Cubo Mágico

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A história das coisas

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Já ouviu falar no vídeo Story of Stuff? Eu conheci só há algumas semanas. Conta a história do capitalismo e como chegamos a essa merda de mundo em que os chefes mandam mesmo e a gente que obedeça ou que se foda ao ponto em que estamos. Minha visão de mundo está muito resumida ali, a não ser pelo viés ambientalista. Na verdade, os ambientalistas têm o mérito de propor uma solução, mesmo que meio over. Problema são as pessoas como eu, que só reclamam.

Mentira, eu acredito nas artes…

E daí, né?

O vídeo tb está no YouTube, mas é melhor ir por este link aqui (legendado e inteiro): http://www.unichem.com.br/videos.php. Você poucas vezes gastou 21 minutos tão bem.

Story of Stuff

Me fez lembrar este outro da SOS Mata Atlântica:

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Written by Lucas Pretti

novembro 25, 2008 at 0:24

Não temos culpa. Merecemos perdão?

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Veja como pode ser perigosa ou esclarecedora a livre associação de conceitos.

Estudando sobre o teatro russo, chegamos inevitavelmente à discussão sobre comunismo. Mesmo porque Anton Tchékov, o autor das peças O Urso e O Pedido de Casamento (que estrearemos em dezembro), viveu no período exatamente anterior à Revolução Soviética. O conceito teórico de “sovietes“, os grupos de cidadãos que se governam a si mesmos, é lindo. Trabalhadores sem patrão decidiriam quanto e como produzir, como seria a divisão dos bens produzidos e a troca de produtos com outros sovietes (o que alimentaria toda a sociedade de todo tipo de material, tudo comum).

Mas não deu certo, como a História provou na URSS, Cuba, Portugal etc. – e parece não haver qualquer dúvida disso. Por quê? Há mil explicações, claro; trezentos milhões de debates já foram realizados em torno disso, e até hoje uma galera nega a falibilidade da coisa. Uma das justificativas a que chegamos nos estudos sobre teatro é que os sovietes derreteram por causa da natureza humana, avessa à democracia pura, socialista.

Nenhum sistema, por menor que seja (como um grupo de teatro, uma redação de jornal), funciona sem comando, por menos autoritário que seja. A liderança, mesmo que sutil e alimentada pelos liderados, acumula poder, nem que seja o da influência. Duas obras de arte recentes mostram e criticam muito bem isso.

O dinamarquês Lars Von Trier, em Dogville, é muito claro em escancarar a natureza humana selvagem, que acaba humilhando e escravizando uma desconhecida quase que gratuitamente, apenas porque havia um ser sobre o qual era possível ter poder (a partir de chantagem). Grace, a personagem de Nicole Kidman, em discussão com o pai mafioso, solta a frase “Os cães não tem consciência nem decidem sobre sua natureza. E por isso devem ser perdoados”. Ela na verdade está falando de humanos. Não conseguimos alcançar o lugar dentro de nós que gira a chave da busca por poder. Então merecemos ser perdoados?

Em Ensaio sobre a Cegueira, o português José Saramago leva ao extremo a opressão do humano pelo humano. Quando todos estão cegos, alguns buscam poder escondendo comida e pedindo objetos e favores sexuais em troca. Era um momento que a união talvez fosse decisiva para tirá-los da situação de exclusão. Os próprios humilhados, por serem vingativos, acabam alimentando o sistema. Mas fazer o quê? Se perdoassem, talvez fossem arrogantes (no conceito trazido em Dogville): o perdão, no filme, é o mais arrogante dos gestos, pois mostra ao perdoado toda a suposta superioridade de quem está perdoando. Difícil haver pureza de fato.

Com tudo isso, a discussão leva naturalmente a justificar os regimes autoritários. Seriam “naturais”, “essenciais” de acordo com a natureza humana. A democracia poderia ser a forma artificial encontrada para todos sobreviverem, já que de outra forma a espécie seria dizimada, autodestruída. E mais: os ditadores deveriam ser perdoados. É da natureza deles, como os cães.

Pior ainda. Concluimos com tudo isso que é humano ser capitalista. Certo ou errado?