Cubo Mágico

aqui tem artes, teatro, cultura digital e crônicas contemporâneas

Archive for the ‘Teatro’ Category

Minha alma sobrevive à ameaça tomada pela mais sublime graça

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É digna de memória a música-poema declamada por Gero Camilo no capítulo final de Som e Fúria, a minissérie sobre teatro da Globo. Ele disse que nunca faria novela (ou papéis que aprofundassem as diferenças sociais brasileiras – exatamente como o vigia nordestino, pobre e excluído da série), e deve ter aceitado esse papel só por causa dessa cena. Diria que é a única que vale a pena na série toda.

Assista a partir de 4′40″:

E leia a íntegra, com várias ironias deliciosas nas entrelinhas:

outro dia, andando pelo centro da cidade, eu resolvi me dar um presente: sonetos de Shakespeare.

parece uma atitude boa dar-se tais presentes, se eu não tivesse de ter gasto meus últimos tostões, meus últimos tostões, meus últimos, aqueles destinados ao aluguel da casa em troca dos sonetos de Shakespeare.

eu parei em frente a uma livraria e, como um cachorro que só sabe do tempo que anda com o olhar no frango que gira, como o cachorro que sabe da gravidade pela baba que desce da boca, fiquei horas seguidas ali babando sobre a vidraça, que não permitia que minhas mãos tocassem os sonetos de Shakespeare.

o comerciante de livros aproximou-se com um sorriso fosco, perguntei quanto custaria para que os sonetos fossem meus. ele então sorriu, menos fosco e mais vil, e disse-me: ‘custa tanto’. o tanto que ele disse era pouco, nem sabia, até porque ele vendia Shakespeare, pense, junto com culinária e magia. mas as minhas mãos queriam tocar os sonetos de Shakespeare

cavei o bolso e, cédula a cédula, moeda a moeda, deu justo pra pagar e voltar pra casa, nada mais.

esta noite eu sou um homem sem garantia de que amanhã eu terei casa porque eu não paguei o aluguel. quanto à minha alma, ela sobrevive a essa ameaça, tomada pela mais sublime graça em habitar os sonetos de Shakespeare.

Escrito por Lucas Pretti

Agosto 3, 2009 em 21:41

Cleyde e Isabel, por Ariana

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Deixe o tempo agir sobre a cabeça fervilhante que posto aqui algumas impressões sobre as peças do FIT, em Rio Preto. São pelo menos duas apresentações assistidas por dia, mais discussões, encontros, trombadas e papos pseudo-etílicos-intelectuais que só um tempinho de mente vazia para processar e organizar tudo.

Por enquanto, fiquem com as entrevistas em áudio que minha amiga (e anfitriã) Ariana Pereira fez com as atrizs Cleyde Yáconis (por ‘O Caminho Para Meca’) e Isabel Teixeira (por ‘Rainha[(s)] – Duas Atrizes em Busca de um Coração’). Reparem na maturidade sábia de uma e na inquietude e energia de outra:

Cleide:

Isabel, parte 1:

Isabel, parte 2:

Se preferirem ler as entrevistas (obviamente editadas, por isso não recomendo), cliquem aqui e aqui.

Cleyde Yáconis em 'O Caminho para Meca'

Cleyde Yáconis em 'O Caminho para Meca'

Isabel Teixeira pela câmera do Kao

Isabel Teixeira pela câmera do Kao

Escrito por Lucas Pretti

Julho 25, 2009 em 3:38

Todas as críticas oficiais do FIT, só que ‘abertas’

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Acabei de abrir outro blog, temporário e com a intenção de arquivar material para consulta eterna. É o Painel Crítico – FIT 2009, com as críticas oficiais do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto.

lay-out Painel Crítico

A descrição (original aqui):

Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (FIT) se diferencia dos demais por oferecer ao público especializado ou não um painel de críticas de todos os espetáculos selecionados – então, além de vitrine de espetáculos, o festival se propõe realmente a discutir linguagem, estética, influências e a temática do teatro contemporâneo brasileiro e internacional.

Mas…

Todas as críticas ficam fechadas no site do festival. Não tem nem como fazer referência aos textos e colocar links, quanto mais pensar em comentá-las. O site todo é péssimo, desenvolvido em flash com mil movimentos em cada item e usabilidade sofrível.

Abro este blog para abrir também as críticas do festival, para poupar a organização dos comentários negativos sensatos de sempre: a classe teatral só discute entre si e as peças e todo o debate em torno delas são herméticos por natureza.

