Cubo Mágico

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Cleyde e Isabel, por Ariana

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Deixe o tempo agir sobre a cabeça fervilhante que posto aqui algumas impressões sobre as peças do FIT, em Rio Preto. São pelo menos duas apresentações assistidas por dia, mais discussões, encontros, trombadas e papos pseudo-etílicos-intelectuais que só um tempinho de mente vazia para processar e organizar tudo.

Por enquanto, fiquem com as entrevistas em áudio que minha amiga (e anfitriã) Ariana Pereira fez com as atrizs Cleyde Yáconis (por ‘O Caminho Para Meca’) e Isabel Teixeira (por ‘Rainha[(s)] – Duas Atrizes em Busca de um Coração’). Reparem na maturidade sábia de uma e na inquietude e energia de outra:

Cleide:

Isabel, parte 1:

Isabel, parte 2:

Se preferirem ler as entrevistas (obviamente editadas, por isso não recomendo), cliquem aqui e aqui.

Cleyde Yáconis em 'O Caminho para Meca'

Cleyde Yáconis em 'O Caminho para Meca'

Isabel Teixeira pela câmera do Kao

Isabel Teixeira pela câmera do Kao

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Written by Lucas Pretti

julho 25, 2009 at 3:38

Programação do FIT 2009

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A organização do Festival Internacional de Teatro de Rio Preto, o FIT, prometeu a programação oficial para 17 de junho, mas ainda não soltou no site. Achei no Rio Preto Te Despreza o link para a grade, que, vai saber, pode nem ser a oficial. Mas, como é o que temos, acreditamos.

grade_fit2009

Já vi a maioria das peças aqui em SP – Rainhas, Senhora dos Afogados, Caminho para Meca, Eldorado, Comunicação a uma Academia. Mas OK, vou ver de novo, o FIT é o FIT.

Meus posts do ano passado sobre o festival:

17/7/08 • O mundo inóspito leva à guerra, inclusive dentro de casa

16/7/08 • A burocracia gera loucos que nos salvam da burocracia

15/7/08 • a luz apagou antes da hora

9/7/08 • Respirar teatro é pouco perto do que acontece no FIT

Written by Lucas Pretti

junho 20, 2009 at 19:18

O mundo inóspito leva à guerra, inclusive dentro de casa

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Le Retour au Désert chega a São Paulo hoje, no Sesc Vila Mariana, depois da estréia mundial no FIT, em Rio Preto, no final de semana. Estive na terceira noite por lá e vi uma Sandra Corveloni madura (a de Cannes!) num espetáculo longo demais, apesar dos momentos memoráveis.

A peça não se dá apenas por Sandra, claro. Aliás, a proposta é que quase nenhum dos atores façam sozinhos seus personagens. Por ser uma peça montada em conjunto pela Compagnie Dramatique Parnas com atores brasileiros e ter concepção bilíngue, os personagens principais têm mais de um ator atuando ao mesmo tempo, na mesma cena. Em certos momentos, como o da briga entre os irmãos Mathilde e Adrien, são até três atores no mesmo papel. Por isso é possível dizer que, tecnicamente, há bastante inventividade por parte da diretora Catherine Marnas.

Os atores múltiplos criam soluções diferentes das convencionais para a interpretação. Cada personagem pode ter diversas faces, nuances e movimentos ao mesmo tempo. Enquanto, por exemplo, se é irônico em português, há a possibilidade de se ser bravo em francês. O conjunto acaba mais rico, apesar de confuso no início. Um momento belíssimo é a crise de Mathieu, filho de Adrien, quando xinga o empregado da casa, Aziz. O ator brasileiro Davi Rosa sai gritando, bravo, pisando forte, enquanto o francês Julien Duval repete a cena com fraqueza, cabisbaixo, tom de voz suave e amedrontado. O personagem sentia as duas coisas naquele momento.

Outra grandeza técnica de Le Retour au Désert é o cenário. São dois grandes “v”, com duplas faces, que se conectam ou afastam de forma a construir o interior da casa de Adrien ou a parte externa. Na troca do cenário, fica clara a loucura por que passa a casa, a solidão das personagens, o quanto se odeia todo mundo morando sob o mesmo teto. Ok, ok, está na hora de uma sinopse.

A peça conta a história de dois irmãos separados pela Guerra da Argélia. Com os dois filhos, Mathilde volta para a casa que pertenceu aos pais na França — onde hoje moram o irmão Adrien e seu filho único. Adrien é casado com (não lembro o nome, vamos chamar de Claire – assim que descobrir corrijo), seu segundo casamento. Claire é irmã de Marie, sua primeira mulher. Além de os irmãos se odiarem, Mathilde não vai com a cara de Claire e os conflitos entre os primos são intermináveis. A chegada da trupe da Argélia acaba com o sossego da casa e a harmonia construída pelo braço forte do pai (que gerou um filho afeminado que nunca saiu de casa).

São duas horas e meia de um espetáculo que poderia ser facilmente “editado”. Há cenas desnecessárias, cansativas, que pouco ajudam o desenvolvimento da trama. Por vezes a peça se arrasta, muito influenciada por monólogos em francês, nem todos traduzidos.

Apesar de protagonistas, não são Adrien e Mathilde os principais personagens, a meu ver. Eles dão o fio à narrativa, claro, com atuações bastante felizes de Sandra Corveloni/Bénédicte Simon e Jairo Pereira/Olivier Pauls. A cena da guerra de travesseiros é memorável. Há fé cênica impressionante. Os irmãos querem realmente se machucar; não estão fingindo isso no palco. Mesmo assim, para mim, seus papéis são menores que os da esposa de Adrien, Claire, e da empregada Madame Queuleu.

