Cubo Mágico

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O vestido de Alaíde e Lúcia, pelos Satyros

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Qualquer estréia com Os Satyros hoje lota. Em fevereiro, Vestido de Noiva provocou filas de mais de duas horas na porta do Itaú Cultural. Depois, os caras foram pra Curitiba, pra Cuba (estrearam Liz lá) e voltaram para retomar Nelson Rodrigues aqui. Mais especificamente agora há pouco. Não é o tipo do teatro de que gosto. Tirando isso, a montagem de Rodolfo Garcia Vázquez ficou aquém da minha expectativa. Isso pode ser pela minha alta expectativa, claro, ou pela qualidade duvidosa da peça mesmo.

Digamos que a menor “culpa” é do próprio Rodolfo. Apesar de vídeo e microfone serem recursos bastante “retiráveis” na minha opinião (mesmo tendo certo motivo por estarem lá), os atores foram os que comprometeram um pouco a densidade rodrigueana. Na verdade achei que eles não estavam a fim. Parece besteira e um comentário bastante subjetivo. Mas toda a paixão que sempre envolve o trabalho d’Os Satyros não estava no palco do CCSP. Será o efeito Norma Bengel?

A veteraníssima e diva do teatro participou das primeiras apresentações em fevereiro. Agora não (aliás, ela estava nesta semana no Toma Lá Dá Cá, na TV, urgh!). Foi substituída por Helena Ignez no papel da cafetina Madame Clessi. Vestido de Noiva é tão conhecida que quase não precisa de sinopse. É uma peça sobre duas irmãs que disputam o mesmo homem, Pedro. Alaíde rouba o namorado de Lúcia e se casa. Lúcia mata Alaíde para se casar com Pedro, que ajudou na morte da esposa. Simples assim, mas com toda a profundidade de pensamento e complexidade de personalidade de Nelson Rodrigues.

Apesar da troca de atriz, Madame Clessi é uma das melhores no palco, ao lado da irmã Lúcia, vivida por Brígida Menegatti. A atriz Cléo de Páris e o ator Ivam Cabral (também fundador do grupo) pareciam repetir as falas mecanicamente, sem ouvir o outro em diálogos e quase sem emoção. Deu a impressão de estarem em uma leitura dramática de Vestido de Noiva, e não em cena. Ivam também interpreta um garoto de 17 anos, mas tão caricato, infantil e com sotaque forçado que me decepcionou um pouco. Esperava bastante dos dois, por isso talvez a admiração por não estarem pilhados, inteiros, verossímeis. Eles estavam claramente interpretando e não vivendo aquilo. Sabe quando os olhos do ator estão dispersos? Senti isso.

Disse lá no começo que não era o tipo de teatro de que gostava. Só explicar melhor o que quero dizer. Na verdade é muito arriscado fazer da forma que o Rodolfo Garcia Vázquez fez. Ele tenta buscar a teatralidade dentro do teatro. Parece viagem, mas é isso. O que o teatro tem de teatral? Nos gestos, movimentos coordenados, falas? O que só um ator faz e não se faz de fato na vida real? É isso que ele busca. Só que, ao so distanciar da escola Stanislavski (o teatro realista, naturalista, ator em situação), acaba se arriscando e não alcançando o efeito desejado.

Um exemplo disso é quando Lúcia dá um tapa na cara da irmã, Alaíde. Um tapa falso, tipo o que você dá quando quer brincar com um amigo. É o que pode ter de teatral dentro do teatro, mas mal executado. O mesmo acontece quando Alaíde dá um chute fraquinho no marido Pedro e ele cai cenicamente. Ou quando Pedro derruba Lúcia no chão sem na verdade querer derrubá-la. Ou quando Alaíde dubla a própria voz gravada.

Eu prefiro quando tem realismo nisso tudo, quando o tapa é de verdade, o chute também, o empurrão dói até no público e as falas vêm só do gogó. Mas isso é opinião pessoal. Só.

A montagem como um todo sugere coisas legais, como a mistura de vídeo e teatro, com reprodução de cenas ao vivo, filmadas no palco, na hora, por uma câmera. Também estão em cena vários planos de ação (alucinação, memória e realidade), bem divididos por luzes e cenário. E o que há de melhor no Vestido de Rodolfo: a narrativa entrecortada, com cenas do fim da história acontecendo antes e vice-versa, uma coisa do teatro contemporâneo, meio Tarantino em Pulp Fiction.

Veja | duas | críticas.

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Written by Lucas Pretti

julho 24, 2008 às 3:17

2 Respostas

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  1. Achei péssimo, péssimo, péssimo. Vi uma das apresentações no Itaú Cultural, com a Norma Bengel e, sinceramente, ela era a única que se salvava. Tive a mesma impressão, nada de sentimento entre os atores, tudo muito mecânico. A música é nada a ver, o cenário tá lá, mas não fica explícito o que ele quer e muitas vezes se perde no meio… Enfim, não gostei. Se quiser ver uma peça de Nelson Rodrigues bem montada, corre para o SESC Anchieta e veja a montagem de Senhora dos Afogados do Antunes Filho. Ótima!

    segueoseco

    julho 24, 2008 at 12:37

  2. Boa, Monica. Concordo com vc. Já vi a Senhora do Antunes e escrevi aqui.

    Lucas Pretti

    julho 24, 2008 at 16:44


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