Quem sabe não sirva também para apresentar a internet ao FIT – ferramentas gratuitas, integradas, aberta a comentários, participação do público e acessibilidade. Não adianta discursar sobre interatividade e as “instâncias da subjetividade” (o “conceito” do FIT 2009) com um site como este: www.festivalriopreto.com.br.

Aproveitem, comentem e espalhem os textos de Clóvis Massa (Porto Alegre), Lúcio Agra (São Paulo), Luiz Marfuz (Salvador), Maria Beatriz de Medeiros (Brasília), Kil Abreu (Santo André) e Walter Lima Torres (Curitiba).

Estou acompanhando o FIT desde sábado (18) e fico até o próximo (25). Logo posto impressões sobre as peças. Elas são só um dos motivos que me trazem a Rio Preto – tem também os amigos, a cerveja, o calor e as férias.

Escrito por Lucas Pretti

Julho 20, 2009 em 18:15

Rituais

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Sempre achei um tantão ridícula a histeria que se forma em torno das datas comemorativas de sempre (americanos são especialistas nisso, com seus ‘happy new year’ forçados de felicidade e falsidade). Sempre menosprezei o poder do ritual, a iniciação, a repetição de determinadas ações com o intuito de celebrar, rememorar, homenagear. Tudo isso sempre me soou velho, nada original, sem sentido a não ser o da tradição acrítica,  fazer porque um dia já fizeram, nunca quis isso pra mim.

Até que hoje me vi um ser inundado por essa pequenez. E o mundo me pareceu mais compreensível.

O Festival Internacional de Teatro de Rio Preto (FIT) começa em pouco mais de uma semana. É muito aguardado por meu grupinho de amigos. A data. Quem vai fazer a assessoria. O site. A divulgação da programação. A venda de ingressos. A compra de ingressos. Os ingressos esgotados. As vésperas. As presenças. As apostas. As acomodações. As peças. As noites. As sacadas. As opiniões. As ressacas. Os balanços. O fim.

Falamos nisso desde o começo do ano. “Quando o FIT chegar…”, “Porque no FIT a gente vai…”, “No Não-Lugar vai ter…”, “Fernandona vai vir…”. “Em julho é que vamos ver.”

Julho. É o mês em que tudo converge, todo mundo renega a temporada Yang do inverno escuro, feminino e interior e sai das tocas, enfrenta o frio (!) de Rio Preto e os forasteiros para marcar na alma mais alguns dias de existência superior. A verdade é que ‘entramos’ na toca, numa toca anual, ritual, sempre a mesma mas sempre diferente, com novas e velhas pessoas, uma toca com a mescla quase perfeita de arte com um monte de coisa bonita.

Estamos na reta final. Ontem, um reunião séria, internet, de longe, todo mundo com listas de peças escolhendo o cardápio final – que deveria contemplar as coisas que cada um não pode perder e aquelas que os amigos não podem perder (o equilíbrio disso, sim, é a melhor programação, todo mundo ver junto o que faz sentido pra todo mundo).

Hoje, as estratégias colocadas em prática. Corações e atenções unidos às 11h. Taquicardia. “Eu fiz em 8 minutos.” “Eu em 14.” “Perdi a peça argentina.” “O Fulano perdeu várias.” “Me empresta seu cartão.” No final deu quase tudo certo. O telefone toca e a voz está ali para confirmar e acalmar. Tudo certo.

Estamos prontos para o FIT. Prontos para uma semana que sabemos quase totalmente como será. Algo que só terá graça por se repetir. Por se realizar como o planejado. Planejamento que constrói a aura, o clima, o molho, o encanto, aquilo tudo. Para então ser igualzinho no ano que vem.

Bobeira, né?

Tão bobo quanto as noivas, os coelhinhos, os velhinhos, os troféus e as missas. Rituais e datas comemorativas são as coisas mais lindas do mundo, desde que sejam as nossas.

Escrito por Lucas Pretti

Julho 8, 2009 em 2:17

Publicado em Epifania, Religião, Teatro

Programação do FIT 2009

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A organização do Festival Internacional de Teatro de Rio Preto, o FIT, prometeu a programação oficial para 17 de junho, mas ainda não soltou no site. Achei no Rio Preto Te Despreza o link para a grade, que, vai saber, pode nem ser a oficial. Mas, como é o que temos, acreditamos.

grade_fit2009

Já vi a maioria das peças aqui em SP – Rainhas, Senhora dos Afogados, Caminho para Meca, Eldorado, Comunicação a uma Academia. Mas OK, vou ver de novo, o FIT é o FIT.

