Cubo Mágico

aqui tinha artes, teatro, cultura digital e crônicas contemporâneas

Sadismo no ventilador

leave a comment »

Confesso nunca ter tido contato além do ouvir falar com a obra de dois artistas antes do último final de semana. Acabei tocando-os pela primeira vez ao mesmo tempo, na adaptação de Os 120 Dias de Sodoma, romance de Marquês de Sade (o 1º), pelo diretor Rodolfo García Vázquez (o 2º), de Os Satyros. Confesso poucas vezes ter visto obra tão perturbadora.

Sade é amplamente conhecido pelo senso comum como um pornógrafo. Suas obras usam a orgia, a sacanagem e os desvios sexuais para denunciar uma França doente. Tanto é que deu origem ao substantivo sadismo (de onde varia o adjetivo sádico). Todo mundo sabe muito bem que sádica é a pessoa que sente prazer sexual em ver outra subjugada, humilhada, machucada. E, na sociedade tão influenciada pela moral católica, Sade é o demônio em pessoa.

Em 120 Dias de Sodoma, não há moral que permaneça de pé. Quatro poderosos (deputados, juízes, líderes religiosos) se reúnem para uma orgia de quatro meses num castelo afastado na França – que García Vázquez fez questão de situar no Brasil. Para lá levam oito adolescentes virgens (quatro homens, quatro meninas), mais quatro “fodedores” e duas prostitutas. Enquanto elas contam histórias de sacanagem, divididas em quatro “níveis de dificuldade”, as crianças encenam e os fodedores… fodem. Tudo para deleite dos quatro poderosos, que entram na putaria, claro, com as práticas mais absurdas que se pode imaginar.

Óbvio, todos os atores ficam nus. E isso já é um choque. Todos se tocam, se “abusam”. E isso é outro baque. Quando há as relações bizarras (no sentido original da palavra), aí não há moral que se sustente.

Difícil ficar incólume diante da defloração de uma das garotas, gordinha. Já é duro se colocar no lugar de uma atriz gorda que tira a roupa para 80 pessoas (só isso já significa uma quebra de padrões dolorosa). Quando ela cai no meio do palco após ter sido (cenicamente) penetrada no ânus, os outros atores berram e, aos brados, pedem para a platéia também enxovalhá-la: “A gorda perdeu o cabaço do cu”. E comemoram, riem, repetem o grito à exaustão. A platéia fica calada, se mastigando, pegando todos os pudores na mão e revolvendo-os.

Toda essa merda no ventilador tem um fundo político. Aí Sade é genial. Suas obras denunciam os desmandos com dinheiro público, as diferenças sociais e raciais, o acúmulo de poder nas mãos de poucos e mesmos. Tão parecido com o Brasil de hoje que ninguém estranha as sugestões d’Os Satyros. Um dos poderosos libertinos (o líder religioso deputado federal) certa hora fica sozinho com a platéia e pergunta se os espectadores se lembram do voto para a Câmara. Ele tinha razão; ninguém se lembrava. Silêncio e risinhos. “Mas todos sabem quem venceu o último Big Brother.” Risadas à solta. Risos punitivos. Ao final da cena, ele pede para todos repetirem bem alto: “Somos todos cidadãos”. E finaliza: “Isso, isso, todos cordeirinhos bípedes” de um país em que tudo termina em Carnaval. Como na peça, com a marchinha Bandeira Branca. Ouça:

Sair do teatro incomodado é prêmio para poucos dramaturgos, atores e diretores. Prêmio por terem cumprido seu papel.

[Post relacionado: Sobre pedófilos e machistas]

Anúncios

Written by Lucas Pretti

maio 6, 2008 às 2:14

Publicado em Arte, Religião, Teatro, Violência

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: