Cubo Mágico

aqui tinha artes, teatro, cultura digital e crônicas contemporâneas

Archive for the ‘Religião’ Category

Rituais

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Sempre achei um tantão ridícula a histeria que se forma em torno das datas comemorativas de sempre (americanos são especialistas nisso, com seus ‘happy new year’ forçados de felicidade e falsidade). Sempre menosprezei o poder do ritual, a iniciação, a repetição de determinadas ações com o intuito de celebrar, rememorar, homenagear. Tudo isso sempre me soou velho, nada original, sem sentido a não ser o da tradição acrítica,  fazer porque um dia já fizeram, nunca quis isso pra mim.

Até que hoje me vi um ser inundado por essa pequenez. E o mundo me pareceu mais compreensível.

O Festival Internacional de Teatro de Rio Preto (FIT) começa em pouco mais de uma semana. É muito aguardado por meu grupinho de amigos. A data. Quem vai fazer a assessoria. O site. A divulgação da programação. A venda de ingressos. A compra de ingressos. Os ingressos esgotados. As vésperas. As presenças. As apostas. As acomodações. As peças. As noites. As sacadas. As opiniões. As ressacas. Os balanços. O fim.

Falamos nisso desde o começo do ano. “Quando o FIT chegar…”, “Porque no FIT a gente vai…”, “No Não-Lugar vai ter…”, “Fernandona vai vir…”. “Em julho é que vamos ver.”

Julho. É o mês em que tudo converge, todo mundo renega a temporada Yang do inverno escuro, feminino e interior e sai das tocas, enfrenta o frio (!) de Rio Preto e os forasteiros para marcar na alma mais alguns dias de existência superior. A verdade é que ‘entramos’ na toca, numa toca anual, ritual, sempre a mesma mas sempre diferente, com novas e velhas pessoas, uma toca com a mescla quase perfeita de arte com um monte de coisa bonita.

Estamos na reta final. Ontem, um reunião séria, internet, de longe, todo mundo com listas de peças escolhendo o cardápio final – que deveria contemplar as coisas que cada um não pode perder e aquelas que os amigos não podem perder (o equilíbrio disso, sim, é a melhor programação, todo mundo ver junto o que faz sentido pra todo mundo).

Hoje, as estratégias colocadas em prática. Corações e atenções unidos às 11h. Taquicardia. “Eu fiz em 8 minutos.” “Eu em 14.” “Perdi a peça argentina.” “O Fulano perdeu várias.” “Me empresta seu cartão.” No final deu quase tudo certo. O telefone toca e a voz está ali para confirmar e acalmar. Tudo certo.

Estamos prontos para o FIT. Prontos para uma semana que sabemos quase totalmente como será. Algo que só terá graça por se repetir. Por se realizar como o planejado. Planejamento que constrói a aura, o clima, o molho, o encanto, aquilo tudo. Para então ser igualzinho no ano que vem.

Bobeira, né?

Tão bobo quanto as noivas, os coelhinhos, os velhinhos, os troféus e as missas. Rituais e datas comemorativas são as coisas mais lindas do mundo, desde que sejam as nossas.

Written by Lucas Pretti

julho 8, 2009 at 2:17

Publicado em Epifania, Religião, Teatro

Os festejos pelo Alto Verão

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Estou atrasado pra falar de Carnaval, mas quem é que se importa com o agenda-setting fora jornalistinhas? “Descobri” uma coisa neste ano que me fez ter outra compreensão sobre os festejos e algum mau humor sobre o que os homens fizeram com a natureza da coisa.

Alguns conceitos antes. Sabem o símbolo Yin/Yang? De acordo com a crença da maioria das culturas orientais, representam o dia e a noite. O homem e a mulher. O quente e o frio. Todas as oposições naturais sobre que se deita nossa existência. Até aqui tudo bem.

As estações do ano se dividem em quatro, duas Yin (Outono e Inverno, mais frias, fechadas, escuras, femininas) e duas Yang (Primavera e Verão, mais quentes, abertas, claras, masculinas). São um dia elevado a um ano, como se à noite vivêssemos o inverno e, de dia, o verão. Tudo bem até aqui também.

Por conhecer essa natureza humana dúbia — veja a teoria dos chakras e o kundalini hindus, a mescla do que há de masculino e feminino nas pessoas passando do mais terreno dos pontos do corpo, o púbis (ou mulabhanda), até o contato com o divino, pelo cérebro (o nirvana) —, os orientais celebram ritualmente a passagem entre o Yin e o Yang, que aliás é uma das cenas mais bonitas da história do design (sim, isso é design). Veja no vídeo abaixo.

