Cubo Mágico

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A burocracia gera loucos que nos salvam da burocracia

with 2 comments

Fiquei em dúvida se juntava todos os comentários sobre as peças que vi no FIT num só post ou não. Resolvi não juntar, assim quem se interessar por apenas um dos textos não é obrigado a guardar os outros. Ao todo, vi sete espetáculos. Vou na ordem e depois coloco todos os links num lugar só. O texto agora é sobre Kavka – Agarrado num traço a lápis, do Lume Teatro, de Campinas.

Talvez porque andei flertando com a literatura russa e do leste europeu nos últimos meses — e aí entra Franz Kafka — é que tive uma boa impressão da encenação de um suposto dia na vida do escritor checo, dirigida por Naomi Silman. O grupo de teatro campineiro colocou sozinho no palco o ator Ricardo Puccetti para discutir o processo criativo de um escritor, suas angústias, influências e uma visão de mundo que praticamente inaugurou o romance moderno. Mas boa parte dos espectadores saiu descontente.

É compreensível. A atuação do concentrado Puccetti, apesar de muito intensa e frenética (ele sua litros e litros) — e apesar de ele ser um dos melhores e mais aclamados do Lume —, em Rio Preto teve momentos técnicos falhos. Por exemplo, o tropeço de Kafka no palco parece um tropeço forçado, o susto com determinado barulho é um susto com pouca verdade cênica, quando escreve no papel dá para perceber que são só rabiscos e não as palavras que está ditando, no sono do ator vemos exatamente isso: um ator interpretando o personagem sonhando — e não o personagem sonhando. Dá para entender? Isso faz com que um sólo não funcione tanto mesmo em um festival em que o interesse maior é a experimentação de linguagens, é o teatro de pesquisa.

Nesse ponto a direção de Naomi Silman é bastante eficiente. Nas seqüências de cenas em que a diretora “aparece”, dá para ver que a imersão no universo Kafka foi bastante precisa durante a montagem e concepção da peça. Tanto o figurino quanto o cenário são os que se imaginam ao ler as obras do escritor. Um porta-arquivos com gavetas enormes, escrivaninha desconfortável, caneta de pena, papéis amarelados espalhados por todos os cantos, tudo feito de ferro. E a certeza de não pertencer ao mundo burocrático, materialista, estatal, frio que o rodeia.

Quando o personagem Kafka imita o andar de robôs, com os lábios apertados entre as bochechas, e sugere que os homens do começo do século 20 são máquinas de preencher vagas no serviço público, Kavka traduz em imagens o sentimento provocado por O Processo. Carta ao Pai é o romance mais presente na peça, com trechos repetidos incessantemente (“Eu tenho dentro de mim um animal muito singular, metade gatinho, metade cordeiro. É uma parte da herança de meu pai.”), além de ser o ápice simbólico da peça. No palco, Kafka liberta da gaiola um bonequinho de papel que representa não apenas ele como todos que entenderam sua obra (a transformação por meio da arte). Depois, na mesma gaiola, queima seus escritos. O pessimismo. A arte, no fundo, não serve para nada.

A condição dos seres humanos sem racionalidade é bastante vista no trabalho de corpo do ator. A influência de Gregor Samsa, de A Metamorfose, é óbvia, além dos já citados gatinho e carneiro. Atormentado e solitário dentro do apartamento, Kafka se incomoda com os vizinhos, com os barulhos da vida, com tudo que lembra quanto o mundo deve ser odiado por ser do jeito que é. Sente-se pequeno, um inseto preso, que consegue a duras penas colocar desabafos no papel.

Esse sentimento e as sensações geradas por ele estão na peça. Um mérito digno do prêmio São José Risonho, troféu dado aos participantes do FIT.

Outra crítica

——

Btw, um PS rápido. Jorge Vermelho, curador do festival, vai com a cara do povo do Lume e os convida todo ano para ir a Rio Preto. É uma coisa a se descobrir, aliás. Por que alguns espetáculos se inscrevem e passam por uma puta seleção e outros são convidados? Nada contra o Lume, indiscutivelmente uma força do teatro de pesquisa, mas transparência é sempre bacana. Fecha o PS.

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PS2: Kavka com “v” é a tradução em checo para gralha.

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Written by Lucas Pretti

julho 16, 2008 às 2:55

2 Respostas

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  1. Realmente esse privilégio do Lume é algo para se questionar. Não assisti Kavka, mas em 2006 encarei ‘O Sopro’… peguei trauma.

    Silvio

    julho 19, 2008 at 16:13

  2. […] 16/7/08 • A burocracia gera loucos que nos salvam da burocracia […]


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