Cubo Mágico

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Urbana Legio omnia vincit

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O ator Bruce Gomlevsky nega, diz que é só “trabalho artístico”. Mas o público sai da peça Renato Russo com a certeza de que é macumba. A interpretação e imersão de Bruce no espetáculo que resume a vida de um dos últimos poetas brasileiros são de uma intensidade assustadora, digna da exclamação “Renato não morreu!”.

São muitos os momentos que, num relance, vê-se o próprio roqueiro no palco, seus gestos, roupas, olhares e expressões. Deve ser isso o que explica a emoção sincera das pessoas na platéia, que cantam e choram ao mesmo tempo e saem com o gosto de saudosismo oitentista entalado em algum lugar da alma.

Muito bem produzida e montada, Renato Russo estreou em São Paulo na semana passada, mas só fui ver ontem à noite. Peguei o último lugar disponível, para cadeirantes, na boca do palco. Além de sentir o espetáculo melhor que os outros, dali participei de uma experiência que me deu certeza de estudar teatro assim que possível. Me emocionei com alguma intensidade na música Pais e Filhos, tanto por referências pessoais como pela aura induzida pela peça. Nessa hora Bruce Gomlevsky desce do palco para cantar com o público e tocar as mãos de alguns da platéia. Quando chegou até mim, eu estava, claro, chorando. Cantando e chorando. Me deu a mão, olhou firme e apertou como um grande amigo que apóia momentos difíceis do outro. Por um segundo, fomos grandes conhecidos, para no próximo segundo sermos completos indiferentes. O que paga a um artista essa troca de energia?

Nem os baratos R$ 15 de ingresso. A narrativa cronológica e até certo ponto didática situa o espectador não-especialista na vida de Renato Russo, mas não ao ponto de ficar banal. As transições de cenas e atos são de um sincronismo e sensibilidade elogiáveis, já que mistura música, teatro, arte eletrônica e cinema. Mas a técnica, apesar de ótima, não é o ponto alto do espetáculo.

Vale pela interpretação de Bruce e por reviver e relembrar a melancolia dos anos 1980. Poucos são os que realmente viveram com a intensidade de pessoas como Cazuza e Renato Russo a década perdida. Mas todos sofrem por ela. Uma das falas da monólogo explica o fenômeno: “O público projeta no artista sua salvação, o elege para representá-lo na sociedade. E fica assistindo, lá de baixo, o artista se destruir com a imensa responsabilidade de carregar a massa”.

Qualquer semelhança com religião não é mera coincidência.

Renato Russo está no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), metrô Sé – link oficial aqui / vídeos aqui / ingressos aqui / entrevista aqui / crítica aqui.

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Written by Lucas Pretti

novembro 30, 2007 às 3:33

Publicado em Arte, Teatro

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