Cubo Mágico

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O mundo inóspito leva à guerra, inclusive dentro de casa

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Le Retour au Désert chega a São Paulo hoje, no Sesc Vila Mariana, depois da estréia mundial no FIT, em Rio Preto, no final de semana. Estive na terceira noite por lá e vi uma Sandra Corveloni madura (a de Cannes!) num espetáculo longo demais, apesar dos momentos memoráveis.

A peça não se dá apenas por Sandra, claro. Aliás, a proposta é que quase nenhum dos atores façam sozinhos seus personagens. Por ser uma peça montada em conjunto pela Compagnie Dramatique Parnas com atores brasileiros e ter concepção bilíngue, os personagens principais têm mais de um ator atuando ao mesmo tempo, na mesma cena. Em certos momentos, como o da briga entre os irmãos Mathilde e Adrien, são até três atores no mesmo papel. Por isso é possível dizer que, tecnicamente, há bastante inventividade por parte da diretora Catherine Marnas.

Os atores múltiplos criam soluções diferentes das convencionais para a interpretação. Cada personagem pode ter diversas faces, nuances e movimentos ao mesmo tempo. Enquanto, por exemplo, se é irônico em português, há a possibilidade de se ser bravo em francês. O conjunto acaba mais rico, apesar de confuso no início. Um momento belíssimo é a crise de Mathieu, filho de Adrien, quando xinga o empregado da casa, Aziz. O ator brasileiro Davi Rosa sai gritando, bravo, pisando forte, enquanto o francês Julien Duval repete a cena com fraqueza, cabisbaixo, tom de voz suave e amedrontado. O personagem sentia as duas coisas naquele momento.

Outra grandeza técnica de Le Retour au Désert é o cenário. São dois grandes “v”, com duplas faces, que se conectam ou afastam de forma a construir o interior da casa de Adrien ou a parte externa. Na troca do cenário, fica clara a loucura por que passa a casa, a solidão das personagens, o quanto se odeia todo mundo morando sob o mesmo teto. Ok, ok, está na hora de uma sinopse.

A peça conta a história de dois irmãos separados pela Guerra da Argélia. Com os dois filhos, Mathilde volta para a casa que pertenceu aos pais na França — onde hoje moram o irmão Adrien e seu filho único. Adrien é casado com (não lembro o nome, vamos chamar de Claire – assim que descobrir corrijo), seu segundo casamento. Claire é irmã de Marie, sua primeira mulher. Além de os irmãos se odiarem, Mathilde não vai com a cara de Claire e os conflitos entre os primos são intermináveis. A chegada da trupe da Argélia acaba com o sossego da casa e a harmonia construída pelo braço forte do pai (que gerou um filho afeminado que nunca saiu de casa).

São duas horas e meia de um espetáculo que poderia ser facilmente “editado”. Há cenas desnecessárias, cansativas, que pouco ajudam o desenvolvimento da trama. Por vezes a peça se arrasta, muito influenciada por monólogos em francês, nem todos traduzidos.

Apesar de protagonistas, não são Adrien e Mathilde os principais personagens, a meu ver. Eles dão o fio à narrativa, claro, com atuações bastante felizes de Sandra Corveloni/Bénédicte Simon e Jairo Pereira/Olivier Pauls. A cena da guerra de travesseiros é memorável. Há fé cênica impressionante. Os irmãos querem realmente se machucar; não estão fingindo isso no palco. Mesmo assim, para mim, seus papéis são menores que os da esposa de Adrien, Claire, e da empregada Madame Queuleu.

Isso faz com que o espetáculo seja menos sobre a Guerra da Argélia e a diferença entre os povos do que uma crônica sobre a sobrevivência em um mundo tão complicado. Adrien optou por proteger a família com muros altos, tentou deixá-los de fora de tudo que se passa lá fora. Errou. Mathilde, ao contrário, é permissiva e egoísta demais, no fundo acha que os filhos a atrapalham. Acaba por criar pessoas problemáticas. Errou também. Claire, e por isso seu personagem é grande, se sente só, abandonada, fadada ao riso provocado pela condição de estar sempre bêbada. A mais alegre é a mais triste. Madame Queuleu, a empregada, é outra gigante por representar a desistência. Ela sabe como as coisas funcionam e cansou de lutar. Quer apenas paz, silêncio. Só sobrou para ela a resiliência.

Quem interpreta Claire é uma inexperiente Rita Pisano. Como se Hamlet fosse um ator recém-formado de 17 anos. Dá a sensação de que ela não tem vivência o suficiente para encarar papel tão forte. Acaba escrachada demais quando o personagem é na verdade decadente. Já Madame Queuleu é o contrário. A atriz Gisela Millás rouba as cenas de que participa, emociona, está tão concentrada no papel que grita e chora com realismo, naturalismo, e fala uma das verdades mais desconcertantes do texto: “Prefiro não dormir com esperança, para não acordar com tristeza” .

Le Retour au Désert é, portanto, uma reflexão sobre a tolerância. E uma aula de teatro técnico.

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Written by Lucas Pretti

julho 17, 2008 às 5:15

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