Meus posts do ano passado sobre o festival:

17/7/08 • O mundo inóspito leva à guerra, inclusive dentro de casa

16/7/08 • A burocracia gera loucos que nos salvam da burocracia

15/7/08 • a luz apagou antes da hora

9/7/08 • Respirar teatro é pouco perto do que acontece no FIT

Escrito por Lucas Pretti

Junho 20, 2009 em 19:18

luzes, texturas, fotografias e afins

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Mataram a pau as fotos do Zé Luiz Sampaio no dia da transmissão de Por Conta da Casa.

Assim como a direção de fotografia do Kao:

Por Conta da Casa

Por Conta da Casa

Por Conta da Casa

Por Conta da Casa

Por Conta da Casa

Escrito por Lucas Pretti

Abril 28, 2009 em 0:04

‘Qual a hora mais difícil do dia? Essa é uma boa pergunta de se fazer’

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Quem perdeu o ao vivo na sexta-feira pode assistir a versão gravada de Por Conta da Casa no Teatro Para Alguém. Como eu sou bonzinho, vou embedar os três atos aqui neste post. Não deixe de comentar o que você achou lá no site. Eu particularmente achei tesão a fotografia que o Kao criou.

FICHA TÉCNICA

‘POR CONTA DA CASA’
Texto: Sérgio Roveri
Diretor: Zeca Bittencourt
Diretora assistente: Tatiana Guimarães
Elenco: Zemanuel Piñero e Lucas Pretti
Diretor de fotografia: Nelson Kao

SINOPSE: Um cliente estranho e armado entra de madrugada em um boteco sujo no centro da cidade, em que já não há mais nenhum freguês. Ali dentro, o garçom, que já estava se preparando para fechar a casa, passa a ser ameaçado pelo cliente. Calado, o garçom ouve do visitante todo tipo de insulto e torna-se vítima de suas ameaças físicas também — até que toda verborragia do freguês revele suas verdadeiras intenções.

uma peça por conta da casa

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Isto é um post-convite.

Estou participando da peça Por Conta da Casa, de Sergio Roveri (prêmio Shell 2006 – melhor autor), que estreia na internet nesta semana. Faz parte do repertório do projeto Teatro Para Alguém, o primeiro teatro virtual do país. Só por causa disso já vale a visita. Caso se empolgue, espere online pela SEXTA-FEIRA, DIA 24, às 22 HORAS. Apresentaremos a peça AO VIVO. São 30 minutos de duração. É só clicar aqui: www.teatroparaalguem.com.br.

Veja o flyer da peça:

Por Conta da Casa - flyer

E a programação de abril/maio do Teatro Para Alguém:

programação Teatro Para Alguém

Se você perder a peça ao vivo, não tem problema. É só entrar no site quando puder e assistir a versão gravada. Aproveite e siga a gente no Twitter (http://twitter.com/teatrotpa) e assine nosso canal do YouTube (http://www.youtube.com/teatroparaalguem).

FICHA TÉCNICA

‘POR CONTA DA CASA’
Texto: Sérgi Roveri
Diretor: Zeca Bittencourt
Diretora-assistente: Tatiana Guimarães
Elenco: Lucas Pretti e Zemanuel Piñero
Diretor de fotografia: Nelson Kao

SINOPSE: Um cliente estranho e armado entra de madrugada em um boteco sujo no centro da cidade, em que já não há mais nenhum freguês. Ali dentro, o garçom, que já estava se preparando para fechar a casa, passa a ser ameaçado pelo cliente. Calado, o garçom ouve do visitante todo tipo de insulto e torna-se vítima de suas ameaças físicas também — até que toda verborragia do freguês revele suas verdadeiras intenções.

ESTREIA – SEXTA, 24/4 – 22h

Até sexta!

arte cênica binária

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Reproduzo aqui uma matéria minha sobre teatro digital publicada no Estadão. Por ser um tema infelizmente raro, deixo o texto aqui na íntegra, com o objetivo de popularizar o assunto e deixá-lo mais buscável/encontrável na internet.

As páginas originais você encontra aqui.

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Furacão digital chega ao teatro

Com a internet, corpos se digitalizam e surge um ‘teatro expandido’

Lucas Pretti, 20/4/09, Link/Estadão

A matéria-prima do teatro é o encontro, e não uma fita magnética, um rolo fotográfico, um vinil. A experiência do espetáculo ao vivo, tida como impossível de reproduzir, é o que vinha poupando as artes cênicas dos ventos digitais que há tempos já varreram discos, fotografias e filmes. Pois os ventos se tornaram furacão e conseguiram relativizar até a presença, a experiência. Com a internet, estar em algum lugar deixou de ser uma condição real, física. Os corpos se digitalizaram. E, com eles, o teatro.