Isso faz com que o espetáculo seja menos sobre a Guerra da Argélia e a diferença entre os povos do que uma crônica sobre a sobrevivência em um mundo tão complicado. Adrien optou por proteger a família com muros altos, tentou deixá-los de fora de tudo que se passa lá fora. Errou. Mathilde, ao contrário, é permissiva e egoísta demais, no fundo acha que os filhos a atrapalham. Acaba por criar pessoas problemáticas. Errou também. Claire, e por isso seu personagem é grande, se sente só, abandonada, fadada ao riso provocado pela condição de estar sempre bêbada. A mais alegre é a mais triste. Madame Queuleu, a empregada, é outra gigante por representar a desistência. Ela sabe como as coisas funcionam e cansou de lutar. Quer apenas paz, silêncio. Só sobrou para ela a resiliência.

Quem interpreta Claire é uma inexperiente Rita Pisano. Como se Hamlet fosse um ator recém-formado de 17 anos. Dá a sensação de que ela não tem vivência o suficiente para encarar papel tão forte. Acaba escrachada demais quando o personagem é na verdade decadente. Já Madame Queuleu é o contrário. A atriz Gisela Millás rouba as cenas de que participa, emociona, está tão concentrada no papel que grita e chora com realismo, naturalismo, e fala uma das verdades mais desconcertantes do texto: “Prefiro não dormir com esperança, para não acordar com tristeza” .

Le Retour au Désert é, portanto, uma reflexão sobre a tolerância. E uma aula de teatro técnico.

Written by Lucas Pretti

julho 17, 2008 at 5:15

A burocracia gera loucos que nos salvam da burocracia

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Fiquei em dúvida se juntava todos os comentários sobre as peças que vi no FIT num só post ou não. Resolvi não juntar, assim quem se interessar por apenas um dos textos não é obrigado a guardar os outros. Ao todo, vi sete espetáculos. Vou na ordem e depois coloco todos os links num lugar só. O texto agora é sobre Kavka – Agarrado num traço a lápis, do Lume Teatro, de Campinas.

Talvez porque andei flertando com a literatura russa e do leste europeu nos últimos meses — e aí entra Franz Kafka — é que tive uma boa impressão da encenação de um suposto dia na vida do escritor checo, dirigida por Naomi Silman. O grupo de teatro campineiro colocou sozinho no palco o ator Ricardo Puccetti para discutir o processo criativo de um escritor, suas angústias, influências e uma visão de mundo que praticamente inaugurou o romance moderno. Mas boa parte dos espectadores saiu descontente.

É compreensível. A atuação do concentrado Puccetti, apesar de muito intensa e frenética (ele sua litros e litros) — e apesar de ele ser um dos melhores e mais aclamados do Lume —, em Rio Preto teve momentos técnicos falhos. Por exemplo, o tropeço de Kafka no palco parece um tropeço forçado, o susto com determinado barulho é um susto com pouca verdade cênica, quando escreve no papel dá para perceber que são só rabiscos e não as palavras que está ditando, no sono do ator vemos exatamente isso: um ator interpretando o personagem sonhando — e não o personagem sonhando. Dá para entender? Isso faz com que um sólo não funcione tanto mesmo em um festival em que o interesse maior é a experimentação de linguagens, é o teatro de pesquisa.

Nesse ponto a direção de Naomi Silman é bastante eficiente. Nas seqüências de cenas em que a diretora “aparece”, dá para ver que a imersão no universo Kafka foi bastante precisa durante a montagem e concepção da peça. Tanto o figurino quanto o cenário são os que se imaginam ao ler as obras do escritor. Um porta-arquivos com gavetas enormes, escrivaninha desconfortável, caneta de pena, papéis amarelados espalhados por todos os cantos, tudo feito de ferro. E a certeza de não pertencer ao mundo burocrático, materialista, estatal, frio que o rodeia.

Quando o personagem Kafka imita o andar de robôs, com os lábios apertados entre as bochechas, e sugere que os homens do começo do século 20 são máquinas de preencher vagas no serviço público, Kavka traduz em imagens o sentimento provocado por O Processo. Carta ao Pai é o romance mais presente na peça, com trechos repetidos incessantemente (“Eu tenho dentro de mim um animal muito singular, metade gatinho, metade cordeiro. É uma parte da herança de meu pai.”), além de ser o ápice simbólico da peça. No palco, Kafka liberta da gaiola um bonequinho de papel que representa não apenas ele como todos que entenderam sua obra (a transformação por meio da arte). Depois, na mesma gaiola, queima seus escritos. O pessimismo. A arte, no fundo, não serve para nada.

A condição dos seres humanos sem racionalidade é bastante vista no trabalho de corpo do ator. A influência de Gregor Samsa, de A Metamorfose, é óbvia, além dos já citados gatinho e carneiro. Atormentado e solitário dentro do apartamento, Kafka se incomoda com os vizinhos, com os barulhos da vida, com tudo que lembra quanto o mundo deve ser odiado por ser do jeito que é. Sente-se pequeno, um inseto preso, que consegue a duras penas colocar desabafos no papel.

Esse sentimento e as sensações geradas por ele estão na peça. Um mérito digno do prêmio São José Risonho, troféu dado aos participantes do FIT.

Outra crítica

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Btw, um PS rápido. Jorge Vermelho, curador do festival, vai com a cara do povo do Lume e os convida todo ano para ir a Rio Preto. É uma coisa a se descobrir, aliás. Por que alguns espetáculos se inscrevem e passam por uma puta seleção e outros são convidados? Nada contra o Lume, indiscutivelmente uma força do teatro de pesquisa, mas transparência é sempre bacana. Fecha o PS.

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PS2: Kavka com “v” é a tradução em checo para gralha.

Written by Lucas Pretti

julho 16, 2008 at 2:55