Cubo Mágico

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O teatro e o ‘financiamento público de campanha’

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Só depois que já estava em Portland há alguns dias é que soube da fama da cidade, de ter uma das maiores e ativas comunidades artísticas dos Estados Unidos. Realmente dá para perceber. Além de diversas companhias (são 42 para 550 mil habitantes, uma coisa estrondosa no mínimo — veja a lista aqui), há uma organização em torno da “indústria” das artes cênicas, uma gestão realmente diferenciada, algo digno de nota, e de post.

Fachada do PCS na NW 11th St.

Fachada do PCS na NW 11th St.

Vejamos particularmente a experiência do Portland Center Stage (PCS), onde eu assisti à peça How to Disappear Completely and Never Be Found. Além de algum incentivo oficial, eles têm diversos patrocinadores/apoiadores e contam principalmente com algo parecido com o financiamento público de campanha: é a comunidade, o público, a plateia que banca a existência da companhia, do espaço, dos espetáculos. A assinatura mensal é vantajosa para o pagante. Ele passa a ter lugar privilegiado em todos os espetáculos da temporada, estacionamento gratuito na porta do teatro e alguns outros brindes e promoções (sorteios, coisas do gênero).

Antes da peça a que assisti, o diretor executivo do PCS, Greg Philips, esteve no palco e falou por um tempo com a plateia. Agradeceu pelo apoio voluntário, pelo financiamento, e anunciou quais outros espetáculos o teatro apresentaria na temporada 2009. Cada título era recebido com um ‘Oh’ ou ‘Ah’ mais ou menos rumoroso dependendo da peça. Para se ter ideia, Frost-Nixon(que deu origem ao filme finalista no Oscar deste ano) voltará à casa em abril. O simpático Philips ainda fez algumas piadas, convidou todos a entrarem no site do PCS e comentarem sobre a peça, além de deixar muito claro que “nossa proposta de reinventar o modo de sobrevivência das artes cênicas, num mundo em que teatros passam por dificuldades, só pode existir com a colaboração de vocês. Nossa contrapartida é fazer bons trabalhos de pesquisa que sejam relevantes para a existência da comunidade de Portland”.

Hall principal, em frente ao Armory Cafe

Hall principal, em frente ao Armory Cafe

Hall do Ellyn Bye Studio

Hall do Ellyn Bye Studio

Entrada de 'How to Disappear...'

Entrada de 'How to Disappear...'

Público espera a peça começar

Público espera a peça começar

Palco, com cenário de Chris Rousseau

Palco, com cenário de Chris Rousseau

Na placa, o endereço do site www.pcs.org

Na placa, o endereço do site http://www.pcs.org

O site é outro exemplo de como, em geral, os teatros não acordaram para o poder da internet (com exceções, claro). O PCS.org tem um blog, se integra com ferramentas de redes sociais como Facebook, Twitter etc., mostra todos trailers de peças e funciona mesmo como um hub para unir comunidade artística e espectadores. Cada peça ganha um PDF com entrevistas, ficha técnica e várias informações contextuais. Não é à toa que, pelo site, é possível também se tornar voluntário de eventos determinados do teatro (como festivais e oficinas) e se tornar sócio, claro. Toda essa organização resulta numa organização tal que, no dia da peça, cada espectador recebe uma revista sobre o espetáculo, com reportagens, perfil de todos os envolvidos na produção (do ator ao iluminador) e anúncios, a maioria relevante para quem está ali.

Página da revista com informações dos atores Cody Nickell, Kate Eastwood Norris, Darius Pierce, Laura Faye Smith e Ebbe Roe Smith, além do dramaturgo Fin Kennedy e da diretora Rose Riordan

Página da revista com informações dos atores Cody Nickell, Kate Eastwood Norris, Darius Pierce, Laura Faye Smith e Ebbe Roe Smith, além do dramaturgo Fin Kennedy e da diretora Rose Riordan

O único grupo brasileiro que tenho notícia de tentar fazer algo semelhante é o Folias D’Arte, em SP. Pelo site, é possível se tornar sócio, doando R$ 30 ou R$ 100 mensais. Mas não há qualquer vantagem. Quem não conhece o grupo tem a sensação de ter jogado dinheiro no limbo.

Exemplos como o de Portland mostram que, se bem trabalhado, o nicho teatral pode subsistir — e muito — sem mendigar recursos do governo e atenção dos pouco interessados nas performing arts.

Written by Lucas Pretti

março 16, 2009 às 3:38

4 Respostas

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  1. o que vc foi fazer em portland??

    uiara

    março 25, 2009 at 16:07

  2. uma reportagem. mas não dá pra falar exatamente porque ainda não saiu.

    bjo

    Lucas Pretti

    março 25, 2009 at 16:51

  3. parabens pelo belíssimo trabalho
    ricardo

    Ricardo Rodrigues

    março 31, 2009 at 22:44

  4. obrigado, ricardo! passe sempre por aqui

    Lucas Pretti

    abril 1, 2009 at 15:43


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