Três cenas em três palcos espalhados pelo mundo, ligados pela internet. Exemplo de teatro digital na 'Play On Earth', da Phila 7 e Station House Opera, 2008. Crédito: Marcelo de Souza/Divulgação

Três cenas em três palcos espalhados pelo mundo, ligados pela internet. Exemplo de teatro digital na 'Play On Earth', da Phila 7 e Station House Opera, 2008. Crédito: Marcelo de Souza/Divulgação

Ainda não são muitos pelo mundo e no Brasil, mas grupos cênicos que pesquisam as possibilidades binárias do teatro lideram a vanguarda artística contemporânea. A complexidade vem justamente da fusão entre as atuais teorias de arte (remix, hibridismo, cibercultura) ao que há de efêmero no teatro.

As principais experiências, que o Link resume nesta semana, usam transmissões ao vivo pela web com o intuito de ligar e desligar palcos e plateias distantes geograficamente. Junte a projeção de vídeos, performances, iluminação, artes plásticas e há possibilidades infinitas.

Os próprios artistas não entendem direito a areia movediça sobre a qual propõem espetáculos inovadores. “Sabemos que falamos de algo que não é mais teatro, mas que tem na essência uma teatralidade expandida”, afirma Rodolfo Araújo, ator e estudioso brasileiro do chamado “teatro digital”.

A própria alcunha é perigosa por reduzir o conceito ao significado de digital entendido como eletrônico pela maioria das pessoas – e por incluir erroneamente o teatro tradicional filmado e postado no YouTube (que não é, definitivamente, uma experiência de teatro digital).

A discussão vai longe, mas já há teóricos debruçados sobre o assunto. A artista Nadja Masura, da Universidade de Maryland, nos EUA, trabalha numa tese em que condiciona o teatro digital a algumas características – basicamente a existência de alguém conduzindo o espetáculo, um texto (que não é apenas palavra) e o público. A questão é que todos os elementos são relativos hoje em dia e expandidos a níveis máximos.

Se você nunca ouviu falar de grupos como Phila 7, La Fura dels Baus, Station House Opera, II Trupe de Choque e Cia. Automecânica de Teatro, leia a reportagem até o fim e relativize a cortina vermelha, os três sinais e as máscaras da comédia e tragédia – que coexistem, claro, mas representam um teatro de outros tempos.

Teatro digital é a soma entre atores, 0 e 1 se movimentando na internet. A ação de dois atores em dois tempos e espaços diferentes correspondem a tempos infinitos e espaços virtuais. (…) O teatro digital é a linguagem binária sendo usada para conectar o orgânico com o inorgânico, o material com o virtual, o ator real com o avatar, a plateia presente com usuários de internet, o palco físico com o ciberespaço.”
Manifesto Binário, publicado pela companhia La Fura dels Baus

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Vida fragmentada do século 21 ganha espelho no teatro

Desconstrução do espaço e tempo, mistura de linguagens, fim da linearidade, ausência de uma mensagem fechada: um teatro feito de partes, como a realidade de hoje

As duas principais besteiras ouvidas quando se fala em teatro digital são especulações sobre a “morte” das peças tradicionais e a ironia típica dos puristas: “Isso não é teatro”. Não é mesmo e nenhum dos envolvidos com essa proposta artística sustenta o contrário, embora se mantenha a tríade atores, público e mensagem, que define teoricamente o teatro.

Gravação de '121.023 J', no Teatro Para Alguém. A câmera é o olho do público, na internet. Um novo conceito de presença. Foto: Nelson Kao/Divulgação

Gravação de '121.023 J', no Teatro Para Alguém. A câmera é o olho do público, na internet. Um novo conceito de presença. Foto: Nelson Kao/Divulgação

“A internet descentralizou os meios de produção, abriu a fase de colaboração e fez explodir a mistura de linguagens em todas as áreas profissionais. Então o que fazemos não é teatro. É qualquer outra coisa misturada. Mas isso, na verdade, pouco importa. É fluxo”, afirma o diretor da companhia paulista Phila 7, Rubens Velloso.

Ele dirige a trupe brasileira com mais visibilidade entre as interessadas na conversa entre artes cênicas e tecnologia, com três espetáculos tratados sob a ótica digital desde 2006: Play On Earth, A Verdade Relativa da Coisa em Si e What’s Wrong With the World?. Em todas houve ação à distância, com atores contracenando ao mesmo tempo em locais diferentes, até países. A foto acima evita muitas linhas de explicação.

