Cubo Mágico

aqui tinha artes, teatro, cultura digital e crônicas contemporâneas

Archive for the ‘Arte’ Category

Minha alma sobrevive à ameaça tomada pela mais sublime graça

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É digna de memória a música-poema declamada por Gero Camilo no capítulo final de Som e Fúria, a minissérie sobre teatro da Globo. Ele disse que nunca faria novela (ou papéis que aprofundassem as diferenças sociais brasileiras – exatamente como o vigia nordestino, pobre e excluído da série), e deve ter aceitado esse papel só por causa dessa cena. Diria que é a única que vale a pena na série toda.

Assista a partir de 4’40”:

E leia a íntegra, com várias ironias deliciosas nas entrelinhas:

outro dia, andando pelo centro da cidade, eu resolvi me dar um presente: sonetos de Shakespeare.

parece uma atitude boa dar-se tais presentes, se eu não tivesse de ter gasto meus últimos tostões, meus últimos tostões, meus últimos, aqueles destinados ao aluguel da casa em troca dos sonetos de Shakespeare.

eu parei em frente a uma livraria e, como um cachorro que só sabe do tempo que anda com o olhar no frango que gira, como o cachorro que sabe da gravidade pela baba que desce da boca, fiquei horas seguidas ali babando sobre a vidraça, que não permitia que minhas mãos tocassem os sonetos de Shakespeare.

o comerciante de livros aproximou-se com um sorriso fosco, perguntei quanto custaria para que os sonetos fossem meus. ele então sorriu, menos fosco e mais vil, e disse-me: ‘custa tanto’. o tanto que ele disse era pouco, nem sabia, até porque ele vendia Shakespeare, pense, junto com culinária e magia. mas as minhas mãos queriam tocar os sonetos de Shakespeare

cavei o bolso e, cédula a cédula, moeda a moeda, deu justo pra pagar e voltar pra casa, nada mais.

esta noite eu sou um homem sem garantia de que amanhã eu terei casa porque eu não paguei o aluguel. quanto à minha alma, ela sobrevive a essa ameaça, tomada pela mais sublime graça em habitar os sonetos de Shakespeare.

Written by Lucas Pretti

agosto 3, 2009 at 21:41

Cleyde e Isabel, por Ariana

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Deixe o tempo agir sobre a cabeça fervilhante que posto aqui algumas impressões sobre as peças do FIT, em Rio Preto. São pelo menos duas apresentações assistidas por dia, mais discussões, encontros, trombadas e papos pseudo-etílicos-intelectuais que só um tempinho de mente vazia para processar e organizar tudo.

Por enquanto, fiquem com as entrevistas em áudio que minha amiga (e anfitriã) Ariana Pereira fez com as atrizs Cleyde Yáconis (por ‘O Caminho Para Meca’) e Isabel Teixeira (por ‘Rainha[(s)] – Duas Atrizes em Busca de um Coração’). Reparem na maturidade sábia de uma e na inquietude e energia de outra:

Cleide:

Isabel, parte 1:

Isabel, parte 2:

Se preferirem ler as entrevistas (obviamente editadas, por isso não recomendo), cliquem aqui e aqui.

Cleyde Yáconis em 'O Caminho para Meca'

Cleyde Yáconis em 'O Caminho para Meca'

Isabel Teixeira pela câmera do Kao

Isabel Teixeira pela câmera do Kao

Written by Lucas Pretti

julho 25, 2009 at 3:38

Programação do FIT 2009

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A organização do Festival Internacional de Teatro de Rio Preto, o FIT, prometeu a programação oficial para 17 de junho, mas ainda não soltou no site. Achei no Rio Preto Te Despreza o link para a grade, que, vai saber, pode nem ser a oficial. Mas, como é o que temos, acreditamos.

grade_fit2009

Já vi a maioria das peças aqui em SP – Rainhas, Senhora dos Afogados, Caminho para Meca, Eldorado, Comunicação a uma Academia. Mas OK, vou ver de novo, o FIT é o FIT.

Meus posts do ano passado sobre o festival:

17/7/08 • O mundo inóspito leva à guerra, inclusive dentro de casa

16/7/08 • A burocracia gera loucos que nos salvam da burocracia

15/7/08 • a luz apagou antes da hora

9/7/08 • Respirar teatro é pouco perto do que acontece no FIT

Written by Lucas Pretti

junho 20, 2009 at 19:18

arte cênica binária

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Reproduzo aqui uma matéria minha sobre teatro digital publicada no Estadão. Por ser um tema infelizmente raro, deixo o texto aqui na íntegra, com o objetivo de popularizar o assunto e deixá-lo mais buscável/encontrável na internet.

As páginas originais você encontra aqui.

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Furacão digital chega ao teatro

Com a internet, corpos se digitalizam e surge um ‘teatro expandido’

Lucas Pretti, 20/4/09, Link/Estadão

A matéria-prima do teatro é o encontro, e não uma fita magnética, um rolo fotográfico, um vinil. A experiência do espetáculo ao vivo, tida como impossível de reproduzir, é o que vinha poupando as artes cênicas dos ventos digitais que há tempos já varreram discos, fotografias e filmes. Pois os ventos se tornaram furacão e conseguiram relativizar até a presença, a experiência. Com a internet, estar em algum lugar deixou de ser uma condição real, física. Os corpos se digitalizaram. E, com eles, o teatro.

Três cenas em três palcos espalhados pelo mundo, ligados pela internet. Exemplo de teatro digital na 'Play On Earth', da Phila 7 e Station House Opera, 2008. Crédito: Marcelo de Souza/Divulgação

Três cenas em três palcos espalhados pelo mundo, ligados pela internet. Exemplo de teatro digital na 'Play On Earth', da Phila 7 e Station House Opera, 2008. Crédito: Marcelo de Souza/Divulgação

Ainda não são muitos pelo mundo e no Brasil, mas grupos cênicos que pesquisam as possibilidades binárias do teatro lideram a vanguarda artística contemporânea. A complexidade vem justamente da fusão entre as atuais teorias de arte (remix, hibridismo, cibercultura) ao que há de efêmero no teatro.

