Cubo Mágico

aqui tinha artes, teatro, cultura digital e crônicas contemporâneas

Uma revista de teatro

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A editora Lazuli lançou em São Paulo no meio do mês a revista Teatro EnCena. É a primeira que eu conheço com o conteúdo voltado totalmente a teatro e artes cênicas. O lançamento foi lá no Parlapatões, inclusive porque no conselho editorial está o diretor deles, Hugo Possolo. O diretor da Lazuli, Miguel de Almeida, que assina a publicação e também faz matérias, se uniu a gente com algum poder no meio pra viabilizar a revista. Custa R$ 10,90 e será bimestral.

revista Teatro EnCena

O projeto me agradou. A primeira edição tem uma grande reportagem sobre os 50 anos do Oficina, uma entrevista estilo Caros Amigos (vários entrevistadores não necessariamente jornalistas) com Juca de Oliveira, matérias grandes sobre Victor Garcia e o grupo Ornitorrinco, além de um especial com fotos do Pia Fraus. Fora isso, a revista traz as seções Primeira Fila, com entrevistas de atores/diretores/autores de espetáculos em cartaz, e Respeitável Público, sobre as platéias.

A maior parte do conteúdo é formada por entrevistas, tipo pergunta-resposta (na primeira edição tem Milton Hatoum, Sábato Magaldi, Luís Melo, Fernando Bonassi, Zé Celso). Isso é bom, a meu ver, porque o teatro tem mais verdade abertas do que certezas fechadas – e reportagens autorais quase sempre deixam algum rastro ideológico. Já que é para fazer jornalismo, que se tire o jornalista do meio. Tavez seja um caminho, além de ficar mais gostoso de ler.

Antes de vc perguntar, a EnCena não está LOTADA de anunciantes, como era de se desejar. A maioria é do governo do Estado e Sesc, além de Livraria Cultura, Livraria da Vila e de alguns grupos e peças. Tomara que não desistam e façam as próximas edições existirem.

Achei o formato bem legal. Principalmente pq favorece as matérias. Seria difícil que um texto de um repórter qualquer sobre Juca de Oliveira terminasse tão rico quanto a entrevista pura e simples. Leia dois trechos e avalie se, só eles, já não valem os R$ 10,90:

O teatro, na verdade, nasceu da religiosidade. Ele nasceu no templo. Quando você pega uma manifestação de índios em volta da fogueira, eles estão representando uma peça de teatro. Só que não é de centenas de séculos, como no caso de Aristóteles, é de milhares de séculos. E esses ritos são tão teatrais que têm enredo, figurino, maquiagem, canto, dança, fala. E que representação é essa? É aquela por meio da qual eles conjuram os demônios e pactuam com os deuses para que, no dia seguinte, a caça e a pesca sejam benfazejas. E hoje é a mesma coisa. As pessoas vão ao teatro porque elas querem pactuar com os deuses e conjurar os demônios, para que amanhã dê certo a guerra do trânsito, a caça do dinheiro, para que elas fiquem em paz, para que aquilo [o teatro, a arte] consiga conciliá-las com as fantasias que elas precisam viver também. É muito parecido. Nós devemos cultuar alguém. Eu cultuo as musas. Acho que os deuses são terríveis e extremamente vingativos. Eu vejo que essa trajetória minha de sair da Globo tem muito a ver com religião. Por que um cara faz esse caminho?

Um outro problema muito interessante era o seguinte: eu vinha tanto da escola [da EAD] quanto do TBC, um teatro de palco italiano, e caímos no Arena, que é um círculo muito pequeno e com um cenário ainda — o Flávio Império fazia cenários nesses espetáculos. Você contracena do lado do espectador, contracenava-se muito nos corredores, e isso significa representar literalmente do lado da pessoa que está na platéia. E você fala, briga, etc. do lado do cara que está sentado ali, dava para ouvir a respiração dele. Isso em todas as fileiras, de cima a baixo. Outro problema: como você está num espaço de três dimensões e não de duas, como no palco italiano, você fica no meio. O espectador começa a fazer parte. Eu, Guarnieri, Miram Muniz, Isabel Ribeiro ali, e as pessoas que estão sentadas na primeira fileira juntas, com o pé dentro do palco. Isso muda absolutamente a relação, fica tudo orgânico, comestível. O realismo fica elevado às últimas conseqüências. Aumenta a necessidade de buscar verossimilhança, credibilidade absoluta naquilo que se fazia, sem nenhuma possibilidade de você “representar”, você tinha que procurar viver no limite para que tudo fosse convincente. Há uma briga e o personagem chora, a lágrima cai no colo do espectador. Não existe faz-de-conta. Aliás, nós não inventávamos nada, estávamos apenas aplicando o Stanislavski, de forma mais moderna, através do Actor’s Studio.

Quer mais? Tome Ugo Giorgetti:

Hoje, contudo, meu amor pelo teatro é ainda mais forte porque ele recompõe minhas forças exauridas por um cinema que se transforma mais e mais num brinquedo, num quebra-cabeça para técnicos tristes, concebido para pessoas com habilidades manuais e tendência para desmontar chuveiros.

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Written by Lucas Pretti

dezembro 28, 2008 às 23:27

3 Respostas

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  1. Toda vez que entro aqui no seu blog penso a saudade que faz alguém como você por perto – mais perto – no trabalho. Penso que faz falta uma cerveja gelada para conversar banalidades teatrais e afinar gostos. Saudade de você, moço. Uma das descobertas sinceras de 2008. Beijo grande.

    segueoseco

    dezembro 29, 2008 at 22:23

  2. Que maravilha ouvir isso. Cara, eu sinto muita falta de vizinhos de trabalho sem a roda presa, como vc. E afinar gostos é uma expressão q vou usar daqui em diante. É isso mesmo q a gente precisa fazer mais e sempre.

    saudade. bjão

    Lucas Pretti

    dezembro 30, 2008 at 13:56

  3. […] outras coisas fervilhantes que forjaram nossos anos 60. Dá pra entender o que o Juca de Oliveira quer dizer sobre o realismo levado às últimas consequências, sobre suar em cima da plateia. Dá pra supor […]


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