Cubo Mágico

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Quanto vale o livro que estou vendendo?

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Saí da estréia de Mercadorias e Futuro agora há pouco me perguntando o que Lirinha faz de fato no palco. É uma performance, um recital de poesias, uma leitura dramática; não é teatro. O músico pernambucano líder do Cordel do Fogo Encantado e poeta desde pequeno lançou no mesmo dia da estréia da peça o livro Mercadorias e Futuro. A versão cênica é o improviso do autor sobre o texto de sua autoria com um personagem que é ele mesmo. Então vamos resumir o conflito inicial: é teatro, mas sem trabalho de ator.

Isso muda muito pouco qualquer análise da peça, visto que o foco principal buscado por Leandra Leal como encenadora (ela é mulher do cara e co-assina a direção) é a própria obra poética do músico. Lirinha dá entonação às frases que, no livro, correm o risco de passar despercebidas. Não pelo impacto insignificante que se pode deduzir que causem, mas pela profusão de períodos iluminados, pela multiplicação de palavras bem encadeadas. Ditas pelo autor, interpretadas com a intenção de quem escreveu, pronto, temos a certeza se tratar de poesia da boa.

Lirinha junta a opressão do povo nordestino — e a riqueza cultural óbvia e historicamente daí surgida — com uma aura dos dias de hoje. Consegue falar aos poetas e aos modernetes. Apesar de ser apenas parcialmente entendido por ambos, e por todos. “Não busco o entendimento”, afirma em algum momento o alter-ego Lirovsky, no livro, na peça. É verdade.

O texto de Paes de Lira existe apenas em si. Ao mesmo tempo em que borbulham significados e interpretações, por outro há beleza estética só no juntar palavras, no som novo causado por elas, em rimas improváveis (mesmo que sem sentido imediato). Qualquer associação à poesia musicada de Fernando Anitelli e seu Teatro Mágico é justa, embora Lirinha exista desde bem antes da trupe. As frases são recitadas com tom épico, como se ressoassem após o rufar dos tambores, o gritar das cornetas. Tanto é que a temática de Mercadorias e Futuro é a vida de três profetas fictícios, loucos, que tinham (têm) toda a consciência possível sobre a inconsciência dos seus ditos proféticos (ué, não estou falando de Estamira). Eis a beleza de fora da forma.

Por isso dá para dizer que a pena de Lirinha está apontada para a esquizofrenia do capitalismo. Dá para colocar preço em poesia? Ele é a própria contradição. O livro custa R$ 25 por algumas páginas de arte que ele mesmo ironiza no palco: vende, oferece a obra incansavelmente ao público até passar a metáfora de que o inferno de artistas é sobreviver. O inferno de todos é pagar pela sobrevivência. Diz o vendedor de livros no espetáculo: “Saí de casa num domingo, deixei mulher em casa, meus filhos brincando no sol, deixei meu sofá gostoso, a tranqüilidade da minha casa para estar aqui. Agora, me diga, quanto vale o livro que estou vendendo?”. Muitos outros poetas e filósofos aparecem: “Posso citar Platão aqui porque ele já morreu há muitos anos, caducou e não sou obrigado a pagar nenhuma porra de direito autoral”.

No palco, Mercadorias e Futuro tem altos e baixos, ignorando falhas técnicas típicas de estréia (a luz não acende na hora certa, desarranjos entre sons e movimentos, perdoáveis). O cenário é “desmontável”, dá em certos instantes a impressão de ser moldável às vontades e decisões do ator na cena, mas depois vê-se que está tudo marcado. Funcionam bem os pedais como se fossem botões play de efeitos sonoros, mas a iluminação muito agitada e sem significado de cores e ângulos empobrece o livro como cena. Mas a harmonia e a surpresa se restabelecem com as gravações das vozes da mãe de Lirovsky e do profeta Benedito Heuráclito sendo atravessadas pelo personagem mudando apenas o tempo e sujeito do verbo. Impressiona.

A grandeza e o problema cênico de Mercadorias e Futuro são Lirinha. Penso que um ator profissional interpretando Lirovsky poderia solucionar problemas técnicos (o trabalho de corpo é zero, o pensamento do personagem durante a cena, análise ativa do texto, etc.). Na condição de peça, o espetáculo ficaria melhor. Mas o que dizer de o próprio autor recitar suas frases — nenhum ator alcançaria a intenção, a medida exata. Por isso a questão: Mercadorias e Futuro é teatro? No fundo, sejamos sinceros: who cares?