As principais experiências, que o Link resume nesta semana, usam transmissões ao vivo pela web com o intuito de ligar e desligar palcos e plateias distantes geograficamente. Junte a projeção de vídeos, performances, iluminação, artes plásticas e há possibilidades infinitas.

Os próprios artistas não entendem direito a areia movediça sobre a qual propõem espetáculos inovadores. “Sabemos que falamos de algo que não é mais teatro, mas que tem na essência uma teatralidade expandida”, afirma Rodolfo Araújo, ator e estudioso brasileiro do chamado “teatro digital”.

A própria alcunha é perigosa por reduzir o conceito ao significado de digital entendido como eletrônico pela maioria das pessoas – e por incluir erroneamente o teatro tradicional filmado e postado no YouTube (que não é, definitivamente, uma experiência de teatro digital).

A discussão vai longe, mas já há teóricos debruçados sobre o assunto. A artista Nadja Masura, da Universidade de Maryland, nos EUA, trabalha numa tese em que condiciona o teatro digital a algumas características – basicamente a existência de alguém conduzindo o espetáculo, um texto (que não é apenas palavra) e o público. A questão é que todos os elementos são relativos hoje em dia e expandidos a níveis máximos.

Se você nunca ouviu falar de grupos como Phila 7, La Fura dels Baus, Station House Opera, II Trupe de Choque e Cia. Automecânica de Teatro, leia a reportagem até o fim e relativize a cortina vermelha, os três sinais e as máscaras da comédia e tragédia – que coexistem, claro, mas representam um teatro de outros tempos.

Teatro digital é a soma entre atores, 0 e 1 se movimentando na internet. A ação de dois atores em dois tempos e espaços diferentes correspondem a tempos infinitos e espaços virtuais. (…) O teatro digital é a linguagem binária sendo usada para conectar o orgânico com o inorgânico, o material com o virtual, o ator real com o avatar, a plateia presente com usuários de internet, o palco físico com o ciberespaço.”
Manifesto Binário, publicado pela companhia La Fura dels Baus

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Vida fragmentada do século 21 ganha espelho no teatro

Desconstrução do espaço e tempo, mistura de linguagens, fim da linearidade, ausência de uma mensagem fechada: um teatro feito de partes, como a realidade de hoje

As duas principais besteiras ouvidas quando se fala em teatro digital são especulações sobre a “morte” das peças tradicionais e a ironia típica dos puristas: “Isso não é teatro”. Não é mesmo e nenhum dos envolvidos com essa proposta artística sustenta o contrário, embora se mantenha a tríade atores, público e mensagem, que define teoricamente o teatro.

Gravação de '121.023 J', no Teatro Para Alguém. A câmera é o olho do público, na internet. Um novo conceito de presença. Foto: Nelson Kao/Divulgação

Gravação de '121.023 J', no Teatro Para Alguém. A câmera é o olho do público, na internet. Um novo conceito de presença. Foto: Nelson Kao/Divulgação

“A internet descentralizou os meios de produção, abriu a fase de colaboração e fez explodir a mistura de linguagens em todas as áreas profissionais. Então o que fazemos não é teatro. É qualquer outra coisa misturada. Mas isso, na verdade, pouco importa. É fluxo”, afirma o diretor da companhia paulista Phila 7, Rubens Velloso.

Ele dirige a trupe brasileira com mais visibilidade entre as interessadas na conversa entre artes cênicas e tecnologia, com três espetáculos tratados sob a ótica digital desde 2006: Play On Earth, A Verdade Relativa da Coisa em Si e What’s Wrong With the World?. Em todas houve ação à distância, com atores contracenando ao mesmo tempo em locais diferentes, até países. A foto acima evita muitas linhas de explicação.

O próximo espetáculo da Phila 7, em julho, pretende romper com o palco italiano e outros cânones do teatro convencional, como os momentos em que começa e termina o espetáculo e a linearidade, que será abandonada. Uma comparação feita pelo pesquisador Rodolfo Araújo situa o leitor menos acostumado com performances. “Na música eletrônica pouco importa o início e o fim, não é obrigatório dançar e também ninguém está interessado numa ‘mensagem’ fechada.” É o que ocorre com esse novo teatro.

Então estamos diante de uma revolução da forma? Não. O modo de se fazer é alterado substancialmente pela tecnologia, mas não faz sentido se não estiver relacionado ao conteúdo. O trabalho da companhia paulista II Trupe de Choque é um bom exemplo disso. Eles unem compromisso social, cultura livre e tecnologia para discutir, num espetáculo esperado para setembro, a condição do homem no atual sistema capitalista da informação.

A abordagem é tão complexa que lá se vão três anos de pesquisa no Hospital Psiquiátrico Pinel, em Pirituba, e na Usina de Compostagem de São Mateus, na zona leste da capital. O trabalho inclui pacientes do hospital e catadores de lixo num espetáculo que unirá os dois locais pela internet e terá uma terceira versão transmitida online.

“Estamos discutindo a centralidade do homem contemporâneo pela desconstrução do espaço. Se há três ações ao mesmo tempo, não há uma central. É sempre parte, nunca todo. Assim processamos as informações hoje”, afirma um dos atores da companhia, Fabrício Muriana.

A parte pelo todo é o objeto de pesquisa de uma corrente dramatúrgica contemporânea, dedicada à produção de textos hiperdramáticos. O termo foi cunhado em 2002 pelo escritor norte-americano Charles Deemer. É o texto do teatro digital.

Se há a abstração quase total levada à prática por companhias alternativas, também já tem gente fazendo teatro pela internet com uma cara mais próxima do público de hoje.