Uma desses rituais está relacionado à chegado do que os orientais chamam de a “5ª estação do ano”, o Alto Verão, cujo ponto mais alto é março. Daí as chuvas, daí a libido aflorada, daí o extremo calor, daí a natureza agitada, as nuvens que não param no céu, a conjunção de sentimentos que unem o masculino e o feminino, o quente e o frio, etc. É o Alto Verão. É a natureza celebrando a passagem entre fases. E daí vem a “festa do Alto Verão”. Na nossa cultura, o Carnaval. É a festa coletiva, de relação, de celebração do contato corpóreo, quando estamos alinhados com a natureza Yang da época do ano. É o agradecimento pelo Verão e a chegada do Inverno, quando todo mundo estará em casa, mais fechado, mais frio, mais voltado a questões interiores.

Lindo, não?

E trabalhamos tanto (com que finalidade mesmo?) que não percebemos as nuvens dando tchau para o Alto Verão. Preferimos saber qual a celebridade do ano e colocamos nariz de palhaço para uma picuinha qualquer entre escolas de samba. Quem ganha com tudo isso?

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PS: veja o que faz nossa revolucionária cultura capitalista yuppie pop pós-moderna: Alto Verão é uma marca de roupas e Yin/Yang é um desenho animado…

Written by Lucas Pretti

março 2, 2009 at 2:56

Sadismo no ventilador

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Confesso nunca ter tido contato além do ouvir falar com a obra de dois artistas antes do último final de semana. Acabei tocando-os pela primeira vez ao mesmo tempo, na adaptação de Os 120 Dias de Sodoma, romance de Marquês de Sade (o 1º), pelo diretor Rodolfo García Vázquez (o 2º), de Os Satyros. Confesso poucas vezes ter visto obra tão perturbadora.

Sade é amplamente conhecido pelo senso comum como um pornógrafo. Suas obras usam a orgia, a sacanagem e os desvios sexuais para denunciar uma França doente. Tanto é que deu origem ao substantivo sadismo (de onde varia o adjetivo sádico). Todo mundo sabe muito bem que sádica é a pessoa que sente prazer sexual em ver outra subjugada, humilhada, machucada. E, na sociedade tão influenciada pela moral católica, Sade é o demônio em pessoa.

Em 120 Dias de Sodoma, não há moral que permaneça de pé. Quatro poderosos (deputados, juízes, líderes religiosos) se reúnem para uma orgia de quatro meses num castelo afastado na França – que García Vázquez fez questão de situar no Brasil. Para lá levam oito adolescentes virgens (quatro homens, quatro meninas), mais quatro “fodedores” e duas prostitutas. Enquanto elas contam histórias de sacanagem, divididas em quatro “níveis de dificuldade”, as crianças encenam e os fodedores… fodem. Tudo para deleite dos quatro poderosos, que entram na putaria, claro, com as práticas mais absurdas que se pode imaginar.

Óbvio, todos os atores ficam nus. E isso já é um choque. Todos se tocam, se “abusam”. E isso é outro baque. Quando há as relações bizarras (no sentido original da palavra), aí não há moral que se sustente.

Difícil ficar incólume diante da defloração de uma das garotas, gordinha. Já é duro se colocar no lugar de uma atriz gorda que tira a roupa para 80 pessoas (só isso já significa uma quebra de padrões dolorosa). Quando ela cai no meio do palco após ter sido (cenicamente) penetrada no ânus, os outros atores berram e, aos brados, pedem para a platéia também enxovalhá-la: “A gorda perdeu o cabaço do cu”. E comemoram, riem, repetem o grito à exaustão. A platéia fica calada, se mastigando, pegando todos os pudores na mão e revolvendo-os.

Toda essa merda no ventilador tem um fundo político. Aí Sade é genial. Suas obras denunciam os desmandos com dinheiro público, as diferenças sociais e raciais, o acúmulo de poder nas mãos de poucos e mesmos. Tão parecido com o Brasil de hoje que ninguém estranha as sugestões d’Os Satyros. Um dos poderosos libertinos (o líder religioso deputado federal) certa hora fica sozinho com a platéia e pergunta se os espectadores se lembram do voto para a Câmara. Ele tinha razão; ninguém se lembrava. Silêncio e risinhos. “Mas todos sabem quem venceu o último Big Brother.” Risadas à solta. Risos punitivos. Ao final da cena, ele pede para todos repetirem bem alto: “Somos todos cidadãos”. E finaliza: “Isso, isso, todos cordeirinhos bípedes” de um país em que tudo termina em Carnaval. Como na peça, com a marchinha Bandeira Branca. Ouça:

Sair do teatro incomodado é prêmio para poucos dramaturgos, atores e diretores. Prêmio por terem cumprido seu papel.

