Cubo Mágico

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Sobre pedófilos e machistas

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Cena de Notas de um Escandalo

Se o pior preconceito é o latente, não-revelado, potencial, o mesmo talvez sirva para o machismo. A lógica de que homens têm mais direito a algumas coisas e a punição a mulheres que rompem as regras foi o que emergiu sofregamente de mim ao assistir Notas sobre um Escândalo. Um tapa na cara. Um dos filmes mais incômodos dos últimos tempos, pelo menos na minha visão – vê-se agora, retrógrada. Primeiro, a sinopse:

Cena de Lolita

Uma bela professora de Artes (Sheba – Cate Blanchet) oprimida pelo casamento (marido bem mais velho, filho com síndrome de Down) começa a lecionar em determinada escola e desenvolve grande amizade por outra professora (Barbara – Judi Dench), veterana, solitária, conservadora mas lésbica, que dá aulas de História. Viram confidentes, até que a amiga mais velha descobre o caso da outra com um aluno bonitinho de 15 anos. O garoto é o escape de uma vida sem graça. Barbara usa o segredo para se aproximar de Sheba, acaba por denunciá-la por ciúme e o caso vira um escândalo de pedofilia.

Notas sobre um Escândalo, antes de qualquer avaliação, é um filme sobre mulheres, sobre a alma feminina e o modo de levar a vida de quem sofre com homens obrigatórios e só consegue redenção no sexo proibido. Todas as mulheres têm essa característica, em maior ou menor grau (ou vocês, homens, nunca tiveram a sensação de não satisfazê-las plenamente?). A feminilidade do filme é que talvez me tenha tocado e me feito não aceitar os argumentos.

A tal visão cultural masculina não fica impassível diante do sucesso do garoto Steven, de 15 anos, nas investidas contra a professora. Ele não tem direito e não merece noites e noites de sexo clandestino (e o pior: o amor!) de uma mulher como Sheba, linda, inteligente, feita. Ela não deveria ceder. Ele não deveria chegar lá. Mas não. Contra toda a torcida masculina, e para a loucura do meu machismo, brota um sentimento incontrolável entre os dois.

Nesse meio todo há inveja, claro, boas doses de competição entre machos e algum fetiche aluno-professora. Mas fetiche é isso mesmo, fantasia, irrealidade, não pode se concretizar em alguém que não é você. Eis a dor masculina ao assistir um filme sobre mulheres.

Engraçado é fazer uma relação pertinente. Adultos com desejos infantis também é o mote do clássico Lolita, de Vladimir Nabokov, só que ao contrário. É o homem na posição de sedutor, pecador, sujo. Outra diferença é o papel do espectador/leitor. Eu, pelo menos, torcia por Humbert Humbert, me angustiava com as quase-relações e jogava na menina Dolores a responsabilidade por tudo. Diferente de Notas…, em que torci contra a professora e me refestelei quando foi descoberta e pagou pelo erro, mais do que com a prisão, com a desconfiança dos seus e a solidão existencial.

Um machista. Que vergonha…

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Written by Lucas Pretti

dezembro 9, 2007 às 22:46

Publicado em Arte, Cinema, Sex

7 Respostas

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  1. Pretenciosamente, uma indicação: ‘Procura-se Amy’ (Kevin Smith – 1997).

    Destaque para: “Eu te amo, mas não sou sua puta!”

    Danilo Sanches

    dezembro 19, 2007 at 9:13

  2. Legal, Danilo, não conhecia. Vou procurar.
    Abs.

    lpretti

    dezembro 19, 2007 at 11:48

  3. […] escrevi sobre o filme, neste post com o título Sobre pedófilos e machistas, e classifiquei como um dos mais incômodos dos últimos tempos. Se não quiser ler, sem problemas, […]

  4. […] 28, 2008 · No Comments O universo feminino tem preocupações inimagináveis pra um pobre homem machista (por condição existencial). Por exemplo, a […]

  5. […] [Post relacionado: Sobre pedófilos e machistas] […]

  6. […] fica com quem quiser, vai se divertir, mas não com um moleque de 15 anos. Isso dói realmente. Eu já falei sobre isso aqui quando assisti a Notas Sobre um Escândalo, em que a Cate Blanchet fica de quatro (literal e […]

  7. […] feminino tem preocupações inimagináveis pra um pobre homem machista (por condição existencial). Por exemplo, a […]


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