Cubo Mágico

aqui tinha artes, teatro, cultura digital e crônicas contemporâneas

Archive for the ‘Epifania’ Category

Minha alma sobrevive à ameaça tomada pela mais sublime graça

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É digna de memória a música-poema declamada por Gero Camilo no capítulo final de Som e Fúria, a minissérie sobre teatro da Globo. Ele disse que nunca faria novela (ou papéis que aprofundassem as diferenças sociais brasileiras – exatamente como o vigia nordestino, pobre e excluído da série), e deve ter aceitado esse papel só por causa dessa cena. Diria que é a única que vale a pena na série toda.

Assista a partir de 4’40”:

E leia a íntegra, com várias ironias deliciosas nas entrelinhas:

outro dia, andando pelo centro da cidade, eu resolvi me dar um presente: sonetos de Shakespeare.

parece uma atitude boa dar-se tais presentes, se eu não tivesse de ter gasto meus últimos tostões, meus últimos tostões, meus últimos, aqueles destinados ao aluguel da casa em troca dos sonetos de Shakespeare.

eu parei em frente a uma livraria e, como um cachorro que só sabe do tempo que anda com o olhar no frango que gira, como o cachorro que sabe da gravidade pela baba que desce da boca, fiquei horas seguidas ali babando sobre a vidraça, que não permitia que minhas mãos tocassem os sonetos de Shakespeare.

o comerciante de livros aproximou-se com um sorriso fosco, perguntei quanto custaria para que os sonetos fossem meus. ele então sorriu, menos fosco e mais vil, e disse-me: ‘custa tanto’. o tanto que ele disse era pouco, nem sabia, até porque ele vendia Shakespeare, pense, junto com culinária e magia. mas as minhas mãos queriam tocar os sonetos de Shakespeare

cavei o bolso e, cédula a cédula, moeda a moeda, deu justo pra pagar e voltar pra casa, nada mais.

esta noite eu sou um homem sem garantia de que amanhã eu terei casa porque eu não paguei o aluguel. quanto à minha alma, ela sobrevive a essa ameaça, tomada pela mais sublime graça em habitar os sonetos de Shakespeare.

Written by Lucas Pretti

agosto 3, 2009 at 21:41

Rituais

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Sempre achei um tantão ridícula a histeria que se forma em torno das datas comemorativas de sempre (americanos são especialistas nisso, com seus ‘happy new year’ forçados de felicidade e falsidade). Sempre menosprezei o poder do ritual, a iniciação, a repetição de determinadas ações com o intuito de celebrar, rememorar, homenagear. Tudo isso sempre me soou velho, nada original, sem sentido a não ser o da tradição acrítica,  fazer porque um dia já fizeram, nunca quis isso pra mim.

Até que hoje me vi um ser inundado por essa pequenez. E o mundo me pareceu mais compreensível.

O Festival Internacional de Teatro de Rio Preto (FIT) começa em pouco mais de uma semana. É muito aguardado por meu grupinho de amigos. A data. Quem vai fazer a assessoria. O site. A divulgação da programação. A venda de ingressos. A compra de ingressos. Os ingressos esgotados. As vésperas. As presenças. As apostas. As acomodações. As peças. As noites. As sacadas. As opiniões. As ressacas. Os balanços. O fim.

Falamos nisso desde o começo do ano. “Quando o FIT chegar…”, “Porque no FIT a gente vai…”, “No Não-Lugar vai ter…”, “Fernandona vai vir…”. “Em julho é que vamos ver.”

Julho. É o mês em que tudo converge, todo mundo renega a temporada Yang do inverno escuro, feminino e interior e sai das tocas, enfrenta o frio (!) de Rio Preto e os forasteiros para marcar na alma mais alguns dias de existência superior. A verdade é que ‘entramos’ na toca, numa toca anual, ritual, sempre a mesma mas sempre diferente, com novas e velhas pessoas, uma toca com a mescla quase perfeita de arte com um monte de coisa bonita.

Estamos na reta final. Ontem, um reunião séria, internet, de longe, todo mundo com listas de peças escolhendo o cardápio final – que deveria contemplar as coisas que cada um não pode perder e aquelas que os amigos não podem perder (o equilíbrio disso, sim, é a melhor programação, todo mundo ver junto o que faz sentido pra todo mundo).

