boteco da esquina da Paissandu, as meninas com roupa de lycra continuam rebolando pelos quarteirões e os sujeitos continuam cada vez mais fortes e altos – se continuar assim, nossos netos terão dois metros de altura e 130 quilos. O nosso Mengão continua numa eterna hora da xepa, sétimo técnico em 16 meses. Fluminense levou o título do estadual num jogo roubado (como sempre) e a seleção do Parreira continua com o jogo embaçado.

A maioria dos nossos amigos continua encostada na casa dos pais, reclamando da vida, sem bom emprego e grana no bolso. A TV continua cada vez pior e cada vez mais batendo recordes de audiência, 80% de share, retorno total de mídia. A música que toca na rádio continua cada vez mais conchavos e jabá. A polícia continua metendo bala, os traficantes também. Lula, Garotinha e César continuam agindo como três patetas do inferno. E o povo na mesmíssima: esgarçado no meio do tiroteio. A coisa aqui, meu caro, tá pretíssima.

Nunca saí tão pouco à noite. A última moda são aquelas festinhas anos 80, lembra delas? Perderam a graça em 95, mas ninguém notou. Por semana aqui no Rio são no mínimo dez. Lotam o Circo Voador. No século passado, o Circo lançava tendência. Hoje em dia a tendência é a banda cover de música ruim. Barrigudinhos de 30 anos que não viveram adolescência se olham no espelho retrovisor, ajeitam a camisa para dentro da calça, tentam recuperar tempo perdido. Adolescentes difusos pegam nostalgia emprestada – zumbis de olhar ermo, mendigando sentido. Tocando o gado, os organizadores ganham boa grana com a indigência existencial dos outros. E quer saber? Estão certíssimos. Há de se ganhar o qualquer um e a vida.

Sabe aquela música do Bob Dylan, “People are crazy and times are strange”? Não chego a ficar raivoso como antes. Você deve se lembrar como eu era, Chico. Hoje só consigo sentir vazio e pena. Uma enorme pena de todos nós. Dos coroas filtrando o chope dentro de suas enormes barrigas, das moças e marombados feitos de lycra, dos chatos do Estação Botafogo, das mini-celebridades da internet compartilhando solidão em diários insossos, da galera se esgoelando ao som da novidade de 20 anos atrás, dos velhos jornalistas e sua boêmia enlatada, dos novos jornalistas, sem sonho ou estofo, e dos jovens e velhos escritores, compulsivos, mascando palavras e mascarando vaidades. Pena dos três poderes: policiais, traficas e políticos. Pena do povo achando que não tem culpa, que não é com eles – digo, conosco.

De vez em quando, passa um filme no cinema ou ouço um disco bom. De vez em quando, gosto de levar a menina para dançar e às vezes dá para ir a um lugar que não esteja cheio de babacas. Fazemos um casal bonito e a amo como um pobre desesperado. Eu a transformei em personagem de crônica e os leitores gostam mais dela do que de mim. Pedem crônicas e mais crônicas sobre a menina triste de olhos verdes. Estão certíssimos. Eu também gosto mais dela.

Você contou que viu um cara muito parecido comigo no metrô de Londres. Pois talvez tenha sido eu. Se o encontrar de novo, diga que preciso de uma horinha comigo mesmo. Sabe quando o céu escurece, as nuvens pesam sobre as nossas cabeças, o ar e a luz do sol ficam de um jeito estranho e o pessoal fala “vai chover pra burro”? Ando assim: quase chovendo pra burro.

Novidade mesmo acho que só o novo sistema de ar-condicionado e iluminação do Lamas. Ficou mais bonito. Resta saber se aquele odor inconfundível pós-Lamas, de cigarro e mofo, vai continuar. O perfume do Lamas é uma tradição aqui em casa. Desculpa tanta chatice, meu amigo. Acho que preciso de um tempo por aí. É verdade que na Inglaterra não existe chope gelado? Estou ficando velho cedo demais. Preciso sentir falta do chope gelado. E da paisagem. Essa cidade é muito bonita e a gente se acostuma. Na verdade, se acostuma com tudo, não é? Boa sorte por aí. Manda notícias. E não me leve a mal. Um grande abraço, JP.

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Written by Lucas Pretti

junho 14, 2009 at 15:19

Publicado em Contemporâneos

The Comedian, nas bancas

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Eu ACABEI de falar no post abaixo em como a cultura de hoje destrói os significados dos signos e símbolos e eis que um exemplo me surge na cara. Fui ver a premiére de Watchmen hoje, filme baseado nos quadrinhos de Alan Moore. A imagem que resume a história é o símbolo da morte do The Comedian, o smiley com uma gota de sangue.

Saí do cinema e dei de cara com a capa da Veja, que, justamente na semana de estreia de Watchmen, coloca um smiley amarelo na capa, relacionado à crise financeira internacional. Não pode ser coincidência…

O lindo é ver que, no final do filme, o diretor Zack Snyder também ironiza essa desconstrução pós-moderna, quando um jornalista vestido com uma camiseta de smiley deixa cair um pouco de catchup na roupa — e qualquer referência ao Comedian é destruída pelo acaso.

