Cubo Mágico

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Histórias de um palco redondo

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Estive anteontem pela primeira vez no Teatro de Arena. Essa frase escrita assim tão rapidinha não consegue, por mais que fosse dita e o tom tentasse acrescentar subjetividades e emoções, expressar a importância do que eu quero dizer. São as tais coisas que não se diz com palavras, mas a gente tenta, tenta, tenta. Aquele lugar no Centro de SP tem impresso nas paredes tudo aquilo que um dia já foi o teatro neste país. Tem o cheiro, tem o gosto.

Interior do Teatro de Arena

Assisti à montagem de Chapetuba Futebol Clube, texto de Vianinha dirigido pelo José Renato para a reabertura do espaço, que foi reformado no final do ano passado. José Renato foi o fundador do Teatro de Arena, em 1958 (há 50 anos), e o Vianinha teve quase todas as peças encenadas naquela época, inclusive Chapetuba, em 1959.

A noite chuvosa de anteontem é uma boa metáfora para as diferenças entre aqueles tempos e os nossos. O teatro tinha 17 “corajosos espectadores”, como disse o ator João Ribeiro ao final da apresentação de ontem. Nem de longe encheu as cadeiras que circulam o palco pequeno e sufocante do Arena. Só estando lá para imaginar e entender o poder das montagens de Eles Não Usam Blak-Tie, À Margem da Vida, A Mandrágora, do show Opinião e de tantas outras coisas fervilhantes que forjaram nossos anos 60. Dá pra entender o que o Juca de Oliveira quer dizer sobre o realismo levado às últimas consequências, sobre suar em cima da plateia. Dá pra supor o que o espaço representou para uma época importante do Brasil — em que os problemas políticos e o mundo pré-globalização favoreciam a arte.

Mas também dá para se emocionar de tristeza diante do diretor José Renato foto de Lenise Pinheiro. Hoje um senhor de 82 anos, ele comparece a todas as apresentações do elenco, de 6ª a domingo. Vestido com uma camisa de mangas curtas amarela-clara e calça social marrom, veio ate a porta do Arena três minutos antes do horário, olhou o relógio, sentiu os respingos da chuva que insistiam em entrar no pequeno hall e, numa visão geral, viu que estavam ali umas 5, 6 pessoas esperando — e que provavelmente só uma ou duas sabiam quem ele era. Deve ter lembrado de cenas como esta:

arquivo Cecilia Thompson

Fachada no dia da estreia de "Eles Não Usam Black-Tie", de Gianfrancesco Guarnieri, em 1958. Foto: arquivo Cecilia Thompson

Por mais importante que seja na classe teatral, José Renato é hoje um grande desconhecido da população (não está nem na Wikipedia, se que isso é parâmetro). Até aí, dane-se. Ele é o tipo de pessoa que pouco se importa com fama ou qualquer outra influência que se descole das intenções artísticas. Mas de qualquer forma é de se refletir sobre o fato de qualquer vedete carnavalesca ser infinitamente mais importante — sim, importante — para nossa cultura do que um dos maiores diretores teatrais que o Brasil já viu.

Pesquisando sobre o Arena, acabei trombando num site feito especialmente para as comemorações dos 50 anos, riquíssimo em informações históricas, fotos, mapas, críticas, cartazes de peças e uma infinidade de conteúdo sobre o teatro. Vale realmente a pena: http://www2.uol.com.br/teatroarena/arena.html

Sobre a peça em si, cinco coisas a dizer: 1) o texto do Vianinha é belíssimo por fazer, com doçura, beleza e numa linguagem popular, duras críticas sistêmicas ao capitalismo, ao estilo de vida burguês, à opressão pelo dinheiro e toda essa merda que só piorou desde que a peça foi escrita; 2) dois dos jovens atores, Pedro Monticelli  e Vinicius Meloni, eu já tinha visto em outras montagens (Lágrimas de um Guarda-Chuva e Ensaio_Fausto.org), e isso é legal porque mostra que a profissão ainda pode dar futuro; 3) a atriz Melina Menghini destrói no papel de Fina. Diria que é uma das mais bem construídas em cena, fé cênica impressionante; 4) eles fizeram um blog sobre o processo de montagem e para divulgação: http://chapetuba.blogspot.com; e 5) queria ter assistido à montagem original (foto abaixo), com Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves, o próprio Vianinha e Riva Nimitz, entre outros clássicos. Mas meus 25 anos não permitiram.