[Post relacionado: Sobre pedófilos e machistas]

Written by Lucas Pretti

maio 6, 2008 at 2:14

Publicado em Arte, Religião, Teatro, Violência

‘Não pesquisarás células-tronco’

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O Vaticano conseguiu dar o golpe final nas esperanças e comprovar que, se você quiser ser católico, deve pensar e viver como em algum ano bem distante de 2008. O jornal oficial da Santa Sé, L’Ossevatore Romano, publicou na edição de 9 de março os mais novos pecados capitais da era da globalização. Além dos sete conhecidos – que foram tema de filme e novela recentes -, agora os católicos irão para o inferno se poluírem o meio ambiente, usarem drogas, gerarem pobreza e MANIPULAREM CÉLULAS-TRONCO, entre outros.

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A discussão pautou a semana passada no Brasil. O Supremo Tribunal Federal deveria ou não liberar a pesquisa com células embrionárias? Deveria, claro! 75% dos brasileiros são favoráveis. A Justiça brasileira não decepcionou, fez exatamente o que todo mundo esperava e adiou a decisão após o pedido de um ministro, adivinhe, católico.  O nome dele é Carlos Alberto Menezes Direito.

O Vaticano tem direito de pregar o que bem entende e o que bem interpreta das palavras de profetas a seus seguidores, da mesma forma que a qualquer outra pessoa é permitido criticar as medidas. Joseph Ratzinger, este que vos comanda, puxa a rédea da Igreja ao conservadorismo, cala setores progressistas e perigosamente opina sobre temas como a manipulação genética. Na modesta opinião deste blogueiro, o papa é radical também no que diz respeito à obediência: você é católico se concordar com certos preceitos. Portanto, cientistas, gays, adúlteros, milionários, donos de empresas poluidoras e todos aqueles que a Igreja condena, uni-vos e deixai a Igreja!

Por acaso, mas apenas por acaso (quero reiterar novamente que é por acaso), o regime extremista Talibã teoriza que a população muçulmana (principalmente a afegã) deve se comportar como na época do profeta Maomé, lá pelos anos 500. Certamente não havia camisinha, muito menos células-tronco.

Written by Lucas Pretti

março 11, 2008 at 1:23

Publicado em Religião

Zoemos com Papai Noel

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Me parece que o nascimento de Jesus (e, afinal, o Natal) é uma verdade histórica compartilhada por diversas e até antagônicas religiões. Já Papai Noel é uma invenção, seja católica, seja capitalista, ou ambas, ou outras. Por isso, zoar o velhinho não é desrespeitar as crenças de ninguém. Seguem as homenagens do Cubo Mágico à data:

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VÍDEO – Mexeu com Papai Noel e tomou um chute. Assista ao vídeo (provavelmente fake):

[Via Blue Bus]

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GAME – Papai Noel cruel mata criancinhas pidonas com serra elétrica (clique na imagem ou aqui)

noelcruel.jpg

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SITE – Santa Claus está no Twitter, com o perfil “papainoel” (link aqui ou na imagem)

Papai Noel no Twitter

[Via Sim, Viral.]

Written by Lucas Pretti

dezembro 25, 2007 at 18:24

Publicado em Achados, Religião

Vai um caixão?

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Uma funerária romana, na Itália, inovou na propaganda e colocou modelos em poses sensuais ao lado de caixões no calendário 2008. “É um bom marketing, além de arrancar sorrisos de uma coisa séria”, diz o dono da Cofanifunebri, Maurizio Matteucci.

A notícia completa está neste link.

[Via Coquetel do Solon]

Written by Lucas Pretti

dezembro 8, 2007 at 23:11

Publicado em Achados, Religião

Epitáfio

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Curiosa (apesar de oportunista) a reportagem da edição de Rio Preto do jornal BOM DIA (estou passando o feriado por essas bandas) de hoje, dia dos fiéis defuntos. Pegaram dez personalidades da cidade para dizer o que escreveriam em seu epitáfio.

Eu escreveria: “Não reza. Faz um brinde”. Na verdade, não escreveria. Quero ser cremado.

Boa a resposta do ator Lázaro Ramos sobre o que gostaria de ouvir de deus quando chegasse a um suposto céu: “Lazinho, meu filho, sua galera que chegou antes está com saudade. Dá um abraço neles e vamos observar a turma que ficou. Vai tomar o quê?”

Written by Lucas Pretti

novembro 2, 2007 at 16:10

Publicado em Dia-a-dia, Religião