Cubo Mágico

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Plenitude

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Não sei se é decorrência do flerte com as artes dramáticas, mas estou com uma tendência a achar que as expressões visuais e animadas têm mais capacidade de arrancar sentimentos das pessoas. É como se tivessem uma luva própria com determinada forma e textura capaz de, só ela, despertar certos ânimos no coração. Claro que bons livros com tremendos textos fazem chorar, óbvio, ululante. Mas aquela lágrima rápida e furtiva, um encantamento imediato e o suspiro de quem sentiu de novo aquilo que estava guardado muito fundo parecem ter sido feitos para o audiovisual.

Pois foi a partir das imagens e sons de Ratatouille que me dei conta de algo triste, tristíssimo, tristeza camará. Me dei conta de é que na infância, só lá, que sentimos uma tranqüilidade plena, um esperar sem pressa, que não temos hora no sentido exato da expressão. O que nos espera daqui a anos ou minutos parece ter importância zero – e fechamos os olhos, dormimos ou não, com um senso de responsabilidade ainda não desenvolvido. É ali, só ali, que está o ser humano dono de suas vontades.

Sim, nada a ver com Ratattouille numa primeira análise. A sensação veio quase ao final do filme. O ratinho Remy, chef de cozinha, consegue, pelo prato ratatouille (receita), transportar o temido crítico Anton Ego às suas mais queridas lembranças de infância. Ao sentir o tempero da comida, é remetido diretamente a um ambiente iluminado, na cozinha de sua casa, em que gozava dessa tranqüilidade plena. Sua mãe chega, traz a refeição e marca para sempre seu cérebro ainda uma cêra mole com o gosto, o cheiro. Adulto, é pelo ratatouille que ele ativa as mesmas sensações físicas daquele dia – e o cérebro relembra a situação sentimental.

Aquele take, um flash na cabeça de Anton Ego, me levou direto à rede da casa de meu avô em Monte Alegre do Sul, uma cidadezinha no interior de SP. Passava feriados e férias ali todos os anos. Aquela tranqüilidade depois do almoço, o não-preocupar-se, a plenitude de uma vida estranha pela frente (em relação à qual não há qualquer expectativa e não nos importamos – na verdade nem nos damos conta). A um adulto não é permitido sentir isso. Por mais que tenha férias, que tente não se preocupar com nada, que o sol queimando a cara leve a um estado de sonolência em que o mundo é só aquele sol e pronto. Mesmo assim, há uma volta das férias, um calendário a cumprir, um aperto no peito pela pressão do trabalho, por mais seguro que se esteja.

A libertação é instantânea, mas há. Como água, ar e comida, o homem precisa de segunda realidade (mais ou menos o que isso quer dizer aqui).

[Posts relacionados: Ah, as artes e Sabores perdidos]

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Written by Lucas Pretti

abril 21, 2008 às 2:26

Publicado em Crônicas

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