Hoje, as estratégias colocadas em prática. Corações e atenções unidos às 11h. Taquicardia. “Eu fiz em 8 minutos.” “Eu em 14.” “Perdi a peça argentina.” “O Fulano perdeu várias.” “Me empresta seu cartão.” No final deu quase tudo certo. O telefone toca e a voz está ali para confirmar e acalmar. Tudo certo.

Estamos prontos para o FIT. Prontos para uma semana que sabemos quase totalmente como será. Algo que só terá graça por se repetir. Por se realizar como o planejado. Planejamento que constrói a aura, o clima, o molho, o encanto, aquilo tudo. Para então ser igualzinho no ano que vem.

Bobeira, né?

Tão bobo quanto as noivas, os coelhinhos, os velhinhos, os troféus e as missas. Rituais e datas comemorativas são as coisas mais lindas do mundo, desde que sejam as nossas.

Written by Lucas Pretti

julho 8, 2009 at 2:17

Publicado em Epifania, Religião, Teatro

Furtivas

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Fui ao Sesc Pompeia hoje pra ver dois vídeos da atriz/performer/bailarina Ondina Castilho na mostra Intimidade. E me encantei com o trabalho de outro artista, Mauro Piva. Numa série que ele batiza de Pequenas coisas que importam, pinta mãos que se encontram furtivamente ou não em mesas as mais diversas, de botecos a restaurantes chiques, pubs e festas de casamento. Tão delicado. Tão preciso.

desenho de Mauro Piva

desenho de Mauro Piva

Written by Lucas Pretti

abril 3, 2009 at 16:31

o tempo em suspenso

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um dia como hoje é raríssimo. quando eu venho pra este blog agradecer ao jornalismo por me levar a uma existência superiormente interessante. acho que nunca fiz isso. bem diz Sérgio Roveri que o mundo é bem mais bonito e colorido no teatro (apesar de tudo), mas “quando o jornalismo resolve ser generoso, sai da frente”. tudo isso porque ainda estou encantando com a entrevista que fiz com o Hermeto Pascoal, em curitiba.

obviamente não tenho cacife pra uma entrevista dessa. quando a pauta surgiu aqui no jornal, hesitei mas abracei, claro, já antevendo momentos mágicos diante do gênio albino alagoano. estava certo na percepção. assim como fiz certo, acho, em deixar o cara falar, falar, falar, para interrompê-lo apenas com duas ou três perguntas necessárias à pauta e mais 500 ou 600 questões artísticas. sim, aproveitei para sugar tudo o que o cara tinha a dizer sobre arte.

não vou conseguir resumir num texto aqui nem tenho a pretensão – e um material desse não deve ter tratamento jornalístico. já basta o que saiu no jornal, um recorte obviamente incompleto. gravei a entrevista. publico assim que converter para um formato leve (tem mais de duas horas!). ele me detalhou a teoria que desenvolveu sobre música universal, deu lições sobre criação, sensibilidade, vida. batucou na mesa, para ser acompanhado por Aline Morena (uma puta parceira) cantando numa língua inexistente um delicioso xote nordestino. sem falsa modéstia, deu vontade de dizer “pára, eu não mereço ouvir isso”. o tempo ficou em suspenso.

o resultado, necessariamente reducionista e uma parte do todo, está aqui: texto | página. transmitir algo na plenitude é um negócio que o jornalismo ainda não alcançou.

Written by Lucas Pretti

março 31, 2009 at 18:30

Os festejos pelo Alto Verão

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Estou atrasado pra falar de Carnaval, mas quem é que se importa com o agenda-setting fora jornalistinhas? “Descobri” uma coisa neste ano que me fez ter outra compreensão sobre os festejos e algum mau humor sobre o que os homens fizeram com a natureza da coisa.

Alguns conceitos antes. Sabem o símbolo Yin/Yang? De acordo com a crença da maioria das culturas orientais, representam o dia e a noite. O homem e a mulher. O quente e o frio. Todas as oposições naturais sobre que se deita nossa existência. Até aqui tudo bem.

As estações do ano se dividem em quatro, duas Yin (Outono e Inverno, mais frias, fechadas, escuras, femininas) e duas Yang (Primavera e Verão, mais quentes, abertas, claras, masculinas). São um dia elevado a um ano, como se à noite vivêssemos o inverno e, de dia, o verão. Tudo bem até aqui também.