Hejo (Arquivo Multimeios/Idart)

Flávio Migliaccio, Xandó Batista e Vianinha na "Chapetuba F.C." de 1959. Foto: Hejo (Arquivo Multimeios/Idart)

 

Lenise Pinheiro

Elenco da "Chapetuba F.C." de 2009. Foto: Lenise Pinheiro

Só me resta imaginar uma época em que o teatro ditava a cultura no Brasil. Se bem que sonhar é um verbo melhor.
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palmas loucas pra ele

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Não sabia que o Pachecão estava escrevendo para a Palma Louca. É um site bizarro de uma marca de cerveja brasileira feita para exportação que tem o intuito de vender o Brasil como um negócio exótico, tropical. Por isso o cara consegue fazer jornalismo no que isso há de puro (leia-se aqui falta de interesses estranhos): contar histórias. Tem a do tio que só anda de pijama por SP, a tia que procura desaparecidos por conta própria e a da fruta taitiana noni, que faz um mal de doer e alimenta uma máfia desconhecida dos grandes jornais e suas importantíssimas notícias sobre as coisas que muito nos interessam.

Veja.

Written by Lucas Pretti

janeiro 29, 2009 at 16:11

Uma revista de teatro

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A editora Lazuli lançou em São Paulo no meio do mês a revista Teatro EnCena. É a primeira que eu conheço com o conteúdo voltado totalmente a teatro e artes cênicas. O lançamento foi lá no Parlapatões, inclusive porque no conselho editorial está o diretor deles, Hugo Possolo. O diretor da Lazuli, Miguel de Almeida, que assina a publicação e também faz matérias, se uniu a gente com algum poder no meio pra viabilizar a revista. Custa R$ 10,90 e será bimestral.

revista Teatro EnCena

O projeto me agradou. A primeira edição tem uma grande reportagem sobre os 50 anos do Oficina, uma entrevista estilo Caros Amigos (vários entrevistadores não necessariamente jornalistas) com Juca de Oliveira, matérias grandes sobre Victor Garcia e o grupo Ornitorrinco, além de um especial com fotos do Pia Fraus. Fora isso, a revista traz as seções Primeira Fila, com entrevistas de atores/diretores/autores de espetáculos em cartaz, e Respeitável Público, sobre as platéias.

A maior parte do conteúdo é formada por entrevistas, tipo pergunta-resposta (na primeira edição tem Milton Hatoum, Sábato Magaldi, Luís Melo, Fernando Bonassi, Zé Celso). Isso é bom, a meu ver, porque o teatro tem mais verdade abertas do que certezas fechadas – e reportagens autorais quase sempre deixam algum rastro ideológico. Já que é para fazer jornalismo, que se tire o jornalista do meio. Tavez seja um caminho, além de ficar mais gostoso de ler.

Antes de vc perguntar, a EnCena não está LOTADA de anunciantes, como era de se desejar. A maioria é do governo do Estado e Sesc, além de Livraria Cultura, Livraria da Vila e de alguns grupos e peças. Tomara que não desistam e façam as próximas edições existirem.

