Cubo Mágico

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Nathália na Noite das Maravilhas

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Nenhum dos bem preparados atores de Nathália, Noturna desempenha o principal personagem da montagem da Escola de Arte Dramática (EAD) da USP, que esteve em curta temporada em maio no teatro-laboratório da universidade. Simplesmente porque o principal personagem não é palpável. O retrato onírico pintado pelo diretor Maurício Perussi coloca a noite (sim, ela, a misteriosa, calada e nebulosa noite) como a mais complexa das personalidades em cena.

Nathália é uma garota ingênua com a idéia fixa de conhecer o que acontece nas ruas após as luzes das casas se apagarem e o vento começar a ser ouvido dado o silêncio. A brancura da atriz Marcela Bannitz, que dá a Nathália um ar de Alice (de Lewis Carrol), contrasta de forma dura com a negritude do ambiente, com iluminação e cenário sempre um tanto fúnebres. Ela se depara com seres errantes, perde simbolicamente sua imagem para, no final, se descobrir como adulta, mulher, perder a esperança na beleza e perceber que sonhos não resistem à realidade. Vem o sol e apaga-se seu País das Maravilhas.

A narrativa cênica executada pelo grupo tem o ponto forte nos símbolos. A bota de criança/menina usada por Nathália é substituída pelo salto quando há a transformação de espírito. Seu cabelo é preso em rabo-de-cavalo e se solta após a defloração. O balão em forma de coração também simboliza o amor perdido pela noite que foi encontrado por Nathália, na verdade sua dona desde sempre (o cego que vendia o balão pelas esquinas diz que, se ainda não havia vendido aquele, é porque alguém na noite ainda não encontrara seu amor). O dragão que perambula pela escuridão — um dos responsáveis pela aura de mistério — só é revelado ao raiar do dia. Com a luz, o medo se perde, o desconhecido se torna sabido, e tudo acaba. Uma alegoria para os sonhos e expectativas de Nathália.

Impressiona o lirismo com que a história (simples, no fundo) é contada. Já perambulando pelas sombras, a protagonista perde sua imagem, literalmente, aprisionada em uma velha máquina fotográfica. O fotógrafo é a faceta poética do espetáculo e dá início à trama propriamente dita: a busca de Nathállia por sua imagem. Ela então cruza com um bêbado, um velório, um cabaré e por fim novamente com o fotógrafo.

Cada troca de cena é entremeada pela caminhada sem rumo de Nathália. Três feixes de luz dividem o palco e dão à cena a impressão de continuidade. O espectador é situado por um ou dois objetos de cena somados à verdade vista nos atores (a interpretação de Beatriz Miguez para a inválida no velório do pai é desconcertante, tem algo de Marília Pêra no trabalho de corpo (postura e dedos contorcidos) e expressões faciais (melancólica, mas consciente e manipuladora)). Nunca se perde a impressão de sonho, falas e personagens fantásticos — e o cenário também contribui para isso.

É especificamente eficiente o momento em que Nathália entra no cabaré para encontrar a stripper e dizer que o pai dela (da stripper) estava morto. A confusão que se passa na cabeça dos envolvidos no diálogo (o cego, a stripper e Nathália) é simplesmente descrita com a movimentação do cenário. Uma porta, uma jaula para dançar, mesa e cadeiras giram, de forma que o espectador acompanhe a cena por vários ângulos, como se uma câmera rodasse em volta da cena e tudo continuasse acontecendo, como no cinema.

É da sétima arte a primeira inspiração para construção de Nathália, Noturna. O texto foi montado a partir de um roteiro de cinema para o conto O Sonho, do dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912). Uma ampla pesquisa sobre características semiológicas da fotografia (e seu paralelo com a linguagem teatral) também estão na origem do espetáculo — daí a existência e importância do personagem fotógrafo.

Fruto dessa pesquisa também é o talvez principal mérito de Maurício Perussi: jogar a interpretação das cenas para o imaginário do espectador. Tudo a ver com Lewis Carrol, de novo. A melancolia da noite é diferente dependendo das referências de quem assiste. Os cheiros, as cores, os incômodos vêm de experiências pessoais e não necessariamente das cenas. Isso acontece com as boas obras, que atingem uma universalidade de linguagem que acaba construindo até o cenário na cabeça de quem vê. Ou a sua idéia do País das Maravilhas de Alice é igual à da pessoa do seu lado?

As referências a Carrol são veladas e muito presentes. O bêbado tem algo de gato sorridente, o fotógrafo é um pouco o chapeleiro louco. E a noite reúne as Maravilhas. Dias antes da estréia da peça, em 22 de abril, a atriz Marcela Bannitz escreveu o seguinte texto em seu blog, A Vida é um Buraco:

“Já com as unhas repletas de barro e com o cheiro úmido e escuro lá de baixo, vemos o fim do buraco (ou o seu começo, nunca se sabe ao certo se o buraco iniciou-se no chão ou se foi o contrário). Enfim, olhamos de novo a luz forte de um dia amarelo. Muito amarelo. Tão amarelo que nosso primeiro ímpeto é voltar e enfiar a cabeça no buraco, novamente.

Mas já não há coelhos brancos. Nem gatos sorridentes ou chapeleiros que servem chá. Todos eles se dissolveram no amarelado do dia. Não há como voltar ao País das Maravilhas. Uma vez que você deu as costas para ele, ele se dissolve para seus olhos. Perdido para sempre em buracos não mais divertidos como dantes.”

Na verdade, há como voltar. É só esperar escurecer.

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Written by Lucas Pretti

maio 29, 2008 às 15:25

Publicado em Teatro

2 Respostas

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  1. A peça é mesmo mto lírica, mto plástica e mto cheia de simbolismos. O jogo de sons, luzes e as interpretações ricas e intensas nos imerge ao clima noturno.
    É esperar e torcer pra q seja exibida logo em outras arenas, para rever e re-sentir a noite.

    Guilherme T.

    junho 11, 2008 at 22:31

  2. Certeza, Guilherme. Tomara que reestréie em outra temporada.
    Abs.

    Lucas Pretti

    junho 12, 2008 at 13:59


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