Por conhecer essa natureza humana dúbia — veja a teoria dos chakras e o kundalini hindus, a mescla do que há de masculino e feminino nas pessoas passando do mais terreno dos pontos do corpo, o púbis (ou mulabhanda), até o contato com o divino, pelo cérebro (o nirvana) —, os orientais celebram ritualmente a passagem entre o Yin e o Yang, que aliás é uma das cenas mais bonitas da história do design (sim, isso é design). Veja no vídeo abaixo.

Uma desses rituais está relacionado à chegado do que os orientais chamam de a “5ª estação do ano”, o Alto Verão, cujo ponto mais alto é março. Daí as chuvas, daí a libido aflorada, daí o extremo calor, daí a natureza agitada, as nuvens que não param no céu, a conjunção de sentimentos que unem o masculino e o feminino, o quente e o frio, etc. É o Alto Verão. É a natureza celebrando a passagem entre fases. E daí vem a “festa do Alto Verão”. Na nossa cultura, o Carnaval. É a festa coletiva, de relação, de celebração do contato corpóreo, quando estamos alinhados com a natureza Yang da época do ano. É o agradecimento pelo Verão e a chegada do Inverno, quando todo mundo estará em casa, mais fechado, mais frio, mais voltado a questões interiores.

Lindo, não?

E trabalhamos tanto (com que finalidade mesmo?) que não percebemos as nuvens dando tchau para o Alto Verão. Preferimos saber qual a celebridade do ano e colocamos nariz de palhaço para uma picuinha qualquer entre escolas de samba. Quem ganha com tudo isso?

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PS: veja o que faz nossa revolucionária cultura capitalista yuppie pop pós-moderna: Alto Verão é uma marca de roupas e Yin/Yang é um desenho animado…

Written by Lucas Pretti

março 2, 2009 at 2:56

Histórias de um palco redondo

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Estive anteontem pela primeira vez no Teatro de Arena. Essa frase escrita assim tão rapidinha não consegue, por mais que fosse dita e o tom tentasse acrescentar subjetividades e emoções, expressar a importância do que eu quero dizer. São as tais coisas que não se diz com palavras, mas a gente tenta, tenta, tenta. Aquele lugar no Centro de SP tem impresso nas paredes tudo aquilo que um dia já foi o teatro neste país. Tem o cheiro, tem o gosto.

Interior do Teatro de Arena

Assisti à montagem de Chapetuba Futebol Clube, texto de Vianinha dirigido pelo José Renato para a reabertura do espaço, que foi reformado no final do ano passado. José Renato foi o fundador do Teatro de Arena, em 1958 (há 50 anos), e o Vianinha teve quase todas as peças encenadas naquela época, inclusive Chapetuba, em 1959.

A noite chuvosa de anteontem é uma boa metáfora para as diferenças entre aqueles tempos e os nossos. O teatro tinha 17 “corajosos espectadores”, como disse o ator João Ribeiro ao final da apresentação de ontem. Nem de longe encheu as cadeiras que circulam o palco pequeno e sufocante do Arena. Só estando lá para imaginar e entender o poder das montagens de Eles Não Usam Blak-Tie, À Margem da Vida, A Mandrágora, do show Opinião e de tantas outras coisas fervilhantes que forjaram nossos anos 60. Dá pra entender o que o Juca de Oliveira quer dizer sobre o realismo levado às últimas consequências, sobre suar em cima da plateia. Dá pra supor o que o espaço representou para uma época importante do Brasil — em que os problemas políticos e o mundo pré-globalização favoreciam a arte.