O que vale em manifestações artísticas é a apreensão da mensagem e o poder de transformação e de reflexão gerados. Lirinha e Leandra Leal foram felizes nesse quesito. Veja exemplos tirados do livro (que, aliás, eu devorei antes mesmo de chegar em casa):

No segundo Câmbio Pólvora. O planeta Terra assistirá ao renascimento e florescimento de galhos verdes e fortes nos troncos das árvores que viraram cercas, mesas, cadeiras, portas e armários.

Conforto alucinante. Tranqüilidade na clareira do caos. Naquele quarto fumamos o tempo. Os ponteiros rodaram mais rápidos no mesmo relógio de anteontem. O que as horas guardavam nos espaços de contratempo? As cores das cartas, as letras riscadas, aquela mulher? Sei que vivi horas e senti minutos. Jogo bom.

Um é o todo e por ele o todo e nele o todo e se não contém tudo é nada.

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Written by Lucas Pretti

agosto 6, 2008 às 3:51

6 Respostas

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  1. Nãoooooooo, não é justo associar Cordel com Teatro Mágico…rsrsrs

    Adoro Cordel do Fogo encantado, especialmente o Lirinha, e acho Teatro Mágico um engodo, com aquele povo de camiseta que parece seguidores da Xuxa, credo…ahahaha

    Quero ver a peça, e tb comprar o livro, gosto muito mesmo do Lirinha, especialmente daquele sotaque…

    – “Pai, me ensina a ser palhaço?”.
    E o pai respondeu:
    – “Isso não se ensina seu bosta!”

    Entendeu porque eu acho cordel muito mais legal???

    bjo!!!

    Bruna

    agosto 6, 2008 at 19:24

  2. Crítica muito bacana, apesar do tropeço de compará-lo ao Anitelli. Anitelli e seu Teatro Mágico é massificado, letras risíveis e rasas. É justo dizer que TM se espelhou no Cordel, mas como imagem borrada. Aliás, não se trata de Cordel aqui, não é mesmo?

    Anita

    agosto 25, 2008 at 12:51

  3. Teatro mágico.. hahahaha…

    Fui a peça, adorei… O teatro estava lotado, muitos fãs do cordel, fãs do lirinha. Superou minhas expectativas, se voltar ao Recife, estarei lá mas uma vez. Bruna… as músicas do cordel, em sua maioria, fala de cidades do interior de Pernambuco. ex: Pedra, Lajedo, Flores… Quem n sabe, viaja mesmo na música… rs….

    Nota para a peça: 10,00

    Petrúcio

    setembro 5, 2008 at 0:59

  4. QUERO UM EXEMPLO DE CORDEL

    JULIANNE

    setembro 11, 2008 at 0:07

  5. Vai, Fernando Anitelli até que se esforça, mas associar Mercadorias e Futuro (ou Cordel, até mesmo o próprio Lira) com ele não é justo! Se fosse o contrario já me incomodaria.

    Fiquei até com raiva desse “qualquer associação, é justa”. haha’ Mas não devemos ter falta de respeito com as paquitas.

    Nicolas

    dezembro 2, 2009 at 14:12

  6. O sabiá no sertão
    Quando canta me comove
    Passa três meses cantando
    E sem cantar passa nove
    Porque tem a obrigação
    De só cantar quando chove

    Chover chover
    Valei-me Ciço o que posso fazer
    Chover chover
    Um terço pesado pra chuva descer
    Chover chover
    Até Maria deixou de moer
    Chover chover
    Banzo Batista, bagaço e banguê

    Chover chover
    Cego Aderaldo peleja pra ver
    Chover chover
    Já que meu olho cansou de chover
    Chover chover
    Até Maria deixou de moer
    Chover chover
    Banzo Batista, bagaço e banguê

    Meu povo não vá simbora
    Pela Itapemirim
    Pois mesmo perto do fim
    Nosso sertão tem melhora
    O céu tá calado agora
    Mais vai dar cada trovão
    De escapulir torrão
    De paredão de tapera

    Bombo trovejou a chuva choveu

    Choveu choveu
    Lula Calixto virando Mateus
    Choveu choveu
    O bucho cheio de tudo que deu
    Choveu choveu
    suor e canseira depois que comeu
    Choveu choveu
    Zabumba zunindo no colo de Deus
    Choveu choveu
    Inácio e Romano meu verso e o teu
    Choveu choveu
    Água dos olhos que a seca bebeu

    Quando chove no sertão
    O sol deita e a água rola
    O sapo vomita espuma
    Onde um boi pisa se atola
    E a fartura esconde o saco
    Que a fome pedia esmola

    Seu boiadeiro por aqui choveu
    Seu boiadeiro por aqui choveu
    Choveu que amarrotou
    Foi tanta água que meu boi nadou

    Nicolas

    dezembro 2, 2009 at 14:21


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