As coisas demoram para ser construídas. E vão embora em qualquer acaso.

—–

PS: btw, eu, Bruno e Matias escrevemos sobre Watchmen no Link desta semana:
http://www.link.estadao.com.br/index.cfm?id_conteudo=15398
http://1ou2escritos.wordpress.com/2009/03/02/a-narrativa-transmidia-a-partir-de-watchmen/

Written by Lucas Pretti

março 3, 2009 at 2:14

Barba Negra S/A

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Dando sequência ao plano de subverter o mundo e transgredir a ordem da imprensa, uma matéria sobre pirataria com o mínimo de hipocrisia e conservadorismo possível. Digo mínimo porque  a gente ainda não chegou ao ponto de dar os torrents com mais seeders e leechers. Mas todo mundo já sabe mesmo, não precisa de jornalista pra isso. Aliás, precisa de jornalista pra quê?

Ei-la:

Somos todos piratas?
http://www.link.estadao.com.br/index.cfm?id_conteudo=15266

Ou aqui a página na íntegra:
http://1ou2escritos.wordpress.com/2009/02/02/todos-somos-piratas-entao-por-que-esconder/

Written by Lucas Pretti

fevereiro 2, 2009 at 15:43

O Pânico fudeu o teatro. E o Macunaíma ajudou

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Concordo com o Nando quando ele diz que a culpa pela bandalheira em torno da profissão de ator é dos próprios atores e da famosa “classe teatral” (aliás, o q é isso na prática?). Alguém viu Pânico no último domingo? Com a ajuda da tradicional escola de atores Macunaíma, os caras conseguiram banalizar todo um processo, metodologia, carreira, profissão, proposta artística. E com o Macunaíma macomunado. Puta absurdo.

A história era que o Ceará (Silvio Santos) deveria “treinar” para ser contratado pelo SBT para ser “galã de novela”. No Macunaíma, ele passou pelo que chamaram de “aulas” (uma gritaria, correria, caras e bocas com uma direção bizarra. O “professor” dizia: “Isso, expresse felicidade, a felicidade por estar aqui”). Aí ele teve meia hora para “decorar” uma cena de Nelson Rodrigues e subir no palco, com luz, figurino, cenário, tudo pronto. Ah, me desculpe.

Depois, a tal professora do Macunaíma, Laura, deu entrevista para o Vesgo. Medíocre, ele fez a mesma pergunta idiota de sempre: o beijo é de verdade? Ela disse que não, claro. Ele pediu então para beijar ela “de mentira”. Eles pegaram duas falas quaisquer e se beijaram. E o Vesgo arrancando a blusa da mina.

Depois disso, vc acha que um pai vai deixar a filha fazer teatro? Vão se fuder o pessoal do Pânico e do Macunaíma.

Written by Lucas Pretti

dezembro 11, 2008 at 15:47

A história das coisas

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Já ouviu falar no vídeo Story of Stuff? Eu conheci só há algumas semanas. Conta a história do capitalismo e como chegamos a essa merda de mundo em que os chefes mandam mesmo e a gente que obedeça ou que se foda ao ponto em que estamos. Minha visão de mundo está muito resumida ali, a não ser pelo viés ambientalista. Na verdade, os ambientalistas têm o mérito de propor uma solução, mesmo que meio over. Problema são as pessoas como eu, que só reclamam.

Mentira, eu acredito nas artes…

E daí, né?

O vídeo tb está no YouTube, mas é melhor ir por este link aqui (legendado e inteiro): http://www.unichem.com.br/videos.php. Você poucas vezes gastou 21 minutos tão bem.

Story of Stuff

Me fez lembrar este outro da SOS Mata Atlântica:

Written by Lucas Pretti

novembro 25, 2008 at 0:24

Não temos culpa. Merecemos perdão?

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Veja como pode ser perigosa ou esclarecedora a livre associação de conceitos.

Estudando sobre o teatro russo, chegamos inevitavelmente à discussão sobre comunismo. Mesmo porque Anton Tchékov, o autor das peças O Urso e O Pedido de Casamento (que estrearemos em dezembro), viveu no período exatamente anterior à Revolução Soviética. O conceito teórico de “sovietes“, os grupos de cidadãos que se governam a si mesmos, é lindo. Trabalhadores sem patrão decidiriam quanto e como produzir, como seria a divisão dos bens produzidos e a troca de produtos com outros sovietes (o que alimentaria toda a sociedade de todo tipo de material, tudo comum).

Mas não deu certo, como a História provou na URSS, Cuba, Portugal etc. – e parece não haver qualquer dúvida disso. Por quê? Há mil explicações, claro; trezentos milhões de debates já foram realizados em torno disso, e até hoje uma galera nega a falibilidade da coisa. Uma das justificativas a que chegamos nos estudos sobre teatro é que os sovietes derreteram por causa da natureza humana, avessa à democracia pura, socialista.

