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Sobre Shakespeare, o rock e as epifanias

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Se houvesse uma sondagem de popularidade entre os reis Lear e Cymbeline, certamente este perderia a eleição para a Britânia, região que governaram na imaginação de William Shakespeare pelos idos de 1600 e que se tornaria o Reino Unido de hoje. O motivo é injusto – Rei Lear teve o apoio da História (foi uma das peças mais encenadas do dramaturgo inglês) enquanto Cymbeline provocava medo em atores e diretores (é um dos textos mais difíceis do autor, em inglês quase arcaico). Sorte nossa saber que no século 21 temos a honra de sentir o mesmo que as platéias elizabetanas – a epifania de descobrir peças de Shakespeare sem qualquer referência anterior.

O mérito é da companhia inglesa Kneehigh, sob direção e adaptação livre de Emma Rice e texto de Carl Grose. Eles estiveram em curtíssima temporada em São Paulo, na semana passada, com uma peça atual, tecnicamente inventiva e que, apesar de ser considerada uma das comédias shakesperianas, flerta com o drama e a tragédia.

Cymbeline é o rei da Britânia, casado pela segunda vez e com três filhos. Dois deles foram raptados há 20 anos. A filha que sobrou, Imogen, se apaixona por um plebeu, Posthumus, um amor impossível porque a rainha quer ver seu filho (e enteado real), Cloten, no posto de genro de Cymbeline. O rei expulsa Posthumus da Britânia. A retomada do casal, tema parecido ao de Romeu e Julieta, é a base para desenvolvimento do enredo.

Britânia, rei, princesa, tudo isso soa antiquado aos ouvidos pós-modernos dos espectadores. Por isso, Emma Rice decidiu inverter a lógica e vestiu Posthumus com calça jeans, o rei com terno e todos os personagens como se vivessem atualmente. A Britânia virou Reino Unido, o Império Romano é a Itália. A trilha sonora de Cymbeline é rock inglês da melhor qualidade – e tocado ao vivo. Fecham a adaptação o cenário “desmontável”, que com a troca de ícones e luz passa de floresta cerrada a bordel italiano, e o texto, pouco preservado do original.

Aqui enfrentamos problemas. A mistura entre estilos de texto tão diferentes por vezes se choca, com prejuízo para o lirismo de algumas passagens. A recriação geopolítica também confunde – por que motivo hoje a Itália invadiria a Inglaterra? E presidida por César! Os momentos em que sentimos Shakespeare dão a impressão de que podiam ser mais extensos. Por outro lado, os momentos em que Emma Rice aparece (como nos prólogos inexistentes na peça original) dão a impressão de que precisávamos mesmo daquilo.

Se a adaptação tem elementos discutíveis, não deixou sobrar espaço para crítica à atuação e “montagem” do espetáculo. As cenas são dinâmicas, se transformam rapidamente com efeitos de luz por vezes feitos pelos próprios personagens, e os atores representam muitos rostos. A face de Imogen é a mesma de uma das prostitutas italianas; Cymbeline dá cara a um mendigo e a uma velha; todos sem qualquer escorregada – estado geral mantido, fé cênica, verdade. Percebe-se claramente quem está em cena, mesmo quando os personagens evoluem, se transformam – e aí brindamos Shakespeare.

A personalidade de Cymbeline é acompanhada desde o início com música, luz e interpretação adequadas. Ele começa frio, seco, desgostoso, infeliz, amargo – som sobrio, iluminação triste. Ao final, reencontra os filhos, permite o casamento de Imogen, mata a esposa má e dá espaço para o antigo e bondoso rei, otimista, radiante – e o som brilha, a luz estoura. A sensação ao final do espetáculo é aquela dos elizabetanos, convencidos em louvar a honra e o amor, até onde for necessário, sem qualquer limite ou obstáculo.

No fundo, a culpa por tudo o que somos (ou queremos melancolicamente ser) é de Shakespeare. Ele deu fluidez a estereótipos e inventou os clichês. Amores lancinantes, declarações exageradas, a morte como virada e o maniqueísmo paz/guerra. Se todos esses temas são sempre revisitados, é porque alguém lá atrás observou a condição humana com genialidade. Apesar de ter a obra amplamente explorada, esse mesmo alguém ainda consegue ser inédito.

(Mais críticas de Cymbeline.)

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Written by Lucas Pretti

março 31, 2008 às 11:05

Publicado em Arte, Teatro

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