Mas também dá para se emocionar de tristeza diante do diretor José Renato foto de Lenise Pinheiro. Hoje um senhor de 82 anos, ele comparece a todas as apresentações do elenco, de 6ª a domingo. Vestido com uma camisa de mangas curtas amarela-clara e calça social marrom, veio ate a porta do Arena três minutos antes do horário, olhou o relógio, sentiu os respingos da chuva que insistiam em entrar no pequeno hall e, numa visão geral, viu que estavam ali umas 5, 6 pessoas esperando — e que provavelmente só uma ou duas sabiam quem ele era. Deve ter lembrado de cenas como esta:

arquivo Cecilia Thompson

Fachada no dia da estreia de "Eles Não Usam Black-Tie", de Gianfrancesco Guarnieri, em 1958. Foto: arquivo Cecilia Thompson

Por mais importante que seja na classe teatral, José Renato é hoje um grande desconhecido da população (não está nem na Wikipedia, se que isso é parâmetro). Até aí, dane-se. Ele é o tipo de pessoa que pouco se importa com fama ou qualquer outra influência que se descole das intenções artísticas. Mas de qualquer forma é de se refletir sobre o fato de qualquer vedete carnavalesca ser infinitamente mais importante — sim, importante — para nossa cultura do que um dos maiores diretores teatrais que o Brasil já viu.

Pesquisando sobre o Arena, acabei trombando num site feito especialmente para as comemorações dos 50 anos, riquíssimo em informações históricas, fotos, mapas, críticas, cartazes de peças e uma infinidade de conteúdo sobre o teatro. Vale realmente a pena: http://www2.uol.com.br/teatroarena/arena.html

Sobre a peça em si, cinco coisas a dizer: 1) o texto do Vianinha é belíssimo por fazer, com doçura, beleza e numa linguagem popular, duras críticas sistêmicas ao capitalismo, ao estilo de vida burguês, à opressão pelo dinheiro e toda essa merda que só piorou desde que a peça foi escrita; 2) dois dos jovens atores, Pedro Monticelli  e Vinicius Meloni, eu já tinha visto em outras montagens (Lágrimas de um Guarda-Chuva e Ensaio_Fausto.org), e isso é legal porque mostra que a profissão ainda pode dar futuro; 3) a atriz Melina Menghini destrói no papel de Fina. Diria que é uma das mais bem construídas em cena, fé cênica impressionante; 4) eles fizeram um blog sobre o processo de montagem e para divulgação: http://chapetuba.blogspot.com; e 5) queria ter assistido à montagem original (foto abaixo), com Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves, o próprio Vianinha e Riva Nimitz, entre outros clássicos. Mas meus 25 anos não permitiram.

Hejo (Arquivo Multimeios/Idart)

Flávio Migliaccio, Xandó Batista e Vianinha na "Chapetuba F.C." de 1959. Foto: Hejo (Arquivo Multimeios/Idart)

 

Lenise Pinheiro

Elenco da "Chapetuba F.C." de 2009. Foto: Lenise Pinheiro

Só me resta imaginar uma época em que o teatro ditava a cultura no Brasil. Se bem que sonhar é um verbo melhor.

Imersão sem igual

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Tá. Eu vou fazer propaganda mesmo porque eu nunca tive uma experiência de imersão tão forte, tão intensa, viva e nova como a do Imax hoje. Fui à pré-estreia da nova sala de cinema do Unibanco Pompeia e saí de lá absolutamente embasbacado, encantado, bobo, criança, epifaniado. E olhe que acabei de fazer uma reportagem sobre o futuro do cinema, que aposta em tecnologia, 3D, downloads, etc. Falamos do Imax, anunciamos que a coisa estava para chegar. Em tese eu já sabia o que aconteceria. Mas fui surpreendido, felizmente.

No Imax Pompeia

o óculos invocado

O Imax é uma sala de cinema diferente, 3D, com uma tela gigantesca (14m por 21m). A película é maior e as condições de exibição são todas especiais, com projetor deles, óculos invocado, sala com x metros de altura, x cadeiras no mínimo. Até a gravação do vídeo tem de ser feita com câmeras próprias do Imax. O resultado é que simplesmente você não assiste a um filme, você ESTÁ no filme.

Eu não sou de me empolgar com as coisas. Juro. É uma das coisas mais brilhantes de que já participei. Me senti como os humanos de 1895 diante do trem quase saindo tela dos Lumière. Veja uma foto de divulgação. Dá pra ter ideia do que acontece.

É a primeira sala assim do Brasil, o q nos lembra a dura realidade: estamos 40 anos atrasados. A primeira sala Imax do mundo abriu em 1970. Quando estive em Berlim no ano passado, até poderia ter ido assistir a Viagem ao Centro da Terra lá no Sony Center. Olhe a foto embaixo. Me arrependi.

