Cubo Mágico

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Equilíbrio e contradição

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Viver em São Paulo tem algo de não fazer parte. Um mistério de ao mesmo tempo ser protagonista – de idéias, de estréias, de movimentos – e apenas vítima dos acontecimentos. A multidão cria a sensação desesperadora do determinismo, a coletividade forçada gera a impessoalidade natural. O que acontece ali me atinge aqui, mas não tenho controle sobre o início. Quem perde essa visão fatalmente se afundará em observações egocentristas. Quem se perde nessa visão tem fim mais trágico e perde a individualidade. Viver em São Paulo é equilibrar. Ou se divertir na contradição.

Não há outra forma de representar isso artisticamente a não ser em particularidades. Particularidades universais. Uma coisa meio Guimarães Rosa, meio Jorge Andrade, meio Baz Luhrmann. Uma coisa, agora, meio Bruna Lombardi.

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Ela é a roteirista de O Signo da Cidade, criadora da narrativa entrecortada na qual Carlos Alberto Richelli pôde surfar na direção. Ela também escreveu personagens não-piegas como Júlia (Laís Marques) e Adélia (Eva Wilma). Para si, guardou a condutora da história – o que já fazia atrás das câmeras. Não é estilo ainda, por se tratar do primeiro trabalho como cineasta, mas o filme consegue segurar o determinismo, a coletividade, o equilíbrio de São Paulo. E por isso é muito bom.

Quem não vive na cidade mal pode entender o que significam o longa, a música abaixo e o poema mais abaixo, todos presentes na visão de Ricelli e Bruna sobre a capital do Brasil de fato. Ou entende não entendendo, naquela melancolia própria de quem quer experimentar, se jogar, e sofre.

Poema de Sombra

Se perdem gestos, cartas de amor, malas, parentes
Se perdem vozes, cidades, países, amigos
Romances perdidos, objetos perdidos, histórias se perdem.

Se perde o que fomos e o que queríamos ser.
Se perde o momento, mas não existe perda, existe movimento.

Bruna Lombardi

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Written by Lucas Pretti

fevereiro 21, 2008 às 2:34

Publicado em Cinema, Crônicas, Urbanidades

3 Respostas

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  1. Lindo, mas “capital do Brasil de fato” é muito 1932, não?

    Danilo Sanches

    fevereiro 21, 2008 at 15:52

  2. Hahaha, não tinha pensado nisso. A construção é menos política do que “espiritual”. Abs.

    Lucas Pretti

    fevereiro 21, 2008 at 16:53

  3. Ainda não vi o filme, mas já ouvi críticas muito boas à respeito!

    Amo São Paulo. É suja, toda pichada, impessoal, mas é tão linda né?!

    E gostei do “Capital de fato”. Sou nostalgica, adorei o conceito 1932!

    Caroline

    fevereiro 21, 2008 at 19:33


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