Achei o formato bem legal. Principalmente pq favorece as matérias. Seria difícil que um texto de um repórter qualquer sobre Juca de Oliveira terminasse tão rico quanto a entrevista pura e simples. Leia dois trechos e avalie se, só eles, já não valem os R$ 10,90:

O teatro, na verdade, nasceu da religiosidade. Ele nasceu no templo. Quando você pega uma manifestação de índios em volta da fogueira, eles estão representando uma peça de teatro. Só que não é de centenas de séculos, como no caso de Aristóteles, é de milhares de séculos. E esses ritos são tão teatrais que têm enredo, figurino, maquiagem, canto, dança, fala. E que representação é essa? É aquela por meio da qual eles conjuram os demônios e pactuam com os deuses para que, no dia seguinte, a caça e a pesca sejam benfazejas. E hoje é a mesma coisa. As pessoas vão ao teatro porque elas querem pactuar com os deuses e conjurar os demônios, para que amanhã dê certo a guerra do trânsito, a caça do dinheiro, para que elas fiquem em paz, para que aquilo [o teatro, a arte] consiga conciliá-las com as fantasias que elas precisam viver também. É muito parecido. Nós devemos cultuar alguém. Eu cultuo as musas. Acho que os deuses são terríveis e extremamente vingativos. Eu vejo que essa trajetória minha de sair da Globo tem muito a ver com religião. Por que um cara faz esse caminho?

Um outro problema muito interessante era o seguinte: eu vinha tanto da escola [da EAD] quanto do TBC, um teatro de palco italiano, e caímos no Arena, que é um círculo muito pequeno e com um cenário ainda — o Flávio Império fazia cenários nesses espetáculos. Você contracena do lado do espectador, contracenava-se muito nos corredores, e isso significa representar literalmente do lado da pessoa que está na platéia. E você fala, briga, etc. do lado do cara que está sentado ali, dava para ouvir a respiração dele. Isso em todas as fileiras, de cima a baixo. Outro problema: como você está num espaço de três dimensões e não de duas, como no palco italiano, você fica no meio. O espectador começa a fazer parte. Eu, Guarnieri, Miram Muniz, Isabel Ribeiro ali, e as pessoas que estão sentadas na primeira fileira juntas, com o pé dentro do palco. Isso muda absolutamente a relação, fica tudo orgânico, comestível. O realismo fica elevado às últimas conseqüências. Aumenta a necessidade de buscar verossimilhança, credibilidade absoluta naquilo que se fazia, sem nenhuma possibilidade de você “representar”, você tinha que procurar viver no limite para que tudo fosse convincente. Há uma briga e o personagem chora, a lágrima cai no colo do espectador. Não existe faz-de-conta. Aliás, nós não inventávamos nada, estávamos apenas aplicando o Stanislavski, de forma mais moderna, através do Actor’s Studio.

Quer mais? Tome Ugo Giorgetti:

Hoje, contudo, meu amor pelo teatro é ainda mais forte porque ele recompõe minhas forças exauridas por um cinema que se transforma mais e mais num brinquedo, num quebra-cabeça para técnicos tristes, concebido para pessoas com habilidades manuais e tendência para desmontar chuveiros.

Written by Lucas Pretti

dezembro 28, 2008 at 23:27

A história das coisas

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Já ouviu falar no vídeo Story of Stuff? Eu conheci só há algumas semanas. Conta a história do capitalismo e como chegamos a essa merda de mundo em que os chefes mandam mesmo e a gente que obedeça ou que se foda ao ponto em que estamos. Minha visão de mundo está muito resumida ali, a não ser pelo viés ambientalista. Na verdade, os ambientalistas têm o mérito de propor uma solução, mesmo que meio over. Problema são as pessoas como eu, que só reclamam.

Mentira, eu acredito nas artes…

E daí, né?

O vídeo tb está no YouTube, mas é melhor ir por este link aqui (legendado e inteiro): http://www.unichem.com.br/videos.php. Você poucas vezes gastou 21 minutos tão bem.

Story of Stuff

Me fez lembrar este outro da SOS Mata Atlântica:

Written by Lucas Pretti

novembro 25, 2008 at 0:24