Imax Berlim

Imax em Berlim

A sala de SP entra em circuito comercial na sexta-feira, acho. O ingresso custará R$ 30, parece. Não é uma coisa para ir todo dia, claro. O filme por enquanto é um documentário sobre a vida no fundo do mar, com imagens impressionantes, belíssimas, assustadoras, entorpecentes, reais. Mais pro meio do ano devem rolar lançamentos blockbusters, principalmente animações.

Na verdade o Imax tem dois defeitinhos chatos. Só rolam filmes dublados (como fazer legendas em 3D?) e não dá pra negar que, no fim do filme, a gente se sente meio vesgo e com uma dorziiiiinha de cabeça. Mas nada comparado àqueles óculos vermelhos e azuis trashs da década de 90.

Meu, vá ver o Imax. Vá ver.

Written by Lucas Pretti

janeiro 14, 2009 at 3:24

o tempo em suspenso

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tudo parado, contemplativo, por um segundo

Impossível descrever uma ou várias amizades. Ou amizades coletivas, sentimento de grupo, pertencimento, saudade crônica e o silêncio da comunhão. De novo, como sempre, foi assim em Rio Preto nas minhas já saudosíssimas férias. Não é mesmo pra chorar ao receber uma ligação no caminho com uma antiga e sincera companheira passando o itinerário, a programação dos próximos 5 dias, sendo q eu avisara que iria apenas no dia anterior? Todo mundo me esperando, ansioso, feliz, alterando minimamente a vida para me agradar um pouquinho, me fazer ter bons momentos, e eu sentindo que poderia também fazer aquilo por aquelas pessoas, que alguma coisa nos liga e eu nem sei o que é, e provavelmente palavras não dão conta de comunicar. Isso sim é que é beleza. você perceber, entender e admirar os momentos em que as palavras não dão conta. assim é a arte, assim são os humanos, assim são os amigos. foram cinco dias em suspenso, com circo, música brega, cinema, filosofia, álcool, rebolados, literatura, novos livros, novos autores, antigos preconceitos, novas visões de mundo. ariana, o problema não é deus, são as instituições. mô, sai daí, arruma um parzinho e vai fazer cinema. mateus, continue atraindo, pelo menos é um caminho. durval, uma bosta. jô, pago pau pra vc. aline, por que a gente é assim? se há alguma coisa que resume tudo isso – e necessariamente será uma palavra vazia -, é a inspiração. vcs me inspiram, me nutrem, renovam as ideias, fazem a ponte entre passado e presente, conseguem perturbar com harmonia e intensidade, me fazer acreditar que viver pode ser melhor, e que vale a pena se fuder todo dia para fazer alguma coisa de bom pelo mundo. e que mais um ano viria, e que ele está cheio de possibilidades, como todos os dias. basta a gente chegar, conversar um pouquinho e transformar tudo. q importa se a cor do prédio mudou, se a franja e os cachos cresceram, se está cada um debaixo de um teto diferente, se nada mais é a mesma coisa? o q importa é o que está embaixo, a filosofia em relação às ciências, a essência, a vodca por trás do limão ou do kiwi, nós. como sempre, voltei de lá novo e velho. é a mistura mais importante do mundo.

Written by Lucas Pretti

janeiro 2, 2009 at 13:52

Publicado em Dia-a-dia, Epifania

Não temos culpa. Merecemos perdão?

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Veja como pode ser perigosa ou esclarecedora a livre associação de conceitos.

Estudando sobre o teatro russo, chegamos inevitavelmente à discussão sobre comunismo. Mesmo porque Anton Tchékov, o autor das peças O Urso e O Pedido de Casamento (que estrearemos em dezembro), viveu no período exatamente anterior à Revolução Soviética. O conceito teórico de “sovietes“, os grupos de cidadãos que se governam a si mesmos, é lindo. Trabalhadores sem patrão decidiriam quanto e como produzir, como seria a divisão dos bens produzidos e a troca de produtos com outros sovietes (o que alimentaria toda a sociedade de todo tipo de material, tudo comum).

