Cubo Mágico

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Ela passaria a freqüentar a mesa do almoço

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O vendedor autônomo Paulo Cézar Pitelli não se arrumou muito para ir à casa da tia Helena. Estava sempre por lá. Fazia calor, era fim de verão em 2002. Tocou a campainha, deu um alô para o primo Binho, chamou pela tia, que não respondeu. Foi então até a cozinha. Deu de cara com o amor de sua vida.

Quem estava lá era a nova empregada da família, Deili Bernardes. Com 31 anos, Paulo não acreditava que ainda pudesse se apaixonar. Nunca foi de morrer de amores, já desmanchara dois noivados. Queria curtir a vida, mas o rosto da jovem de 19 anos inspirou confiança. Puxou conversa.

“Oi”, disse. Um “oi” tímido e cabisbaixo veio em troca. “Sabe onde está minha tia?” Ela respondeu, e olhou para ele: “Não”.

Paulo então reparou melhor em Deili. Havaianas, camiseta, calça legging, mãos molhadas e cabelo preso. Um sorriso lindo. Sim, ela sorriu logo após.

O vendedor saiu do cômodo e precisava falar para alguém o que sentia. Trombou com Binho, apelido do primo Cléber Rogério Moda. Resumiu a surpresa de minutos antes em uma frase: “Primo, com essa eu caso”. Casou.

Paulo e Deili trocaram alianças no último sábado, em cerimônia religiosa na Basílica Nossa Senhora Aparecida, em Rio Preto. De lá, partiram para lua-de-mel em Balneário Camboriú (SC).

Todos os personagens daquele primeiro dia estavam presentes. A tia Helena Maria Costa, 50 anos, transbordava orgulho por ter servido de cupido. “Logo depois daquela vez era eu que falava de um para o outro”, disse. Ela lembra bem da dificuldade de uni-los; afinal, ela era empregada e passaria a freqüentar a mesa do almoço.

A conquista foi mesmo penosa. No meio da cerimônia, padre Torrente pediu para que os noivos se declarassem, deixassem gravada no vídeo e no coração dos dois uma mensagem para a eternidade. Conciso como no primeiro dia, Paulo resumiu no altar a história dos dois: “Demorou, hein?”. Ela só respondeu “Eu te amo”.

Foi o vendedor que tomou iniciativa e, com a ajuda de Helena, dobrou a resistente Deili. Uma semana apó o encontro na cozinha, combinaram de jantar no Canecão, o da avenida Murchid Homsi. Alguma conversa fiada depois, antes de ensaiar qualquer beijo, Paulo falou em namoro.

“Mal nos conhecíamos, não tínhamos ficado, ele já queria namorar”, diz hoje Deili. Puro charme. Ficaram juntos naquele dia e não se largaram, pelo menos espiritualmente, até o dia do casamento.

O namoro teve altos e baixos. Insegura, a doméstica não tinha certeza se ficar com o sobrinho da patroa seria saudável. Deixou Paulo e o emprego. E entrou a tia Helena em ação novamente — notícias de um para o outro, sempre que dava.

Balançada de tanto ouvir argumentos, um dia a doméstica comprovou os últimos boatos: Paulo estava noivo de outra. Deili encontrou os dois na casa noturna Sarau.

Olhou para dentro de si, assumiu seu amor e decidiu que aquilo não ficaria assim. Ligou para Paulo, que terminou o romance na hora. Namoraram, marcaram o casamento.

Na mesma semana em que anunciaram a união, nasceu o basset Saddam, que consideram o primeiro fruto do casal. O cão só não esteve na igreja.

Outra paixão além dos cachorros (a família de Deili tem mais dois) é a música. Paulo toca cavaquinho e durante o namoro manteve o hábito de ligar para Deili e não falar nada no telefone. Ela atendia e só ouvia o som do instrumento.

Uma lágrima rolou no rosto dela no momento em que o casal saiu da igreja. O órgão da Basílica parou e a música Ave Maria, gravada, começou. Não qualquer Ave Maria. Tocada por Jorge Aragão. No cavaquinho.

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Uma das boas iniciativas de Matinas Suzuki Jr. quando esteve à frente da rede BOM DIA de jornais foi criar a seção Casamentos & festas, inspirada nos artigos de Weddings/Celebrations, publicados no New York Times. Pelo que saiba, é a única publicação brasileira a tratar o tema jornalisticamente. Inaugurei a seção em 2007, com esta crônica acima, publicada em 17 de abril. Vou resgatar alguns dos textos aqui no Cubo Mágico.

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Written by Lucas Pretti

julho 8, 2008 às 1:37

Publicado em Crônicas

3 Respostas

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  1. Hummmmm… Que interessante, isso, Lucas. Comprova aquela tese de que a vida de qualquer um pode ser interesantíssima — basta haver quem a escreva bem.

    Fiquei curioso pelos demais textos.

    Abraços!

    João Barreto

    julho 8, 2008 at 13:35

  2. A idéia era essa mesmo, encontrar interesse na vida de pessoas comuns. E a seção era semanal, então dava (dá) um trabalho ferrado.
    Abs.

    Lucas Pretti

    julho 8, 2008 at 15:07

  3. […] Mais um texto meu publicado durante a gestão Matinas Suzuki Jr. na rede BOM DIA de jornais, em 1 de maio de 2007. Ele criou a seção Casamentos & festas, inspirada nos artigos de Weddings/Celebrations, publicados no New York Times. Pelo que saiba, é a única publicação brasileira a tratar o tema jornalisticamente. Outro texto que reproduzi no blog está aqui: Ela passaria a freqüentar a mesa do almoço. […]


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