O projeto Teatro Para Alguém, idealizado pela atriz e diretora Renata Jesion, desde novembro mantém na internet produções periódicas de peças transmitidas ao vivo e arquivadas no YouTube. “Os atores interpretam para a câmera, mas na verdade há centenas de pessoas ali atrás. Estamos experimentando essa nova relação de presença”, afirma Renata.

O teatro flexível, palpável aberto, mixável só está começando. Para o público – que já não é mais apenas público, mas ator também – sobrou a função de ligar os pontos.

O digital traz para as artes a falta de definição. A tendência é misturar tudo, o que chamamos de sistemas híbridos. A linguagem se torna quântica de certa forma, com um mesmo signo tendo vários ou nenhum significado ou função.”
Lucia Santaella, semioticista autora do livro Cultura e Artes do Pós-Humano

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Texto de peça digital é ‘linkável’

A melhor forma de explicar o hiperdrama é o exemplo dado pelo autor do conceito, o escritor americano Charles Deemer, professor da Portland State University. Imaginemos Quem tem medo de Virginia Woolf?, peça de 1962 de Edward Albee, clássico do realismo norte-americano. A peça se passa na casa de George e Martha, que convidam Nick e Honey, outro casal, e os colocam em situações constrangedoras. A ação é fixada na sala de estar.

Na acepção de Deemer, a peça poderia muito bem ser remontada com um texto hiperdramático numa casa de verdade. Quando houvesse entrada e saída de personagens da sala, o público teria a escolha de acompanhá-lo e vê-lo realizando ações extras à peça original no banheiro, na cozinha, no quarto. Quem ficasse na sala, assistiria à peça como Albee a pensou.

É a aplicação do conceito de hiperlinks ao texto dramático. Não apenas varia a forma de contar a história como a enriquece e “complexifica”, deixando para o público diversas escolhas. Qualquer uma será, necessariamente, parte do todo. O exemplo não usou a internet. Imagine o que fazer quando o espaço for o ciberespaço.

Interessados podem ler a versão hiperdramática de Deemer para A Gaivota, de Anton Tchekhov, no site tinyurl.com/dleksd.

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Experiências estrangeiras

Imperium, La Fura dels Bals
La Fura dels Bauswww.lafura.com
Barcelona, Espanha
É o grupo autor do Manifesto Binário que deu origem ao nome “teatro digital”. Investiga as relações possíveis entre homens tendo a internet como meio e fim. Usa transmissões ao vivo como elemento cênico de grandes produções e lidera o movimento do novo teatro com as peças Imperium (foto), Metamorfosis, XXX, Obit e Naumon.

Play On Earth, Station House Opera
Station House Operawww.stationhouseopera.com
Londres, Inglaterra
Julian Smith é filha de um geneticista e fundou a companhia, originalmente um grupo de performers, para explorar as relações entre as pessoas e o meio ambiente – o digital também. Em Play On Earth (foto), o rosto projetado de um personagem é formado por dois atores atuando ao mesmo tempo.

Telematic Dreaming, Paul Sermon
Paul Sermonwww.hgb-leipzig.de/~sermon
Salford, Inglaterra
A instalação Telematic Dreaming, do artista britânico, está mais perto da performance que do teatro, mas inspirou atores e diretores a pesquisar, nos anos 90, a presença do digital na vida das pessoas. Uma cama serve de palco para qualquer um, inclusive atores, interagirem com projeções de vídeo cujas fontes também são a internet.

Experiências brasileiras

A Verdade Relativa da Coisa em Si, Phila 7
Phila 7www.gag.art.br
São Paulo
Os espetáculos foram avançando na discussão da presença, sob as teorias de Flusser (imagem técnica) e Foucault (espaços heterotópicos). O próximo espetáculo, sem nome, se baseia na pesquisa Desesperando Godot, inversão contemporânea do texto de Beckett. Godot chegar ou não pouco importaria para o mundo conectado de hoje.

ensaio, II Trupe de Choque
II Trupe de Choquewww.trupedechoque.org
São Paulo
Os 26 atores se dividem em núcleos para pesquisar tecnologia e vídeo. São quase três anos de estudos em áreas periféricas da cidade sob as teorias de Marx e da Escola de Frankfurt aplicadas ao capitalismo da informação. O espetáculo, em setembro, unirá locais pela internet para discutir o “centro” das coisas com a pretensão de fissurar o modelo hegemônico e alterar mentalidades.

Corpo Estranho, Teatro Para Alguém
Cia. Automecânica de Teatrowww.teatroparaalguem.com.br
São Paulo
A companhia convida autores contemporâneos, como Lourenço Mutarelli, para montar peças e transmiti-las pela web. Os espetáculos passados ficam disponíveis para sempre, num banco de dados que se fará riquíssimo com o tempo. A principal pesquisa é de linguagem e modelo de negócios, que mistura TV, teatro, cinema e internet.

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Teatro digital na estante


Hamlet no Holodeck
, de Janet Murray
www.editoraunesp.com.br/titulo_view.asp?IDT=102
A autora teoriza sobre as novas formas de narrativa contemporâneas e a necessidade da interrelação das artes.


Computers as Theatre
, de Brenda Laurel
vig.pearsoned.co.uk/catalog/academic/product/0,1144,0201550601,00.html
O livro trata da relação entre o teatro contemporâneo e os videogames. Eles são experiências dramáticas de certa forma.

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Encenação hi-tech nem sempre é digital

Da mesma forma que a relativização trazida pelo digital pode ser altamente benéfica para a criatividade e a arte contemporânea sem barreiras, é perigoso encará-la como uma abertura sem critérios. Nem tudo que usa tecnologia é inovador. Nem todo teatro com elementos eletrônicos é digital.