Nenhum sistema, por menor que seja (como um grupo de teatro, uma redação de jornal), funciona sem comando, por menos autoritário que seja. A liderança, mesmo que sutil e alimentada pelos liderados, acumula poder, nem que seja o da influência. Duas obras de arte recentes mostram e criticam muito bem isso.

O dinamarquês Lars Von Trier, em Dogville, é muito claro em escancarar a natureza humana selvagem, que acaba humilhando e escravizando uma desconhecida quase que gratuitamente, apenas porque havia um ser sobre o qual era possível ter poder (a partir de chantagem). Grace, a personagem de Nicole Kidman, em discussão com o pai mafioso, solta a frase “Os cães não tem consciência nem decidem sobre sua natureza. E por isso devem ser perdoados”. Ela na verdade está falando de humanos. Não conseguimos alcançar o lugar dentro de nós que gira a chave da busca por poder. Então merecemos ser perdoados?

Em Ensaio sobre a Cegueira, o português José Saramago leva ao extremo a opressão do humano pelo humano. Quando todos estão cegos, alguns buscam poder escondendo comida e pedindo objetos e favores sexuais em troca. Era um momento que a união talvez fosse decisiva para tirá-los da situação de exclusão. Os próprios humilhados, por serem vingativos, acabam alimentando o sistema. Mas fazer o quê? Se perdoassem, talvez fossem arrogantes (no conceito trazido em Dogville): o perdão, no filme, é o mais arrogante dos gestos, pois mostra ao perdoado toda a suposta superioridade de quem está perdoando. Difícil haver pureza de fato.

Com tudo isso, a discussão leva naturalmente a justificar os regimes autoritários. Seriam “naturais”, “essenciais” de acordo com a natureza humana. A democracia poderia ser a forma artificial encontrada para todos sobreviverem, já que de outra forma a espécie seria dizimada, autodestruída. E mais: os ditadores deveriam ser perdoados. É da natureza deles, como os cães.

Pior ainda. Concluimos com tudo isso que é humano ser capitalista. Certo ou errado?

Sobre não ter filhos e os conselhos de estrupícios

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Eu não penso em ter filhos. Não considero a possibilidade. Desconsidero a possibilidade.

Quando admiti isso pela primeira vez, me senti um maldito egoísta que não gostaria de dividir sua grana com um rebento e que pretendia contribuir para a evolução do do mundo de outra forma, com textos e cenas, por exemplo. Com o tempo, vi que, se não toda a geração, muitas pessoas próximas também pensavam assim. E passei a não ter vergonha de divulgar (ou assumir a opinião) mesmo diante dos mais reaças da família.

Hoje, li no blog do Alex Castro que ele também está nessa. Ele teorizou sobre o assunto, num texto delicioso de tão engraçado e epifânico de tão próximo da minha opinião (impossível deixar só nas Coisas lidas, ao lado). Dois trechos:

Finalmente, depois que falo tudo isso, sempre vem um estrupício, bate no meu ombro carinhosamente e diz, com o ar bonachão de uma cassandra que tudo sabe:

Pois guarde minhas palavras, Alexandre, você pode não querer agora mas daqui a pouco vai querer… Em dez anos, vou encontrá-lo cheio de filhos…

E eu, imperturbável, pergunto se ele tem vontade de comer merda.

Bem, continuo, bonachão e vaticínico, guarde minhas palavras, você pode não querer agora mas daqui a pouco vai querer… Em dez anos, vou encontrá-lo empanturrado de cocô…

(O mais chocante da história é que todo mundo acha o meu comentário grosseiro mas consideram o absurdo que tive que ouvir a coisa mais normal do mundo. Vai entender!)

Se você vê uma criança empolgada, correndo feliz, conhecendo o mundo, descobrindo o próprio corpo, perguntando sobre o universo, e se isso te incomoda, se isso não derrete seu coração, se tudo o que você quer é que ela se comporte como uma boneca e fique calada e sentadinha, então, meu amigo, não tente vender um carro usado pra mim.

Entretanto, ter filhos é difícil. É a maior responsabilidade que uma pessoa pode se dar. Vejo idiotas procriando como coelhos sem ter a menor idéia do que se trata, dos desafios envolvidos, da importância da tarefa.

Vocês me desculpem, mas eu acho que dá muito trabalho, muita despesa e, mais importante, suga a liberdade. Ter filhos é uma viagem sem volta. A vida toda é um tempo muito longo. Eu sou responsável demais pra aceitar uma incumbência que não sei se poderei manter. E a nossa vida, a longo prazo, a gente nunca sabe como vai ser.

Admiro quem tem filhos. Acho que são pessoas mais corajosas que eu. Agradeço pelos futuros leitores, vou precisar deles. Agradeço pelas futuras belas mulheres, que não vão nem olhar pra um velho como eu, mas vão embelezar o mundo. Mas estou fora, sinto muito.

Meu, se vc gostou, leia inteiro. Se discordou completamente, mesmo assim, pense bem: talvez seu filho não mereça vc como pai ou mãe.

Written by Lucas Pretti

agosto 3, 2008 at 21:06