Mas não deu certo, como a História provou na URSS, Cuba, Portugal etc. – e parece não haver qualquer dúvida disso. Por quê? Há mil explicações, claro; trezentos milhões de debates já foram realizados em torno disso, e até hoje uma galera nega a falibilidade da coisa. Uma das justificativas a que chegamos nos estudos sobre teatro é que os sovietes derreteram por causa da natureza humana, avessa à democracia pura, socialista.

Nenhum sistema, por menor que seja (como um grupo de teatro, uma redação de jornal), funciona sem comando, por menos autoritário que seja. A liderança, mesmo que sutil e alimentada pelos liderados, acumula poder, nem que seja o da influência. Duas obras de arte recentes mostram e criticam muito bem isso.

O dinamarquês Lars Von Trier, em Dogville, é muito claro em escancarar a natureza humana selvagem, que acaba humilhando e escravizando uma desconhecida quase que gratuitamente, apenas porque havia um ser sobre o qual era possível ter poder (a partir de chantagem). Grace, a personagem de Nicole Kidman, em discussão com o pai mafioso, solta a frase “Os cães não tem consciência nem decidem sobre sua natureza. E por isso devem ser perdoados”. Ela na verdade está falando de humanos. Não conseguimos alcançar o lugar dentro de nós que gira a chave da busca por poder. Então merecemos ser perdoados?

Em Ensaio sobre a Cegueira, o português José Saramago leva ao extremo a opressão do humano pelo humano. Quando todos estão cegos, alguns buscam poder escondendo comida e pedindo objetos e favores sexuais em troca. Era um momento que a união talvez fosse decisiva para tirá-los da situação de exclusão. Os próprios humilhados, por serem vingativos, acabam alimentando o sistema. Mas fazer o quê? Se perdoassem, talvez fossem arrogantes (no conceito trazido em Dogville): o perdão, no filme, é o mais arrogante dos gestos, pois mostra ao perdoado toda a suposta superioridade de quem está perdoando. Difícil haver pureza de fato.

Com tudo isso, a discussão leva naturalmente a justificar os regimes autoritários. Seriam “naturais”, “essenciais” de acordo com a natureza humana. A democracia poderia ser a forma artificial encontrada para todos sobreviverem, já que de outra forma a espécie seria dizimada, autodestruída. E mais: os ditadores deveriam ser perdoados. É da natureza deles, como os cães.

Pior ainda. Concluimos com tudo isso que é humano ser capitalista. Certo ou errado?

Eles passarão Eu passarinho

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Só quero pagar o aluguel. Mais nada. Não posso fazer isso sossegado?

Written by Lucas Pretti

outubro 10, 2008 at 22:28

Publicado em Dia-a-dia, Epifania

Cem anos de solidão

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Cheguei ao jornal há quatro anos, pelo curso para trainees que a empresa dá anualmente. Na época, conheci uma repórter, a Karina Cândido, que me ensinou a saga para conseguir tomar café de graça na empresa, em uma máquina de um departamento obscuro que solta café, cappuccino e chocolate quente sem precisar colocar dinheiro. Ela me contou sob a mais absoluta aura de segredo, ninguém sabia disso, e podia dar merda se alguém soubesse que ela falou etc. Eu, claro, espalhei a novidade e todos os trainees passaram a pegar café todos os dias nas tais máquinas. Um dia, o elevador estava cheio de nós com copinhos marrons na mão, aqueles expelidos pela tal máquina, quando a Karina entrou. Só me olhou e soltou um ‘filho-da-puta’ sonoro e constrangedor.

O tempo passou, nos afastamos, a vida deu umas voltas e hoje em dia rimos muito disso.

Pois hoje, quatro anos depois, a Karina foi até a minha mesa no jornal, com dois novos trainees que acabaram de chegar. Me apresentou os caras e disse que estava indo ensinar para eles como pegar café de graça. Disse que a dica era só pra eles – e recomendou sorrindo que não espalhassem a novidade. Quatro anos depois, nós já estamos bem diferentes, em posições distintas e ainda amigos. O café tem o mesmo gosto.

Written by Lucas Pretti

outubro 2, 2008 at 2:03

Publicado em Epifania

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Algumas pessoas não têm poesia

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Depois de descobrir que o apelido do João Gilberto, nos anos 50, no Rio, era “Zé Maconha”, fiquei reflexivo sobre o envelhecer… Uma pérola dele, para iluminar o domingo:

Internado num hospital de Salvador, suspeito de ser louco um ano antes de criar a batida da Bossa Nova (na verdade em pleno processo criativo, em 1956), João virou para a enfermeira:

– Veja como o vento está descabelando as árvores.