Deu sono a montagem de 'O Sono de Fauno', em Curitiba, pretensamente uma experiência de teatro digital. Foto: Divulgação

Deu sono a montagem de 'O Sono de Fauno', em Curitiba, pretensamente uma experiência de teatro digital. Foto: Divulgação

Um exemplo claro dessa confusão ocorreu no Festival de Curitiba deste ano, um dos eventos mais influentes do País. Uma das peças apresentadas na mostra Fringe, O Sono do Fauno, da companhia piauiense Os Shakespirados, tinha como atração dois atores contracenando por Skype. Um deles no Japão, outro no Brasil.

A peça usava palco italiano e todas as premissas do teatro tradicional, mas com texto e proposta cênica ininteligíveis. Um telão no fundo mostrava a gravação do ator no outro lado do mundo – o Skype não funcionou no dia, pois o Memorial Oscar Niemeyer não tem rede de internet disponível no anfiteatro –, sem nenhum ganho para a história. Era a tecnologia pela tecnologia, um recurso que poderia ser substituído criativamente por algo ali fisicamente no palco.

O Sono do Fauno também serve de exemplo para as dificuldades técnicas encaradas diariamente pelo teatro digital. É a minoria dos teatros que está equipada hoje com a infra-estrutura necessária para um espetáculo com internet.

A precariedade atinge inclusive as companhias de pesquisa. No Pinel, onde ensaia a II Trupe de Choque, não há rede banda larga. Para um espetáculo da Phila 7 existir, é preciso rede dedicada e uma parafernália técnica de câmeras e microfones. Tudo isso significa dinheiro, um tema delicado ao teatro, cujo fomento estatal está longe do ideal no Brasil.

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O diálogo teatro-tecnologia

Eletricidade
Eletricidade

A luz elétrica causou fervor no século 19. O recurso foi muito aproveitado pelo naturalismo, originou o movimento futurista moderno e possibilitou então formas menos figurativas de arte. Foi quando Edward Gordon Craig e Adolphe Appia revolucionaram a cenografia com as “esculturas de luz”. A iluminação passou a ser um dos pilares do abstracionismo teatral.

A dança de Loïe Fuller
A dança de Loïe Fuller

Espetáculos de dança da americana deram bases, a partir de 1890, a pesquisas mais profundas sobre iluminação. Nas coreografias de Loïe, a luz atuava ao lado da bailarina. A peça OP 1, da Phila 7, é uma releitura disso a partir da complexidade contemporânea.

'Arte total' de Wagner
‘Arte total’ de Wagner
O compositor alemão Richard Wagner produzia óperas grandiosas no século 19 e foi um dos primeiros a falar em “arte total” (Gesamtkunstwerk), a origem dos movimentos híbridos potencializados de forma gigante pelas novas tecnologias e a internet. O filósofo Friedrich Nietzsche analisou todos os movimentos artísticos e a natureza da arte a partir da obra de Wagner, no livro O Nascimento da Tragédia.

Contracultura e happening
Contracultura e happening

A contracultura dos anos 1950 e 60 assistiu ao aparecimento do happening, que mais tarde originaria a performance. Mantém a tríade do teatro (pessoa, texto, público), mas relativiza o espaço cênico e usa qualquer recurso para dar a mensagem.

Avatares
Avatares

Com a popularização da internet e o desenvolvimento das tecnologias gráficas, apareceu nos anos 2000 o conceito de avatar, a representação virtual utilizada em jogos e mundos virtuais. Qualquer um no controle de um avatar está representando, com fins dramáticos ou não. A noção de presença é ampliada, e as artes começam a se valer dela.

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ENTREVISTA – RODOLFO ARAÚJO

‘Teatro digital é presença na ausência’

Se tudo é relativo e permitido na era digital do teatro, parece impossível catalogar as ideias. Abaixo, o pesquisador Rodolfo Araújo traça um panorama da nova arte, com a única certeza de que ela é múltipla.

Já é possível falar na categoria “teatro digital”, assim como há o épico, rústico, físico?
Eu sou avesso a essas denominações. Acho que, da mesma forma que o Link é mais um caderno de cultura digital e menos um caderno técnico, o teatro também vive dessa mistura toda. Mas há quem use a expressão “teatro digital” e coloque limites para a execução, a existência – mesmo relativa – da tríade pessoa, texto, público.

Telepresença é fundamental para o teatro digital existir?
O que se vê muito em conferências, o cara em tamanho real num holograma 3D, é uma baita possibilidade para criar espaços cênicos de convergência total. Peças como Play On Earth trazem uma presença na ausência. O ator está aqui e na Inglaterra ao mesmo tempo, fazendo-se ver e ouvir numa presença inclusive social, porque ele interfere culturalmente com um grupo de pessoas. A carne deixa de ser uma necessidade inexorável.

Qual o futuro ou as novas possibilidades do teatro fora a telepresença?
É a questão do corpo. Na semana passada foi notícia o australiano Stel Arc, nome famoso da body art que colocou uma orelha no antebraço. Ele vai usar um microfone para tentar ouvir o que se passa nessa orelha (risos). São dimensões radicais, mas válidas para responder qual será o corpo biotecnológico do futuro. Que outras modificações o corpo pode ter num contexto de representação? É uma questão obscura, mas um dos caminhos.

A relativização contemporânea pode ser perigosa? Podemos chegar ao nada a partir do “tudo pode”?
Não acho. É um cenário de experimentação naturalmente confuso. Duvido que essas estéticas hoje testadas pela Phila 7 ou pela La Fura dels Baus sejam a mesma que irá se popularizar daqui um tempo. Não estamos numa estética definitiva. É o primeiro passo na direção de algo que ninguém sabe o que vai ser.

Mas não pode também ter a pretensão de ser massiva. Estamos na cauda longa, afinal.
Exatamente. O digital não se pressupõe massivo. O conceito de popular acabou, não deve ser a pretensão desse teatro. O processo é colaborativo, a própria ideia de direção mudará.

