Cubo Mágico

aqui tinha artes, teatro, cultura digital e crônicas contemporâneas

Em busca da estaca zero

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uma discussão em casa hoje com a minha mãe levou à seguinte questão: quem deve julgar a arte, público “comum” ou os “entendidos”? eu não manjo porra nenhuma de nada, mas em tese estávamos conversando ali um exemplar de cada lado, entendidos e público comum.

Tudo começou quando ela falou sobre alguém xis que não tinha gostado do show da Ana Carolina, outro alguém xis da família que criticou a Vanessa da Mata e mais um xis que “nunca gostou” não sei do quê. Em tese, qualquer manifestação artística genuína (aquela que busca o novo, a transformação, “tocar” o espectador e fazê-lo questionar-se de suas certezas) só se dá justamente pela existência do espectador. A própria função social do artista é levar às pessoas comuns essas coisas todas. Mas a opinião do receptor é mesmo importante, vital para a obra existir?

lembrei de uma coisa que a jornalista Daniela Bochembuzo um dia me falou. Ela era ombudsman do jornal na época. Eu terminava a faculdade e me deslumbrava com qualquer iniciativa de “ouvir os leitores”. Ao contrário, ela dizia que o jornal deve levar o que o público quer ler, claro, mas também — e talvez principalmente — o que ele PRECISA ler. Well, well… Talvez por isso os jornais estejam tão chatos hoje. Na internet a valoração de notícias é bem diferente entre editores e internautas.

Voltando pra arte, de quem é a culpa por alguém ir assistir ao Caco Ciocler inteirão num puta texto filosófico, profundo, transgressor do Ibsen e fazer o comentário “Ele é lindo mesmo, né?” no final da peça. É o público “comum”. O Sérgio Ferrara, diretor de Imperador e Galileu , e o próprio Caco, estão interessados nessa pessoa como público? Eles tentaram dizer alguma coisa para ela, com certeza, mas podem ter saído com a imagem de chatos, artistas que não se fazem entender. Vai saber o que a velha comentou em casa, fora a “beleza” do ator…

Essa velha é que deve julgar a arte? Ou, antes, a arte deve ser julgada? O que é arte? Concordo: fudeu.

Falando nisso, hoje tem a penúltima apresentação de A Noite dos Palhaços Mudos no Parlapatões, baseada na obra do Laerte. Uma tirinha dele que pode ser aplicada a essa discussão sobre arte:

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Written by Lucas Pretti

julho 23, 2008 às 17:08

3 Respostas

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  1. Formação de público é a casquinha da ferida, né?!
    Aliás, vc viu que o governo do estado quer colocar visitas a teatros, meuseus e cinema no currículo da escola pública?
    Não sei se é solução, mas é uma porrada nessa tecla aí.
    Mas outra pergunta: Será que cabe ao artista eleger (elencar) quem vai entender ou não… ou melhor, isso não é uma característica de “produto de consumo”?
    Não acredito numa arte “revolucionaria” (não estou falando de revoluções, mas de revolucionar a forma), mas acho que é diferente fazer algo PARA o público de ADEQUAR algo a ele, não?
    Claro que um público especializado teria noção de nuances, mas seria como pedir aplausos (críticas de qualquer espécie soam aplauso a quem quer SER VISTO), achar que só eles devessem “julgar” a “arte”.
    A velha acha o Caco bonito, mas pode não entender uma citação encravada no texto ou não percebeu que o contraste daquela cena pode ter soado como ironia… Mas ela foi ver o Caco no teatro e, se ela for denovo, vai perceber algo diferente. Não por osmose, mas que é muita arrogância subestimar o entendimento das pessoas.
    Se o lance é a mensagem, que ouçam o maior número de pessoas. Se é a forma, que vá pra um festival. Ou o processo é consciente e assertivo, ou é falho e não vale a pena nem discutir…

    danilo

    julho 25, 2008 at 14:57

  2. É exatamente isso, Danilo. Fique pensativo quando vc falou sobre o fato de o próprio artista olhar para a arte como “produto de consumo” — e então buscar o público, o julgamento. Por outro lado, difícil atingir a “pureza”, a experiência puramente estética, a finalidade completamente descolada do receptor… Uma questão a discutir.

    Sobre menosprezar o entendimento das pessoas, critico quem vai ao teatro (ou ao cinema ou a um livro ou whatever) sem estar aberto para perceber algo diferente, ser tocado por alguma nuance. Nisso a TV, o entretenimento barato têm culpa e acaba colocando todo o obstáculo para a tal “formação de público”.

    Mas obrigado pelo comentário. São discussões assim que quero provocar aqui.

    Abs.

    Lucas Pretti

    julho 25, 2008 at 22:50

  3. […] bendita formação do público. Ou maldita? Jump to Comments Vou voltar ao assunto da formação do público. Tudo que se pode dizer a respeito é especulativo, subjetivo, blablabla, mas não dá para ignorar […]


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