Cubo Mágico

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Berlim, teatro, Brecht e a diversão

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A primeira coisa que tenho a dizer sobre o teatro alemão é: não o compare ao brasileiro. A começar pelos séculos a mais de civilização (não que índios não contem, mas é fato que a cultura deles pouco influi na nossa de hoje, contemporânea, a não ser por nomes em placas, como Anhangabaú) e a continuar pelo subsídio oficial, influência histórica etc. Bom, na verdade é inevitável a comparação.

Fui ao Berliner Ensemble, o teatro que abriga até hoje a companhia que foi de Bertolt Brecht até os anos 50. Assisti à Ópera dos Três Vinténs (Die Dreigroschenoper, em alemão), a peça que inspirou a Ópera do Malandro, por aqui, pelas mãos de Chico Buarque nos 60. Obviamente o espetáculo foi falado em alemão, o que dificultou o entendimento. Mas valeu muito pela encenação, que eu diria ter o “design” bem próprio, e por sentir o que é o teatro para um país do velho mundo.

Primeiro de tudo, é barato. Não é como no Brasil, que encenar Brecht custa R$ 80 no Renaissance. Nada contra a montagem atual de A Alma Boa de Setsuan, muito elogiada pela crítica, nem qualquer outra com intenções realmente artísticas, mas peraí. Desembolsei só 5 euros para entrar num teatro equivalente ao Municipal de São Paulo para assistir a uma orquestra ao vivo e duas horas de espetáculo top. E sentado na galeria de cima.

O público que estava lá era muito misturado. Desde grupos de adolescentes a famílias e pessoas mais velhas, claramente endinheiradas. Ir ao teatro em Berlim não é só para a classe teatral, os amigos e agregados dela ou, principalmente, para quem quer ir ao teatro porque ir ao teatro é cult. No Brasil é assim. Diria que 90% dos espetadores de óperas e concertos de música clássica por aqui são grã-finos que precisam estar ali, ser vistos vendo aquilo, para comentar depois em festas e jantares luxuosos que, oh, Wagner é mesmo magnífico. Ou sair de A Alma Boa e não lembrar de mais nada antes mesmo da pizza.

A Berliner Ensemble, especificamente, é lendária. Diria que eles encaram as companhias de teatro mais ou menos como vemos as bandas por aqui, com a idéia de “formação”. Os atores estão lá há tempos, são conhecidos por conta da companhia. Na entrada, há flyers gratuitos com a história de cada membro, em qual peças atuou, que personagens criou e uma foto em cena. Há também os resumos de todas as peças já montadas pelo grupo, todas de Brecht, no caso. Os espetáculos por lá ficam anos e anos em cartaz e são definidos muito tempo antes. Não tem essa de sair de cartaz porque a bilheteria não tá rolando. Simplesmente porque a bilheteria rola sempre.

Os guias culturais, como os dos jornais daqui ou o Off, dedicam dezenas de páginas à programação teatral. Dá para filtrar por teatro, por dia da semana, por horário. Dezenas de peças têm o resumo publicado com foto (não é como as sinopses porcas daqui). Cinema? Ah, sim, tem lá três ou quatro pagininhas. Beira o sonho.

Todas essa lógica teatral é construída há séculos, a ponto de chegarmos hoje com uma estrutura e uma importância impressionantes na sociedade de Berlim. Mas tem uma coisa por trás que segura tudo isso e de certa forma justifica e explica o significado do teatro para os berlinenses:

ELES NÃO BUSCAM O ENTRETENIMENTO.

Quem vai ao teatro lá quer mais é ser recebido com tapas na cara, nem que sejam em forma de risadas. Estão ali para consumir arte, no sentido não-capitalista da palavra. Aquilo faz diferença em suas vidas. O público não quer ser agradado, ficar acomodado na cadeira sendo entretido por meia dúzia de bundas na tela, alguns beijos e “confusões da pesada”.

O mal humorado aqui não é contra comédia, muito pelo contrário. A visão de Brecht sobre a manifestação teatral cai justo no que quero dizer. Para ele, o teatro deve divertir, deve ser um momento agradável na vida das pessoas, tem a função também de fazer rir. A diferença está em como se olha para a palavra “diversão”. Um dos elementos de seu teatro, por isso, são os clowns, entre muitos artifícios para divertir com provocações e críticas sociais e sem nem chegar perto do entretenimento puro.

O livro Prazer e Crítica, de Francimara Nogueira Teixeira, fala bastante disso. Tem um bom pedaço disponível de graça no Google Books.

Vá lá e, depois, escolha bem as peças que você quer ver.

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Written by Lucas Pretti

setembro 28, 2008 às 21:22

2 Respostas

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  1. Muito legal, Lucas.
    É um entretenimento que traz a gente pra realidade e não nos ilude e nos joga pra fora dela, né?
    Beijos

    Vivian

    outubro 1, 2008 at 19:31

  2. Oi Lucas,

    Pretendo estudar teatro em Berlim.
    Voce tem indicações de escolas, institutos ou outras instituições que eu possa procurar ?
    Obrigado desde já.
    Rogerio de Almeida
    11 3534 7777
    11 9971 4117

    rogerio

    abril 22, 2010 at 18:26


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