Em São Paulo, mesmo entre companhias “offline”, há uma força de teatro de grupo voltando, com criações coletivas. O digital é responsável por isso?
É também. O digital alimenta o físico, que realimenta o digital, e essa dialética faz a arte avançar. Definitivamente, vivemos num mundo sem verdades absolutas. Daí um espetáculo ser ultrapassado quando quer “vender” ideias fechadas. O teatro de grupo evita esse tipo de comportamento.

Furtivas

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Fui ao Sesc Pompeia hoje pra ver dois vídeos da atriz/performer/bailarina Ondina Castilho na mostra Intimidade. E me encantei com o trabalho de outro artista, Mauro Piva. Numa série que ele batiza de Pequenas coisas que importam, pinta mãos que se encontram furtivamente ou não em mesas as mais diversas, de botecos a restaurantes chiques, pubs e festas de casamento. Tão delicado. Tão preciso.

desenho de Mauro Piva

desenho de Mauro Piva

Written by Lucas Pretti

abril 3, 2009 at 16:31

‘Salvar a cultura ou salvar o Cultura?’

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Impossível não republicar aqui o texto da atriz Daniela Carmona que está circulando por e-mail. Reflexões sobre política cultural. Penso igualzinho.

Teatro Cultura Artística após o incêndio

Teatro Cultura Artística após o incêndio

SALVAR A CULTURA OU SALVAR O CULTURA?

Antes de tecer qualquer consideração, tomo a iniciativa individual que, espero, inspire demais cidadãos (pois não posso apenas me reportar à classe artística, já que a exclusão é da sociedade civil no geral…) a fazê-la coletiva. Transcrevo abaixo, palavra por palavra, grifo por grifo, nota da coluna “Direto da Fonte”, de Sonia Racy, do Caderno 2 do Estado de São Paulo, de sexta feira, dia 20 de março de 2009:

O novo TCA, na nova Roosevelt

Sete meses depois do incêndio, o Teatro Cultura Artística dá a volta por cima. Em jantar na casa de Gilberto Kassab, anteontem, empresários e banqueiros, além de lideranças culturais, assistiram a vídeo inédito de sete minutos mostrando o novo projeto da Sociedade de Cultura Artística para o TCA.

A idéia é criar o Centro de Cultura Artística, com uma área de construção cinco vezes maior. E transformar aquele pedaço da praça Roosevelt em área nobre, padrão rua Avanhandava, ali do lado. O custo disso tudo? Na primeira fase do projeto, R$ 40 milhões. Na segunda, R$ 30 milhões.

Entre os pesos-pesados presentes, Henrique Meirelles, Luciano Coutinho, Aloisio Faria (Odebrecht), Caco Pires (Camargo Corrêa), David Feffer (Suzano), Zeco Auriemo (JHSF), André Esteves (BTG), Rubens Ometto (Cosan), Ricardo Steinbruch (Vicunha). Pelos artistas, Karen Rodrigues.

O novo TCA…2

No encontro, o vice-presidente da Sociedade, Cláudio Sonder, detalhou como ajudar. Haverá cotas platinum, brilhante e ouro, de R$ 3 milhões a R$ 500 mil. Antonio Quintella, do Credit Suisse, avisou já ter destinado, via Lei Rouanet, R$ 2 milhões para preservar o mural da frente, de Di Cavalcanti, não atingido pelo fogo.

Carlos Jereissati assegurou que doará R$ 3 milhões. Luciano Coutinho prometeu ver como o BNDES poderá ajudar. E Roberto Baumgarten avaliava o que poderia dar a mais – ele doou o segundo Steinway ao TCA.

Todos elogiaram a idéia, mas alguns comentavam ser esta a “fase do atacado”. E que vão esperar “a do varejo”.

O novo TCA…3

Ao justificar sua adesão, o prefeito – que cedeu sua própria casa para o encontro – disse ter-se emocionado quando foi ver os restos do incêndio, em agosto.

E viu os artistas chorando.

Impressionante. Quando achávamos que a crise estava engolindo todos os investimentos nas áreas culturais via leis de Incentivo, com as empresas cancelando editais de patrocínio, reduzindo drasticamente sua verba para a Cultura, como noticiado pelo mesmo Caderno 2 há duas semanas, eis que, solenemente, elas resurgem das cinzas com a boa nova: estão dispostas a doar um mínimo de 500 mil  e um máximo de 3 milhões de reais para salvar esse ícone cultural, o Teatro Cultura Artística, teatro sabidamente freqüentado por uma parcela significativa da população (uns 5%?), que podia ter acesso aos preços digamos, pouco populares. Que para reerguer-se, pretende captar 70 milhões de reais junto ao empresariado brasileiro. Fácil assim.

Impressionante a sensibilidade do empresariado brasileiro. Que deve ter revisto suas contas e visto que a crise talvez não seja tão grave assim, e que poderá com gesto tão nobre revitalizar uma área que… bom, pra qualquer cidadão medianamente bem informado, que já está sendo revitalizada há anos pelos grupos teatrais que têm sede na praça Roosevelt (Satyros, Parlapatões, a Cia. Da Revista, Teatro 184, Teatro dos Atores…) e pelo cada vez mais numeroso público que a freqüenta, sem contar com um tostão sequer deste tão sensibilizado empresariado brasileiro, tampouco com o comovido poder público, que promete uma reforma na referida praça há mais de duas gestões e até agora nem varrer a praça foi capaz. (aliás, se eu fosse de qualquer um desses teatros, aconselharia a abrirem os olhos e ouvidos pois, para crescer em cinco vezes de tamanho, o tal Centro, se não for crescer pra cima, só tem a opção de passar o trator por cima de quem estiver na frente, digo, atrás, como é o caso).

