Cubo Mágico

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Meu preconceito caiu

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É uma delícia quando nossos preconceitos são destroçados pela vítima deles. não pude resistir a duvidar da performance de um galã típico global como o Thiago Lacerda no teatro. Fui lá ver Calígula hoje e me senti diante de uma montagem histórica. O Gabriel Villela desenhou as cenas com maestria, os atores estão muito bem preparados, são criativos e conscientes sobre cada gesto, e a platéia se incomoda e ri nas horas certas.

Fotos: Lenise Pinheiro

Uma coisa q me chamou muito a atenção foi o diálogo permanente que o Gabriel Villela mantém entre o ser-teatro e o não-ser-teatro. Do nada as cenas encerram, os atores quebram a parede, “saem” do personagem e anunciam, por exemplo, “fim do 1º ato”. A coisa funciona tanto que a platéia aplaude várias vezes no meio. As cenas de morte ou outras em que a ação é enfatizada, eles fazem propositalmente em câmera lenta, com desenhos de cena lindos, e não escondem que aquilo é maquiagem, é interpretação, e não a vida real. Só que a magia se mantém, isso é o bacana.

Achei particularmente feliz a opção da cena final, da morte de Calígula. Ele é perfurado simbolicamente por espadas, rola no chão, cai, etc. Aí a cena para, a atriz entra com um esguicho de molhar planta e suja o rosto e a roupa do protagonista com tinta vermelha. Ou seja: é sangue de mentira, óbvio. A cena então continua no ritmo anterior.

O Thiago Lacerda consegue ganhar o público não pela beleza nem pelo peito de fora, mas pelo personagem. Construiu bem a máscara do Calígula, o repertório de gestos, a leveza (ou não) dos movimentos, coerência. Ele sabe o que está fazendo no palco do Sesc Pinheiros. Deu gosto.

No folder da peça, um texto de apresentação do autor de Calígula, Albert Camus, me deixou perturbado em pelo menos três trechos. Reproduzo:

Os atores iniciantes têm dessas ingenuidades. E eu já tinha 25 anos, idade em que se duvida de tudo, menos de si próprio.

Não se pode a tudo destruir, sem destruir a si próprio. Calígula arrasa com o mundo ao seu redor e, fiel à sua lógica de vida, faz o que pode para voltarem-se contra ele todos os que terminarão por assassiná-lo.

Alguns acham que minha peça é provocante e são os mesmos que, no entanto, consideram natural que Édipo mate o pai para se casar com a mãe ou os mesmos que aceitam fazer ‘ménage à trois’, desde que nos limites, é claro, de quatro sólidas paredes e em alta sociedade. Eu tenho pouca admiração por certo tipo de arte que só escolhe chocar por falta de saber convencer de outra forma. E se, por uma infelicidade, eu me pegasse realmente sendo escandaloso, seria apenas por causa desse gosto desmesurado que os artistas têm pela verdade — e um verdadeiro artista não consegue abrir mão da verdade, porque isso significaria renunciar à sua arte.

Ai.

Written by Lucas Pretti

janeiro 16, 2009 às 2:34

2 Respostas

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  1. Tenho que dizer: fodasso!
    E o Camus no fim matou a pau. Alguns globais são roots mesmo. Não sei se já viu, mas “Educação sentimental de um vampiro” com o Guilherme Weber é fantástico. Claro, o cara É do teatro e foi ganhar dinheiro, mas vale muito a pena ver gigantes de perto.

    danilo

    janeiro 20, 2009 at 8:45

  2. Não vi ‘Educação Sentimental…’, Danilo. Mas imagino o q vc está querendo dizer. Tem uma palestra histórica, a última que o Raul Cortez deu lá no Célia Helena, em que ele diz exatamente isso: “Faço TV por grana”. É na verdade a filosofia hacker q todo mundo deveria usar contra o capitalismo: pegar a grana das grandes corporações e usar depois em coisas contra elas – ou apesar delas.

    Abs.

    Lucas Pretti

    janeiro 20, 2009 at 15:58


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