– Joãozinho, árvores não tem cabelos… – respondeu, com certa ironia e pena.

– E algumas pessoas não têm poesia.

Written by Lucas Pretti

agosto 3, 2008 at 19:10

Publicado em Epifania

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O não-caber no mundo move e se cumpre, ocupando tudo

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Andando a esmo pela internet, trombei com um poema de Joca Reiners Terron. Ele é um escritor e poeta contemporâneo que simples e vergonhosamente desconhecia. Veja este poema lindamente boêmio:

No centro

Um bar diante do cu de bronze
do cavalo do Duque de Caxias,
que, à guisa de enigma, fica
na praça princesa Isabel:
isto me faz sentir tão inadequado
quanto o brônzeo ânus desse
quadrúpede, afinal que faço
num boteco no centro da
cidade, alvejado por perdigotos
discursados pelos beatniquins?
No entanto o não-caber no mundo
move e se cumpre, ocupando
tudo: eu, cascos de cerveja, o Ceará-
dono-do-bar e até mesmo o cu
eqüino, buraco negro e cego
como uma galáxia prestes
a nos engolir sobremaneira.
E entre mugidos ou seja lá que
impropérios assoprem cus de
estátuas eqüestres, nos dissolvemos,
Caxias, princesa Isabel, praças,
bêbados, vosmecês e eu:
sob o vasto merdaçal de pombas
sob a penumbra onde já não vejo gestos
sob asas que não deixam rastros nem sombras
sob a mira da gigantesca merda de bronze
que certamente uma hora soltará o cu desse cavalo.

texto daqui, foto daqui

Written by Lucas Pretti

junho 25, 2008 at 18:17

Publicado em Arte, Epifania, Livros, Urbanidades

Tudo acaba, leitor; é um truísmo

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Dia dos Namorados é uma data imposta, comercial, que passa uma idéia de família católica e tudo o mais que o discurso coerente dos libertários dá conta muito melhor do que eu. Concordo com eles. Mas é inevitável parar para um balanço sentimental no dia 12 de junho. Por isso, impossível não recomendar um texto da revista Trip deste mês, assinado pelo escritor, dramaturgo e ator Mário Bortolotto, que mantém o blog Atire no Dramaturgo.

O pessoal da editora convidou o Mário para fazer como no filme Flores Partidas: procurar e rever antigas mulheres/namoradas com o intuito de descobrir o porquê de as relações acabarem. Idéia linda, executada mais lindamente ainda. O texto de Mário é informal, precioso, poético e cético nos momentos certos.

Ao contrário do personagem do filme, ele escolheu presentear as antigas companheiras com CDs. Daí o título do texto “Faixas riscadas”.

Veja dois trechos perturbadores:

Acho que, por mais que tenha tentado obstinadamente me relacionar bem com alguém, tenho mesmo esse jeito que muitas mulheres me esfregaram na cara entre impropérios e pratos arremessados pela cozinha: “Você quer ficar casado e levar vida de solteiro”. Quando elas dizem isso não estão se referindo exatamente a traições nem a festas infindáveis com mulheres das mais variadas etnias. Apenas a porres homéricos e intermináveis madrugadas adentro, uma solidão devastadora e uma falta de companheirismo alardeado por elas ad nauseam.

Então, sentado mortificadamente sozinho lá no chão da kitchenette ouvindo Furry Lewis, fiquei pensando que seria uma oportunidade não exatamente para acertar contas com o passado (acho isso solene demais), mas talvez resgatar velhas baladas para um iPod de última geração. E deixar as faixas riscadas tocarem, simplesmente porque, debaixo de todo o ruído, ainda é possível ouvir a canção.

Link direto aqui.

É um tanto egotrip, claro. Mas o que é a vida se não o cruzamento de viagens individualistas que, vez ou outra, dá num negócio entorpecente delicioso que chamamos de amor?

