Cubo Mágico

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A tranqüilidade do sempre acertar porque simplesmente não há erro

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O que faz do homem um ser provinciano? Isso não é certamente uma crítica, um mau humor existencialista, muito menos desabafo de qualquer natureza. Engraçado como corre até na veia da mais cosmopolita das pessoas uma coisinha de se sentir à vontade em ambientes ordinários, mesquinhos, pautados pela baixa qualidade, pelas gambiarras, por uma não-cobrança por qualidade.

Veja o exemplo junino das festas de época. Digo isso após ter vivido 10 anos no interior de SP e visto eventos organizados em cidades minúsculas obviamente trashs, com luz e som falhos, quadrilha desorganizada, pastéis gordurosos e narradores com observações do mais absoluto senso comum no chiado microfone. Tudo isso acontece também na capital, pois é. Na festa junina, por exemplo (e certamente há infinitos mais), de uma igreja da Moóca, onde fui buscar algumas já acabadas paçocas e finados cachorros-quentes em pleno feriado romano de Pedro e Paulo.

Tinha tudo isso lá. O som acabava no meio do “Olha a chuva” e depois recomeçava com outra melodia (quer dizer, a faixa pulou, seguiu a seqüência do mal planejado CD), a banda ruim tocava músicas sertanejas num palquinho fraco, esmilinguido, com a lâmpada a dez centímetros da cabeça do vocalista. O povão todo lá, se divertindo, vaiando risonha e compreensivamente as falhas nossas e esperando o sorteio de uma motoca. Ainda reclamavam: – Eles vão segurar isso até meia-noite…

Foi lá pelas 10 que o padre da paróquia de São Rafael (que vai ser reformada até o final do ano, minha gente, nossa igreja vai ficar novinha) foi chamado a algum lugar próximo do palco e invisível para a maioria das pessoas. Ouviu-se apenas a voz. “70 é a dezena”, disse o locutor empolgado com algo que o público não estava ligando tanto assim, um clima de mistério que não colou. “A centena é 800. Fica 870. Quem é 870?” Silêncio, zunzunzum, eis que o 870 já havia desistido dos últimos crepes de chocolate e ido embora. Quem é da honestidade é, não tem jeito. Guardaram o número para contatar o sujeito no outro dia.

Enquanto as barracas se dispersavam, já sem comida, vinho quente no fim, via-se o amadorismo (não é crítica, sim?) das pessoas, certamente voluntários da paróquia, membros da comunidade, esse talvez o organismo-master no universo do provincianismo. Algumas tias nunca haviam fritado pastel na vida, o do crepe exagerava na massa porque também não devia ter treinado, o que já não acontecia com o cara do chopp, este sim à vontade ali na função de tirar o Braumeister a 2,50 com algum colarinho.

Logo acima da chopeira, os fios elétricos se enroscavam para garantir a luz a cada tenda. Em algumas, um provinciano papelão era colocado em volta da lâmpada para não derreter o plástico que envolvia a barraca. Todo mundo muito feliz, realizado com aquela caipirice no sentido exato da palavra, aquela despreocupação com as aparências, aquele estar em casa, o relaxamento da tosquice, a tranqüilidade do sempre acertar porque simplesmente não há erro.

Em plena metrópole pós-moderna de dois mil e oito anos após Cristo, o que o ser humano quer mesmo é ser provinciano.

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Written by Lucas Pretti

julho 2, 2008 às 3:18

Publicado em Crônicas, Urbanidades

5 Respostas

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  1. E não é que eu passo pelo menos uma vez por semana na frente dessa igreja há anos, vivo dizendo que um dia vou nessa festa junina e nunca fui?

    Mas sabe de uma coisa? Acho que se ficarmos para sempre no “aquela despreocupação com as aparências, aquele estar em casa, o relaxamento da tosquice, a tranqüilidade do sempre acertar porque simplesmente não há erro”, isso dá uma sensação de “Dia da Marmota” (lembra do filme) terrível, e é sim, terrivelmente provinciano.

    Mas conseguir num dia entrar nesse mundo (e ter prazer nele) pra mim não é provincianismo, é cosmopolitismo…Provinciano é achar shopping que só se chega de carro um must…

    bjs
    Flavia

    Lady Rasta

    julho 3, 2008 at 3:28

  2. Boa, Flávia.
    O grande problema é achar que com pouco dinheiro, tudo o que se pode ter é carente de qualidade. Nada mais cosmopolita.
    Afinal, quem vive de improvisos, faz isso muito bem.

    danilo

    julho 3, 2008 at 13:03

  3. […] Além de boquiaberto, fui também acometido por toda sorte de sentimentos provincianos pertinente ao espírito comum das cidades. […]

  4. […] Além de boquiaberto, fui também acometido por toda sorte de sentimentos provincianos pertinente ao espírito comum das cidades. […]

  5. […] Além de boquiaberto, fui também acometido por toda sorte de sentimentos provincianos pertinente ao espírito comum das cidades. […]


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