Cubo Mágico

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No fim do ano, o futuro

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Qualquer fim de ano é inundado por retrospectivas, olhar para trás, balanços, o que foi, as 10 mais do que passou. Para terminar o ano, prefiro apontar para o futuro. A Época desta semana traz um artigo impressionante pela contemporaneidade. O jornalista Adriano Silva usa os adjetivos corretos e os cenários perfeitos para uma tese muitíssimo provável: em pouco tempo, todos seremos bissexuais. Quem não pensa assim, diz Adriano (e eu humildemente endosso), é “cafona, desinteressante, desinformado, jeca”.

Ainda não está disponível no site para não-assinantes (o link é este), por isso reproduzo abaixo:

Bissexual

Em breve, todos seremos bissexuais

Numa boa, sem estardalhaço: em uma ou duas gerações essa parede de silêncios, vergonhas, desconfianças e incômodos que há entre heterossexuais e homossexuais vai ser reduzida a uma risca quase invisível no chão. Se estivéssemos no fim dos anos 60 e eu escrevesse aqui que, em 40 anos, os conceitos de esquerda e direita, proletariado e burguesia, de explorados e exploradores não significariam mais nada, provavelmente seria metralhado. Ou pela polícia política do regime ou pelos guerrilheiros da oposição.

Da mesma forma, minha tese sobre o esmaecimento da importância da escolha sexual corre o risco de ser metralhada hoje tanto por ativistas gays quanto por machões homofóbicos. Mas é o que parece que vai acontecer. Transar com gente do mesmo sexo ou do sexo oposto não vai pesar muito nem para a aceitação social de uma pessoa nem para sua discriminação pela comunidade.

Quais os indícios de que isso vai rolar? Ligar para a opção sexual de cada um, ficar preocupado com a orientação das pessoas na cama, sala, varanda ou casinha de sapê é uma postura cafona, associada a gente desinteressante, desinformada, jeca. Ter medo da diferença que o outro nos impõe, sentir-se ameaçado ou agredido pelo que o outro faz ou deixa de fazer com seu corpo, na intimidade, com outra pessoa também é postura que remete a gente que está atrasada, uma ou duas curvas aquém dos giros que o mundo não pára de dar.

Entre meninos e meninas, mas especialmente entre elas, um dos valores mais fortes da nova geração é a liberdade para ter experiências, para tentar a mão – entre outras partes do corpo – e ver qual é. Na vida profissional, na hora das férias ou de escolher alguém para namorar. Outro valor dessa moçada é o hedonismo. Tudo tem de envolver prazer. As regras existem, mas vêm sempre a reboque das sensações, da satisfação estética, do deslumbre com uma novidade, do que pede a epiderme e do que manda a paixão. Essa turma beija um monte de gente na boca pela farra, sem compromisso, e começa a enxergar homens e mulheres não como dois gêneros estanques e bem definidos, mas como pessoas. Esses garotos e garotas vão virar adultos em dez anos. E depois vão dar à luz, com todo o seu espectro de liberalidade, uma nova geração de adolescentes.

Trazer o namorado para dormir em casa, que já não é problema para muitas meninas, vai deixar de ser problema também, logo, logo, para os meninos. E não será raro uma garota engatar um namoro firme com um rapaz e, depois, com outra garota. Afinal, ela não estará procurando o “homem”, mas a “pessoa” de sua vida, de um amor que a encante e a complete – busca que vai passar a muitos quilômetros da questão de gênero que ainda trava tanto a minha geração como as anteriores.

[Imagem retirada do site e-jovem]

[Atualização 8/01: Me mandaram o link desta notícia publicada pela BBC, que dá base científica para a teoria comportamental do Adriano Silva: Cientista italiano diz que humanidade será bissexual]

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Written by Lucas Pretti

dezembro 29, 2007 às 2:36

Publicado em Contemporâneos, Família, Sex

2 Respostas

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  1. Corretíssimo. E não há mesmo coisa mais cafona que preocupar-se com a intimidade dos outros, como se a própria intimidade já não fosse algo complexo. Parabéns pelo texto de excelente qualidade e pela visão vanguardista!

    O importante é viver bem. Cada um a seu modo. Grande abraço!

    Andre L. Soares

    janeiro 4, 2008 at 17:18

  2. Eu posso dar provas dessa teoria.
    Tanto eu mesmo, como outros cinco amigos meus somos bissexuais. Assim, até o ano passado éramos sete amigos mais ou menos normais. Mas a partir desse ano seis dos sete (incluindo eu) descobriram serem bissexuais. E continuamos sendo amigos do sétimo, que é hétero.

    A humanidade realmente caminha para isso, e eu acho que tudo deveria começar com as pessoas parando de presumir que as outras são héteros e ficarem espantadas quando descobrem que a verdade não é bem essa.

    O estranho (ou não) é que eu não consigo compreender como funciona a cabeça dos homos e héteros, simplesmente não consigo.

    Lucas

    junho 7, 2009 at 2:52


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