[Post relacionado: Livro antes]

Written by Lucas Pretti

junho 12, 2008 at 20:29

Publicado em Achados, Epifania, Família

Caldé e a cidade dentro de cada um

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Você certamente não sabe, mas mora em uma cidade chamada Caldé. É a cidade por trás da cidade em que você mora. Como a filosofia, que dá base para as ciências, todos os vilarejos, povoados e metrópoles estão construídos em cima de Caldé. Só há um grande problema. Caldé não foi descoberta.

Na verdade foi. Pelos poucos que já assistiram à montagem Caldé e os Peixes que Aprenderam a Nadar no Ar, com o grupo Tubos de Ensaio dirigido por Marcelo Lazzaratto. Digo poucos, mas sou inexato. O Teatro Célia Helena lotou em todos os dias da primeira temporada, em março. O espetáculo era gratuito e servia como formatura do curso profissionalizante de Interpretação Dramática. O grupo e a faculdade de atores decidiram arriscar uma segunda temporada, profissional, comercial, cuja (re)estréia foi neste sábado, 10. Depois de aclamados, os artistas agora sentem na prática o discurso de como é difícil fazer arte sem apoio de ninguém.


[Mais fotos aqui]

Assisti pela segunda vez à peça neste domingo, num teatro quase vazio, a não ser pelos 15 ou 20 conhecidos do elenco com seus acompanhantes. Quatro atores foram substituídos e o espetáculo ficou melhor ainda, um dos mais tocantes, líricos e transformadores em que já estive. Saí de lá com a certeza de que, como encarecidamente os atores pediram, é preciso divulgar a peça, vencer pelo boca-a-boca a mídia repetitiva e fechada aos não-famosos. Simplesmente porque todos (você também) precisam ver Caldé.

O espetáculo é riquíssimo. Trata de um povoado isolado numa montanha qualquer que sabe ter seu fim próximo, já que uma movimentação tectônica ameaça a cidade, que será alagada a qualquer momento. A partir da noção do fim, cada personagem se transforma. Difícil explicá-los porque as nuances são infinitas. A recatada vendedora de flores resolve dizer as verdade nunca ditas. O assessor puxa-saco e cheio de tiques e manias resolve abandoná-las; percebe que consegue viver sem elas. O cientista cientificista ouve os conselhos, pára de questionar Deus, e cancela as mesquinharias que distribuía por aí. O mais realista de todos é a quem ninguém dá ouvidos: o retardado, garoto com doença mental. Diante da iminência de Caldé submergir, ele quer apenas aprender a respirar embaixo d’água.

A relação entre os personagens é muito bem construída pelo grupo, sob supervisão de Lazzaratto (também escrevi sobre ele aqui). Foram os atores coletivamente que criaram Caldé, com base nas obras de Dario Fo, Fellini e Modigliani. Isso dá ainda mais qualidade ao espetáculo, com momentos técnicos fabulosos. Os atores congelam as cenas para dar ênfase à determinada fala, estão milimetricamente integrados quando há movimentos conjuntos e a fé cênica é tão presente que nos sentimos realmente em Caldé.

Bem, na verdade estamos. Ou você nunca resolveu acreditar numa mentirinha para viver melhor? Não reparou que a herança que deixamos não são só bens materiais? Ou que, mesmo após uma catástrofe na vida, tudo se ajeita, o fluxo continua, as coisas não mudam tanto assim?

Descubra Caldé. Porque Caldé está dentro de você.

Sábados (20h30) e domingos (18h), no Teatro Célia Helena (mapa) (3209.0470)
$ 20 / $10 (estudantes, professores e idosos)
Até dia 1 de junho

Elenco: Adriano Motta, Carla Kinzo, Felipe Mello, Guta Fernandes, Jonaya de Castro, Daniela Caielli, Carolina Fabri, Pedro Lopes, Marina Vieira, Léo Stefanini, Rodrigo Spina e Sheila Mello.

Direção: Marcelo Lazzaratto / Assistente de direção: Gisele Valeri

Dramaturgia: Pedro Lopes, Felipe Mello e Os Tubos de Ensaio

Cenografia: Ulisses Cohn

Figurino: Atílio Beline Vaz

Iluminação: Marcelo Lazzaratto

Trilha sonora: Rodrigo Spina

Preparação corporal: Ana Thomas

Preparação vocal: Nydia Licia

Written by Lucas Pretti

maio 12, 2008 at 2:07