Cubo Mágico

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Alice, o segredo

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Não fosse pela atriz Carla Ribas o filme A Casa de Alice (site oficial aqui) seria tão contundente? Eis a questão. Apesar dos 49 anos, e dos bons e longos tempos fora da grande mídia, Carla é uma iniciante no mundo do sucesso, ao ponto de o crítico Luiz Carlos Merten a chamar de “novo furacão do cinema nacional”. Não é exagero.

A Casa… é um filme realista. Mas não só. Tem cheiro, gosto. O ambiente caseiro e comunitário lembra o cenário construído só com palavras por Aluízio Azevedo em O Cortiço. Também remete ao livro as relações humanas sujas, o sexo desconfortável e ao mesmo tempo redentor. Cada personagem da fita (uma família de classe média baixa da periferia de SP) guarda um grande segredo, conhecido invariavelmente pela avó, Jacira, vivida por Berta Zemel, ironicamente a que menos enxerga na casa. As conseqüências de todos os segredos recai sobre Alice, o esteio afetivo e financeiro do lar (que não é tão “lar” assim).

Essa aura familiar – afinal, quem nunca falou um dos diálogos do filme? – faz com que os vários clímax sejam dissolvidos na trama, a ponto de não haver fim. Deu vontade de aplaudir Chico Teixeira, não por acaso documentarista estreante em ficções.

Importante notar que a falta de trilha sonora denuncia a causa dos problemas familiares sempre camuflados. Rádios e televisores estão sempre ligados, em todas as situações. Se não há música, também não há silêncio, pois o entretenimento audiovisual está ali, no seu papel de influenciar caráteres, forjar costumes e suprir carências. O resultado é a degringolação moral.

Curioso notar que o orelhão usado por Alice para telefonar ao amante em certo momento, apesar de a história se passar em São Paulo, é da operadora com número 52, que no Google não trouxe qualquer resultado relevante. Se eu fosse a Telefônica, teria patrocinado um filme desse.

Ainda está em cartaz em poucas salas – veja aqui. Reportagem e entrevistas, aqui, na TV Cultura.

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Written by Lucas Pretti

novembro 29, 2007 às 2:49

Publicado em Arte, Cinema

2 Respostas

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  1. Muito interessante A Casa…, Lucas. No momento não recordo, mas chico Teixeira não me é estranho… vou dar uma pesquisada na obra do cara — também aceito sugestões do que assistir dele 😉

    Prazer em conhecer teu blog!

    Abs!

    João Barreto

    dezembro 10, 2007 at 17:56

  2. João, o Chico Teixeira é originalmente documentarista, com dois filmes de não-ficção bastante premiados – “Criaturas que Nascem em Silêncio” e “Carrego Comigo” (sobre gêmeos univitelinos – crítica aqui).

    Deve ser difícil achar cópias. Mas fica a dica.

    Abs.

    lpretti

    dezembro 10, 2007 at 23:31


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