Cubo Mágico

aqui tinha artes, teatro, cultura digital e crônicas contemporâneas

decadência ou o menino é o que há de pior no homem

with 2 comments

Fiquei absolutamente pirado com A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, do Mutarelli. Devorei em dois dias — tá bom, madrugadas. Eu vi pessoas na pele do Júnior, do Sênior e da Bruna. Impressionante. Não conseguia dormir, uma puta angústia de ir esquecendo as palavras do nada. Medo de morrer como homem, de ser destruído sem perceber. Ele consegue descrever exatamente, num puta ritmo frenético, a decadência da classe média e o processo de enlouquecimento de um cara. Porque é diferente do processo na mulher. Quero falar rápido dessas duas coisas.

Já visitei alguns manicômios pra fazer reportagens. E uma ideia simples não entrava na minha cabeça: como as pessoas enlouquecem. Nunca esqueço de um cara que ficava o tempo todo deitado no chão, todo sujo, meio falando sozinho baixinho, e levantava às vezes, chegava perto e falava: “Nossa, eu trabalhei demais, não aguento mais trabalhar, meu deus, tô muito cansado, trabalhei, trabalhei, eu trabalhei demais, não paro de trabalhar… Já volto, preciso voltar pro trabalho”. Aí voltava pro chão, deitava lá, ficava mais uns 10 minutos e voltava: “Eu trabalhei demais…”. Isso mil vezes por dia. Conclusão: o cara enlouqueceu de tanto trabalhar. Porra, isso é possível. E o Mutarelli mostra em ficção que o controle não está exatamente nas nossas mãos.

Principalmente no caso do Júnior do livro. Ele entra “numa espiral negativa” porque flagra a mulher dando pro amigo do filho dele, um moleque de 15 anos. Porra. Isso é o cúmulo para um homem, para a masculinidade que há na testosterona e nos óculos morais, sociais e etc. É aquele negócio: fica com quem quiser, vai se divertir, mas não com um moleque de 15 anos. Isso dói realmente. Eu já falei sobre isso aqui quando assisti a Notas Sobre um Escândalo, em que a Cate Blanchet fica de quatro (literal e simbolicamente) por um fedelhinho lá. Putz, doeu ver o filme, eu fui afundando na cadeira, ficando incomodado. Inexplicável. Ou melhor, explicável: é (tomara) o último resquício de machismo aqui dentro.

Por isso acho que o enlouquecimento de mulheres deve ser diferente. Pelo menos nesse caso. Mulheres são mais etéreas, me parece que se importam com coisas menos mundanas, menos afetáveis por um negócio carnal de orgulho. São mais complexas e isso às vezes é ruim, óbvio, mas nessa complexidade há qualquer coisa de muito avançado. Daí a sensação de nunca satisfazê-las que todo homem sente. E daí enlouquecer com a ideia de que um molequinho fez isso, e vc não. Pq, na boa, com 15 anos eu era o cara mais ridículo de todos os tempos, como a maioria dos moleques de 15 anos que eu vejo hoje…

Acho que o que dói é essa sombra do passado.

A Mari escreveu sobre o livro tb. Vai lá: http://doublestandards.wordpress.com/2008/07/31/a-arte-de-produzir-efeito-sem-causa/

Written by Lucas Pretti

janeiro 13, 2009 às 3:40

2 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Agora fiquei curiosa. Vou atrás deste livro. Beijos

    Bia Rodrigues

    janeiro 16, 2009 at 2:06

  2. Adorei esse post!
    Bjs

    Vivian

    janeiro 20, 2009 at 7:38


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: