Cubo Mágico

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Da música

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A leitura desta reportagem me fez refletir sobre o consumo de música hoje em dia. O que eram centenas de K7s antigamente se transformaram em CDs e então em alguns pesados arquivos de música e então numa fugaz relação downloadplay. Além da mobilidade.

O ouvir música já ultrapassou a barreira do hábito/comportamento para se tornar necessidade em grandes centros urbanos, alternativa para o inóspito cenário de metrôs/ônibus e o escape necessário quando não dá vontade de ler depois de um dia de trabalho.

Só que também rola o inverso. Me flagrei esses dias extremamente incomodado ao ouvir last.fm no trabalho. Não pela transgressão, mas uma incomodação sonora mesmo – tira este fone, saco, música alta, vai pra lá. Tudo que queria era silêncio. E não percebia.

Artigo inspirador de Luís Antonio Giron, editor da seção Mente Aberta, da Época, publicado no jornal Metro (download do PDF aqui – 3,42 MB):

Solidão embutida

Tenho visto nos trens e ônibus pessoas que conseguem usar o tempo para ouvir música. Antigamente era difícil topar com alguém de pé, absorto em uma música. Tudo ficou mais fácil, com a popularização dos tocadores de MP3. Agora você pode embarcar num ônibus da periferia e deparar com pelo menos cinco pessoas silenciosas, com o olhar oco, prestando atenção nas suas canções favoritas. Isso não acontecia aqui cinco anos atrás, e eu já havia notado o fenômeno do MP3 no metrô de Nova York e nos ônibus londrinos. A sensação inicial foi de estranhamento.

As tecnologias mudam os hábitos. Mesmo com todas as vantagens, os tocadores digitais criaram a mais terrível forma de isolamento urbano: ouvir música em volume alto sem que os outros notem ou se irritem. Eu me pergunto se essa mudança é positiva. A música educa e altera a sensibilidade. Mas os tocadores de MP3 estão gerando novas espécies de zumbis urbanos. As pessoas embutiram a solidão e agora dialogam menos. Ouvir música sem prestar atenção nos barulhos em torno é a forma mais triste de andar sozinho, de evitar contato.

Para demonstrar minha tese, fiz um teste e percorri o mesmo trecho – cerca de 200 metros, atravessando o Terminal Parque Dom Pedro 2 – várias vezes, nos horários de maior movimento. Em cada uma, toquei um estilo de música. Escutei o som dançante de Rihanna e tudo me pareceu eufórico, mesmo quando notei que um sujeito me seguia. Curti as canções melosas de James Blunt e quase dormi enquanto a multidão me dava encontrões. Ouvi o Acústico MTV de Paulinho da Viola e me deu pena da miséria. Prestei atenção na monumental Sinfonia nº 6 de Anton Bruckner, e as pessoas pegando ônibus me lembraram a mecanização do filme Metrópolis, de Fritz Lang, mas elas estavam marchando em protesto…

Nessas quatro andadas no mesmo trecho, sob condições parecidas, o passeio ganhou ares de variedade. Foram pelo menos quatro significados para o mesmo evento: festa, meditação, crítica social e saga épica. Isso quer dizer que a solidão sonora injetou no meu cérebro várias realidades virtuais a partir do mesmo ambiente real. O MP3 player separou o mundo concreto do universo dos signos, aquilo que eu via do que eu imaginava. E juntou elementos distintos de forma inaudita. Isolado em minhas preferências no meio da multidão, eu me senti delirando, num curto-circuito existencial. Resolvi deixar o aparelhinho em casa. Vou voltar aos barulhos do mundo.

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Written by Lucas Pretti

novembro 1, 2007 às 21:06

Publicado em Arte, Contemporâneos

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