Cubo Mágico

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Arrependimento

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Não cheguei a assistir a Paulo Autran ao vivo. É o maior arrependimento dos últimos tempos da última semana ter negado um convite, na época por falta de grana, para assistir a Adivinhe quem vem para rezar, em Bauru, em 2006.

O arrependimento bateu há quase uma semana. Era plantão no jornal, Paulo Autran havia morrido no dia anterior e a manhã de sábado, solitária, começava a ficar arrastada. A avalanche de notícias sobre qualquer coisa nos faz perder o sentido exato do que aquilo significa – a libertação disso se abateu sobre eu e Paulo naquele dia.

Ele apareceu para mim numa imagem de arquivo da Band News, declamando Meus oito anos, de Casimiro de Abreu (abaixo). “Minha infância querida que os anos não trazem mais.” Expressão sem igual, olhos fixos e as bochechas arqueadas como alguém que sente e lembra algo com dor. Os versos alegres com semblante triste. Aquele espetáculo me roubou não só a atenção como algumas lágrimas.

Um choro de arrependimento.

MEUS OITO ANOS
.
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
.
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d’amor!
.
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
.
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!
.
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus
— Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
.
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
……………………………
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!
.
Casimiro de Abreu

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Written by Lucas Pretti

outubro 19, 2007 às 2:38

Publicado em Arte

Uma resposta

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  1. […] vídeo de arquivo da BandNews me emocionou. Mas na época não encontrei na internet. Fiz até um post sobre. Mas agora encontrei. Autran declama o poema Meus oito anos, de Casemiro de Abreu. Sem […]


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