Impressionante que a política cultural praticada pela atual gestão esteja tão empenhada em ajudar um único teatro (fico triste pelo incêndio, mas minhas lágrimas estão voltadas para causas mais abrangentes, agora lágrimas de indignação) e pretenda, por outro lado, excluir, através do Projeto de Lei 671/07, do Plano Diretor Estratégico, os artigos 17 ao 53, que dizem respeito justamente, entre outras áreas fundamentais, às áreas culturais, de recreação e lazer. Quem quiser, informe-se no site www.cooperativadeteatro.com.br, sobre manifestação ocorrida no dia 13 de março, por ocasião da audiência pública na Câmara Municipal para examinar a constitucionalidade desse projeto de Lei.

Impressionante que a classe artística de São Paulo organize-se e brigue por leis de fomento públicas mais substanciosas há mais de dez anos, sobrevivendo aos trancos e barrancos e fazendo o milagre da multiplicação dos tostões para apresentar à população não só obras de arte de qualidade, mas também trazer essa população para uma participação ativa dessas mesmas obras, orientando, formando, ensinando, empregando… sem que esses números impressionantes… impressionem ou sensibilizem nossa tão sensível gestão municipal, que semestre após semestre ameaça cortar drasticamente o montante de seus mecanismos de fomento (senhor prefeito, vá consultar quantas pessoas a Lei de Fomento ao Teatro, bem como a da Dança, já beneficiou direta e indiretamente, e veja que daria para encher seu tão amado novo Cultura Artística por bem mais de uma centena de vezes).

Nesse momento, não represento grupo nenhum, não sou porta-voz de nenhuma organização. Mas sou artista e cidadã, e sinto-me na obrigação de expressar minha sincera indignação pelo absurdo da situação promovida por nosso digníssimo prefeito. E faço aqui uma sugestão, leve a sério quem achar pertinente: que os artistas de São Paulo marchem em coro e reúnam-se em frente à casa do Sr. Prefeito e abram o berreiro por umas cinco horas pelo menos, todos juntos, fazendo um legítimo Dia do Choro, banhando de lágrimas a fachada de sua residência, para ver se o Sr. Prefeito se comove sinceramente conosco como se comoveu na ocasião do incêndio (pois botar fogo em nossos teatros seria um pouco demais…). E faça algo de fato pela cultura, e não somente pelo Cultura.

Daniela Carmona
Atriz

o tempo em suspenso

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um dia como hoje é raríssimo. quando eu venho pra este blog agradecer ao jornalismo por me levar a uma existência superiormente interessante. acho que nunca fiz isso. bem diz Sérgio Roveri que o mundo é bem mais bonito e colorido no teatro (apesar de tudo), mas “quando o jornalismo resolve ser generoso, sai da frente”. tudo isso porque ainda estou encantando com a entrevista que fiz com o Hermeto Pascoal, em curitiba.

obviamente não tenho cacife pra uma entrevista dessa. quando a pauta surgiu aqui no jornal, hesitei mas abracei, claro, já antevendo momentos mágicos diante do gênio albino alagoano. estava certo na percepção. assim como fiz certo, acho, em deixar o cara falar, falar, falar, para interrompê-lo apenas com duas ou três perguntas necessárias à pauta e mais 500 ou 600 questões artísticas. sim, aproveitei para sugar tudo o que o cara tinha a dizer sobre arte.

não vou conseguir resumir num texto aqui nem tenho a pretensão – e um material desse não deve ter tratamento jornalístico. já basta o que saiu no jornal, um recorte obviamente incompleto. gravei a entrevista. publico assim que converter para um formato leve (tem mais de duas horas!). ele me detalhou a teoria que desenvolveu sobre música universal, deu lições sobre criação, sensibilidade, vida. batucou na mesa, para ser acompanhado por Aline Morena (uma puta parceira) cantando numa língua inexistente um delicioso xote nordestino. sem falsa modéstia, deu vontade de dizer “pára, eu não mereço ouvir isso”. o tempo ficou em suspenso.

o resultado, necessariamente reducionista e uma parte do todo, está aqui: texto | página. transmitir algo na plenitude é um negócio que o jornalismo ainda não alcançou.

Written by Lucas Pretti

março 31, 2009 at 18:30

O torso negro e a taturana

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Não é belo quando arte, natureza e acaso se unem? A taturana sabia exatamente o lugar dela na escultura Torso Negro, de Vera Torres, em frente ao teatro do Memorial da América Latina, naquele domingo de ventos fortes, que tirei o fim da tarde para assistir Medea.

O torso negro e a taturana

Written by Lucas Pretti

março 17, 2009 at 2:58

O teatro e o ‘financiamento público de campanha’

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Só depois que já estava em Portland há alguns dias é que soube da fama da cidade, de ter uma das maiores e ativas comunidades artísticas dos Estados Unidos. Realmente dá para perceber. Além de diversas companhias (são 42 para 550 mil habitantes, uma coisa estrondosa no mínimo — veja a lista aqui), há uma organização em torno da “indústria” das artes cênicas, uma gestão realmente diferenciada, algo digno de nota, e de post.

Fachada do PCS na NW 11th St.

Fachada do PCS na NW 11th St.

Vejamos particularmente a experiência do Portland Center Stage (PCS), onde eu assisti à peça How to Disappear Completely and Never Be Found. Além de algum incentivo oficial, eles têm diversos patrocinadores/apoiadores e contam principalmente com algo parecido com o financiamento público de campanha: é a comunidade, o público, a plateia que banca a existência da companhia, do espaço, dos espetáculos. A assinatura mensal é vantajosa para o pagante. Ele passa a ter lugar privilegiado em todos os espetáculos da temporada, estacionamento gratuito na porta do teatro e alguns outros brindes e promoções (sorteios, coisas do gênero).

