Cubo Mágico

aqui tinha artes, teatro, cultura digital e crônicas contemporâneas

A bendita formação do público. Ou maldita?

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Vou voltar ao assunto da formação do público. Tudo que se pode dizer a respeito é especulativo, subjetivo, blablabla, mas não dá para ignorar aqui uma das minhas atuais urgências artísticas: dar pitacos sobre teatro marginal, teatrão e sobre a galera q assiste cada um deles.

Dessa vez fiquei pensativo depois de assistir a dois espetáculos em São Paulo, Encruzilhados entre a Barbárie e o Sonho (Barracão Teatro) e A Maçonaria do Silêncio. Os dois não estão divulgados nos “circuitos tradicionais”, fazem parte do que se chama de teatro marginal e estão sedentos por público (mesmo pq os caras vivem de bilheteria).

Eis a questão. Em Encruzilhados, lá no Folias, até encheu. Mas na platéia só tinha gente de teatro. Carinhas conhecidas, pessoas conhecidas e seus agregados, era um encontro de festival. Todos adoraram a peça, claro, mesmo porque a peça é muito boa mesmo. Mas o que foi aquela noite a não ser uma punhetação aos moldes das universidades, onde um doutor em sei lá o quê disserta sobre qualquer merda para meia dúzia de outros doutores com a mão no queixo? Já a Maçonaria, no Viga, tinha 10 pessoas (tudo bem, 11) na platéia, a maioria também do clubinho. Foi ótimo. Mas e daí?

A função (social) do artista é transformar, abrir os olhos, tocar de alguma forma o público para que reveja ou ilumine alguns conceitos, seja pelo riso, choro, grito, encantamento, etc. Artistas de teatro na platéia também precisam da transformação, óbvio, são humanos contraditórios e incompletos como todos. Mas diria que, numa escala de prioridade, eles não estariam no topo. Muito engravatado por aí, muito cerumano, precisa ser tocado pela arte mais do que atores, diretores, produtores.

Tá bom, isso pode até ser uma puta arrogância. Mas esquece essa parte e tenta responder: por que dois espetáculos tão bons, com uma puta pesquisa, bons atores, encenação bacana, intenção e propósitos não têm público? Porque não têm (grana para) divulgação, claro. Porque a grana está no teatrão, na mão dos globais, naquelas peças que já foram pagas por patrocinadores e mesmo assim cobram 80 pau na entrada. Mas será que é só isso?

Por trás do problema político há um de costumes, muito pior, cuja culpa está nos envolvidos com o tal teatro marginal. Há uma aura em torno da pobreza, no fazer teatro sem grana, improvisando. A aura é maior ainda quando se fala em ganhar dinheiro. Parece proibido, feio, receber pela arte. Eu não me excluo dessa lógica. Outro dia, fiquei balançado lendo a entrevista que o Bruno Galo fez com o Fernando Meirelles. Ele diz que a arte encomendada (como os cortes em Ensaio sobre a Cegueira) não tem menos valor que qualquer outra produção. E deu os exemplos de Michelangelo, Mozart, etc. Foda pensar nisso.

Obviamente não há conclusão. Era só uma reflexão que queria lançar. Se você leu até aqui e está interessado no assunto, tente responder: por que vc vai (ou não vai) ao teatro?

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Written by Lucas Pretti

outubro 12, 2008 às 0:39

6 Respostas

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  1. Adorei a reflexão.

    Vivian

    outubro 24, 2008 at 1:40

  2. Pelo mesmo motivo que você comentou. Vou para ser tocada, desafiada. Para sair de lá confusa com as questões que a peça levanta.
    Adoro sair de uma peça incomodada. Saio feliz.

    Priscila

    outubro 24, 2008 at 15:17

  3. Confusa é uma ótima palavra, Priscila. Isso aí.
    Abs

    Lucas Pretti

    outubro 25, 2008 at 20:58

  4. falando sobre a importancia das cores e como se formavam as cores primárias, secundarias…. exemplifiquei com uma obra, uma pintura consagrada de Picasso, quando um menino de 12 anos perguntou: – “Pra que qui serve um quadro ?” faltava pouco tempo para encerrar a aula e muito tempo para pensar nessa pergunta que desde 1988 me deixou incomodado com a realidade mediocre e com a distancia da arte, principalmente a contemporanea…

    Guilherme Diniz

    janeiro 23, 2009 at 11:15

  5. Falou tudo, Guilherme.
    Abs.

    Lucas Pretti

    janeiro 23, 2009 at 13:48

  6. Que interessante proposta de reflexão! Uma pena que todos os artistas de teatro não estejam disponíveis para travar uma análise sobre o que foi comentado aqui. Concordo muito com a idéia social do artista de transformador, e mais ainda com a idéia da escala de prioridades de que o artista está na última fatia da pirâmide, existe uma imensidão de pessoas (público) precisando ser transformada pela arte do teatro. Até quando vamos continuar fazendo teatro para nos mesmos?

    Wagner Monthero

    abril 30, 2009 at 13:35


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