Cubo Mágico

aqui tinha artes, teatro, cultura digital e crônicas contemporâneas

Link, 14/7

with 4 comments

Reportagens minhas no Link de hoje:

Blogs chegam ao cinema em tom lírico
Diretor se vê como crítico da web
Usuários do MySpace têm pré-estréia grátis

Também fiz uma crítica ao filme Nome Próprio (neste link), que reproduzo abaixo:

No filme, quem vive na internet é solitário. Será?

O texto de Clarah Averbuck é corrido. Fala rápida e precisamente de sentimentos. Pausa. Desdiz o que foi dito. Exagera. Renega. E dá uma fluidez à narrativa típica não apenas da internet, mas do mundo que propiciou a existência da cultura blogueira. Um mundo barulhento, com os Strokes tocando no fundo, o cigarro na boca e trezentos mil amores verdadeiros em uma só noite. O texto de Clarah é escuro, movimentado, entrecortado por néon e pulsa, pulsa, corre, tem pressa, a vida pode acabar antes do post.

Nome Próprio, por incrível que pareça, não tem nada disso.

O filme de Murilo Salles surpreende pela solução “pacífica”. Com a calma dos diretores maduros que encaram a loucura da conexão ininterrupta como, isso mesmo, uma loucura, ele constrói uma narrativa melancólica e reflexiva. Dos três meses de filmagem, dois tiveram apenas Leandra Leal no set. A solidão da atriz no palco contribuiu para a construção da personagem só, calada, despedaçada, buscando algo que nem ela sabe o quê. Nome Próprio é um filme silencioso.

Mas não por isso menos incisivo. A Camila Jam enxergada por Salles é uma mulher em transição. Ela só existe nas palavras que escreve, o que fica claríssimo com a opção do diretor e da redatora Viviane Mosé de escrever textos na tela. Em diversas passagens, as palavras são reproduzidas nas paredes, chão, teto. Leandra Leal realmente digita no teclado do computador o que a personagem está escrevendo. Em cenas como essa, a atriz prova ser grande. Os olhos e as reações diante do texto aparecendo no computador trazem uma fé cênica apenas encontrada no pensamento da atriz. Dentro da cabeça de Camila há o barulho, o frenesi, a música alta de Clarah Averbuck. Na tela do computador, o filtro, a literatura.

Leandra acha que Nome Próprio é, principalmente, um filme sobre processo criativo. Que consegue explorar e investigar como uma escritora contemporânea pare seus escritos. Ele é isso também, mas tem como tema latente a condição feminina pós-feminismo. Aqui Murilo Salles erra um pouco a mão. Algumas cenas parecem forçadamente chocantes, diálogos aparecem um tanto fora de contexto apenas para reafirmar quão descoladas são as garotas de hoje e que, sim, ainda há ali a obra de Clarah Averbuck.

Se, quando fala, Camila às vezes não convence, quando age, ah, aí o espectador se mexe incomodado. A personagem não tem limites, quer tudo, sempre, e agora. Pula com força no poço mesmo sabendo que pode dar com a cabeça no fundo. Se não tiver fundo, pronto, valeu a pena, o mergulho foi o melhor que poderia ser.

As influências de Clarah aparecem nas cenas de ação. Quando, por exemplo, Camila, bêbada, perdida num hotel trash da avenida São João, decide “dar” para o desconhecido de Ribeirão Preto. Mas aí decide não “dar”. Cai bêbada. O garotão investe de novo. E fatura uma mulher que pouco estava ligando para ele, queria mais é ser satisfeita, pede para ser dominada só para fugir de ter de cuidar de si mesma.

Isso tem a ver com John Fante, Paulo Leminski, Charles Bukowski. A personagem é uma mescla da melancolia de Cazuza com o risco de Hunter Thompson. Há um desafio permanente às pessoas e às situações envolvido em um não se importar, em um mau humor, uma rabugice.

Tudo isso com a necessidade de escrever. Tudo isso só faz sentido se estiver publicado na internet. Tudo isso só serve para, depois, se tornar ficção e ser consumido pelos ávidos internautas.

Murilo Salles quer tanto passar essa idéia que, no final, acaba didático demais. Apesar de ter uma certa razão.

Outros textos hoje falam sobre o Lively, do Google:

Google cria metaverso e aposta na web 3D
‘Second Life’ desaquece especulações, mas futuro da internet deve ter três dimensões

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Written by Lucas Pretti

julho 14, 2008 às 15:40

4 Respostas

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  1. Que legal, Lucas!
    Não tinha visto!
    Zeitgeist… hahahaha
    E como anda o teatro?

    Beijos,

    Vi

    Vivian

    julho 15, 2008 at 1:10

  2. Heheh, zeitgeist (um brinde ao bulhões)!
    Tá tudo ótimo.
    Bjos

    Aliás, para quem ler isso aqui, eis o texto da Vivian sobre o filme: http://pollyanabarbarella.blogspot.com/2008/07/minha-matria-prima-minha-vida.html

    Lucas Pretti

    julho 16, 2008 at 0:31

  3. […] na TV Estadão sobre Nome Próprio. Os 10 minutos de conversa foram resumidos em 1. Mas tudo […]

  4. […] grande sobre blogs e literatura, com enfoque em duas coisas sobre as quais já escrevi aqui (1 e 2) e lá no Estadão, o filme Nome Próprio e o projeto Estrangeiros. A Daniela Abade tinha […]


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