Antes da peça a que assisti, o diretor executivo do PCS, Greg Philips, esteve no palco e falou por um tempo com a plateia. Agradeceu pelo apoio voluntário, pelo financiamento, e anunciou quais outros espetáculos o teatro apresentaria na temporada 2009. Cada título era recebido com um ‘Oh’ ou ‘Ah’ mais ou menos rumoroso dependendo da peça. Para se ter ideia, Frost-Nixon(que deu origem ao filme finalista no Oscar deste ano) voltará à casa em abril. O simpático Philips ainda fez algumas piadas, convidou todos a entrarem no site do PCS e comentarem sobre a peça, além de deixar muito claro que “nossa proposta de reinventar o modo de sobrevivência das artes cênicas, num mundo em que teatros passam por dificuldades, só pode existir com a colaboração de vocês. Nossa contrapartida é fazer bons trabalhos de pesquisa que sejam relevantes para a existência da comunidade de Portland”.

Hall principal, em frente ao Armory Cafe

Hall principal, em frente ao Armory Cafe

Hall do Ellyn Bye Studio

Hall do Ellyn Bye Studio

Entrada de 'How to Disappear...'

Entrada de 'How to Disappear...'

Público espera a peça começar

Público espera a peça começar

Palco, com cenário de Chris Rousseau

Palco, com cenário de Chris Rousseau

Na placa, o endereço do site www.pcs.org

Na placa, o endereço do site http://www.pcs.org

O site é outro exemplo de como, em geral, os teatros não acordaram para o poder da internet (com exceções, claro). O PCS.org tem um blog, se integra com ferramentas de redes sociais como Facebook, Twitter etc., mostra todos trailers de peças e funciona mesmo como um hub para unir comunidade artística e espectadores. Cada peça ganha um PDF com entrevistas, ficha técnica e várias informações contextuais. Não é à toa que, pelo site, é possível também se tornar voluntário de eventos determinados do teatro (como festivais e oficinas) e se tornar sócio, claro. Toda essa organização resulta numa organização tal que, no dia da peça, cada espectador recebe uma revista sobre o espetáculo, com reportagens, perfil de todos os envolvidos na produção (do ator ao iluminador) e anúncios, a maioria relevante para quem está ali.

Página da revista com informações dos atores Cody Nickell, Kate Eastwood Norris, Darius Pierce, Laura Faye Smith e Ebbe Roe Smith, além do dramaturgo Fin Kennedy e da diretora Rose Riordan

Página da revista com informações dos atores Cody Nickell, Kate Eastwood Norris, Darius Pierce, Laura Faye Smith e Ebbe Roe Smith, além do dramaturgo Fin Kennedy e da diretora Rose Riordan

O único grupo brasileiro que tenho notícia de tentar fazer algo semelhante é o Folias D’Arte, em SP. Pelo site, é possível se tornar sócio, doando R$ 30 ou R$ 100 mensais. Mas não há qualquer vantagem. Quem não conhece o grupo tem a sensação de ter jogado dinheiro no limbo.

Exemplos como o de Portland mostram que, se bem trabalhado, o nicho teatral pode subsistir — e muito — sem mendigar recursos do governo e atenção dos pouco interessados nas performing arts.

Written by Lucas Pretti

março 16, 2009 at 3:38

Pelo direito de não gargalhar de tudo

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Não adianta só colocar no Coisas Lidas aqui ao lado. O texto que Sergio Roveri publicou nesta semana é obrigatório por ser arrebatador. É arrebatador pela urgência, realismo, lucidez e pelas mãos atadas:

Pelo direito de não gargalhar de tudo

O finalzinho:

Se alguém é capaz de gargalhar – estou ressaltando: o verbo é gargalhar – diante da imagem de uma mãe que viu seu bebê de seis meses morrer queimado, então eu já não sei mais para quem ou o quê devemos dedicar aquelas poucas lágrimas que não temos vergonha de exibir em público. Temo pelo futuro do teatro, sinceramente. Cresci ouvindo a ameaça de que a tevê e o cinema um dia o destruiriam. Acho que não: o grande inimigo do teatro são aqueles que, impiedosamente, saem de casa noite após noite para pisotear a máscara da tragédia.

Written by Lucas Pretti

janeiro 31, 2009 at 15:31

pixels

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File 2009

Do File 2009. Aberto para inscrições.

O que é o File? Aqui.

Written by Lucas Pretti

janeiro 27, 2009 at 20:00

Eu obamo, tu obamas

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Como todos os jornalistas ordinários do mundo, nesta semana eu escrevi sobre Obama e o WhiteHouse.gov no Link. Eu sei q vc não aguenta mais ler sobre esse cara, mas vê aí:

http://1ou2escritos.wordpress.com/2009/01/26/obama-e-os-governos-20/

A Bravo deste mês tem uma matéria diferente sobre o tema, com o artista plástico Shepard Fairey. Ele manipulou uma foto de Obama para fazer o cartaz abaixo. O semblante e o tipo de traço já são comparados à foto clássica de Che Guevara. Os dois são indiscutivelmente mitos políticos pop. A matéria está aqui.

Obama e Che

Written by Lucas Pretti

janeiro 26, 2009 at 15:54

o maior cinema do mundo

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Cartazes da filmes na Nigéria

Já ouviu falar em Nollywood? É a indústria tosca de cinema nigeriano que – ouça bem – é a maior do mundo em número de títulos produzidos. Puta história. Não sei como o Lino descobriu isso, só sei que cruzei com ele na Alemanha antes do cara ir pra Lagos, no ano passado. O resultado saiu na Trip deste mês.

http://revistatrip.uol.com.br/173/especial_diversidade/nollywood/home.htm

Dá pra ver alguns no YouTube, como Excess Money, abaixo:

O resto aqui.

Written by Lucas Pretti

janeiro 14, 2009 at 21:18

Publicado em Arte, Cinema

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‘Fizemos esse trabalho com a alma’. X pra eles

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E começou Maysa. O que esperar de uma minissérie global escrita pelo Manoel Carlos (bom, dessa vez não teve jeito de colocar uma Helena de protagonista, sifu, haha), dirigida pelo filho da protagonista, Jayme Monjardim, e feita para distrair cerumanos em janeiro antes de começar o Big Brother? Nepotismo, claro.

Me chamem de mal humorado, eu aceito. Mas fico puto com esse tipo de coisa. O tal neto da Maysa, filho do diretor, Jayme Matarazzo, é cineasta. CINEASTA. Aliás, ainda NÃO É cineasta. Ele trancou a faculdade de cinema no 5º semestre. E a pergunta é: o que ele faz como ator na minissérie? O que ele sabe sobre interpretação? As respostas: o cara é de família poderosa, tem pai influente, vó nem se fala, é meio bonitinho e pronto: é ator.

O ator Jayme Matarazzo

O 'ator' Jayme Matarazzo

Olha o que ele disse numa entrevista:

Acho que supri qualquer técnica que eu não tenho como ator me doando com muita emoção para esse personagem. Eu e meu pai fizemos esse trabalho com a alma.

Emoção? Alma? “Qualquer técnica”? Isso me parece muito pouco profissional e desrespeitoso.

Como eu nunca havia atuado, não sabia como dar conta da responsabilidade de viver um papel que justamente trata da história do meu pai. Mas me propus a fazer um teste. Me preparei uns 15 dias e o resultado ficou bom. Daí o meu irmão André também fez teste e passou para interpretar meu pai na infância.

15 dias? Teste? Bom? Deu pra perceber o alto nível dos testes na Globo.

Foi uma composição completamente emocional. Descobri muitas coisas sobre ele, que somos muito sensíveis.

Emocional? Sensíveis? Perdoe-o, ele não sabe o que diz.

Gostei de atuar e pretendo continuar. Vou estudar, fazer cursos de interpretação. Tomei gosto pela profissão de ator.

Gosto pelo quê? Ele não sabe NADA sobre a profissão.

As pessoas não sabem quantas broncas levei com meu pai como diretor. O que me interessa é fazer um trabalho com o coração, com a minha verdade. Claro que as críticas são inevitáveis. Só tive cenas complicadas, emocionantes. Tenho feito o mesmo que meu pai: abrir o coração para contar a história da minha avó com qualidade e carinho.

Broncas? Tadinho. Coração? Ah, me desculpe.

Essa é a seriedade com que os brasileiros encaram as artes cênicas. Um puta exemplo disso, aliás, A culpa é também da própria “classe teatral”. Cadê um sindicato pra proibir esse moleque de tirar a vaga de um ator profissional? E os atores, que não fazem barricada, piquete, gritaria, pichação? Ele não poderia nem ser “assistente de direção”, como é; no máximo estagiário (ele tá no 3º ano, lembra?). Aí vem a Editora Globo, na Época São Paulo, e coloca o cara na capa como um dos “paulistanos que vão fazer 2009”. É pra cuspir em cima.

E eu preocupado em discutir arte… Então tá.

Written by Lucas Pretti

janeiro 6, 2009 at 0:20

Se vc não vai ao teatro, o teatro vai até vc

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Saiu em tudo q é lugar em dezembro, mas eu só soube hoje (por causa das férias, talvez?). É um projeto de teatro que me empolgou de início, me fez pensar depois, deu mau humor em ver alguns dos resultados, mas depois alegria em saber que sempre cabe inventividade nas artes cênicas — e por que fechar o olho para o novo?

É o Teatro Para Alguém. A atriz Renata Jesion, de saco cheio de atuar para ninguém e esperançosa de que a internet poderia ajudar quem faz teatro, encomendou textos curtos pro Bortolotto, Antonio Prata e Mutarelli e montou cenas na casa dela. Transformou cômodos em cenários, fundo preto, móveis em objetos de cena. Aí ela marca um dia, transmite ao vivo a peça pela internet, e deixa gravado pra quem quiser assistir depois no site.

Cenas do Teatro Para Alguém

Renata Jesion, Zemanuel Piñero, Mauro Schames, Gilda Nomacce e Iara Jamra em fotos de Nelson Kao

Bom, a primeira coisa mesquinha a se comentar é: que puta casa grande. rs… A segunda é que ela mesma assume que a experiência não é exatamente teatro, já que a câmera “fala” — dá recortes, se movimenta, angula. Mas não é cinema pq, por outro lado, não há edição, montagem. Ok, estamos diante de algo novo, não é uma peça filmada como normalmente se vê.

Os textos curtos obviamente se encaixam pq é foda ficar vendo coisas que nem sempre são dinâmicas na frente do computador. O YouTube fez isso com a gente. Pouca gente aguenta mais de 8 minutos com o brilho da tela e o desconforto da posição. Ainda mais para ver teatro sem “famosos”.

Na minha concepção, o mérito da Renata Jesion não está no fazer-artístico, mesmo porque as intenções das minimontagens não são claras como propostas estéticas nem definidas em alguma “escola” ou etc. Mas foda-se, isso não é o importante, e ela mesma disse isso em entrevista pra Cultura. O lance transgressor do Teatro Para Alguém é trabalhista. Isso mesmo. É alguém tentando mostrar que ser ator é ser profissional. É um ofício, um trabalho, é sério. E que o mercado de trabalho simplesmente não existe fora da teledramaturgia. Ou vc conhece uma “empresa de teatro”? Que pague os atores, diretores, cenógrafos etc. simplesmente para trabalharem? Não valem iniciativas governamentais na resposta. (Aliás, é óbvio que esse projeto não tem patrocínio).

Por isso o Teatro Para Alguém é legal. É mercado de trabalho, é empreendedor, é no mínimo um grito para denunciar quanto o teatro é desvalorizado no País, quanto a platéia não existe e quanto a internet pode ajudar pouco nesse caso (muito diferente da música e do cinema). O lance do teatro é a experiência. Mas cabe experiência no mundo de hoje?

A Renata está tentando uma resposta diferente para isso.

As continuações das séries vão rolar agora em janeiro, depois do dia 6.

Written by Lucas Pretti

janeiro 4, 2009 at 4:24