O próximo espetáculo da Phila 7, em julho, pretende romper com o palco italiano e outros cânones do teatro convencional, como os momentos em que começa e termina o espetáculo e a linearidade, que será abandonada. Uma comparação feita pelo pesquisador Rodolfo Araújo situa o leitor menos acostumado com performances. “Na música eletrônica pouco importa o início e o fim, não é obrigatório dançar e também ninguém está interessado numa ‘mensagem’ fechada.” É o que ocorre com esse novo teatro.

Então estamos diante de uma revolução da forma? Não. O modo de se fazer é alterado substancialmente pela tecnologia, mas não faz sentido se não estiver relacionado ao conteúdo. O trabalho da companhia paulista II Trupe de Choque é um bom exemplo disso. Eles unem compromisso social, cultura livre e tecnologia para discutir, num espetáculo esperado para setembro, a condição do homem no atual sistema capitalista da informação.

A abordagem é tão complexa que lá se vão três anos de pesquisa no Hospital Psiquiátrico Pinel, em Pirituba, e na Usina de Compostagem de São Mateus, na zona leste da capital. O trabalho inclui pacientes do hospital e catadores de lixo num espetáculo que unirá os dois locais pela internet e terá uma terceira versão transmitida online.

“Estamos discutindo a centralidade do homem contemporâneo pela desconstrução do espaço. Se há três ações ao mesmo tempo, não há uma central. É sempre parte, nunca todo. Assim processamos as informações hoje”, afirma um dos atores da companhia, Fabrício Muriana.

A parte pelo todo é o objeto de pesquisa de uma corrente dramatúrgica contemporânea, dedicada à produção de textos hiperdramáticos. O termo foi cunhado em 2002 pelo escritor norte-americano Charles Deemer. É o texto do teatro digital.

Se há a abstração quase total levada à prática por companhias alternativas, também já tem gente fazendo teatro pela internet com uma cara mais próxima do público de hoje.

O projeto Teatro Para Alguém, idealizado pela atriz e diretora Renata Jesion, desde novembro mantém na internet produções periódicas de peças transmitidas ao vivo e arquivadas no YouTube. “Os atores interpretam para a câmera, mas na verdade há centenas de pessoas ali atrás. Estamos experimentando essa nova relação de presença”, afirma Renata.

O teatro flexível, palpável aberto, mixável só está começando. Para o público – que já não é mais apenas público, mas ator também – sobrou a função de ligar os pontos.

O digital traz para as artes a falta de definição. A tendência é misturar tudo, o que chamamos de sistemas híbridos. A linguagem se torna quântica de certa forma, com um mesmo signo tendo vários ou nenhum significado ou função.”
Lucia Santaella, semioticista autora do livro Cultura e Artes do Pós-Humano

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Texto de peça digital é ‘linkável’

A melhor forma de explicar o hiperdrama é o exemplo dado pelo autor do conceito, o escritor americano Charles Deemer, professor da Portland State University. Imaginemos Quem tem medo de Virginia Woolf?, peça de 1962 de Edward Albee, clássico do realismo norte-americano. A peça se passa na casa de George e Martha, que convidam Nick e Honey, outro casal, e os colocam em situações constrangedoras. A ação é fixada na sala de estar.

Na acepção de Deemer, a peça poderia muito bem ser remontada com um texto hiperdramático numa casa de verdade. Quando houvesse entrada e saída de personagens da sala, o público teria a escolha de acompanhá-lo e vê-lo realizando ações extras à peça original no banheiro, na cozinha, no quarto. Quem ficasse na sala, assistiria à peça como Albee a pensou.

É a aplicação do conceito de hiperlinks ao texto dramático. Não apenas varia a forma de contar a história como a enriquece e “complexifica”, deixando para o público diversas escolhas. Qualquer uma será, necessariamente, parte do todo. O exemplo não usou a internet. Imagine o que fazer quando o espaço for o ciberespaço.

Interessados podem ler a versão hiperdramática de Deemer para A Gaivota, de Anton Tchekhov, no site tinyurl.com/dleksd.

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Experiências estrangeiras

Imperium, La Fura dels Bals
La Fura dels Bauswww.lafura.com
Barcelona, Espanha
É o grupo autor do Manifesto Binário que deu origem ao nome “teatro digital”. Investiga as relações possíveis entre homens tendo a internet como meio e fim. Usa transmissões ao vivo como elemento cênico de grandes produções e lidera o movimento do novo teatro com as peças Imperium (foto), Metamorfosis, XXX, Obit e Naumon.

Play On Earth, Station House Opera
Station House Operawww.stationhouseopera.com
Londres, Inglaterra
Julian Smith é filha de um geneticista e fundou a companhia, originalmente um grupo de performers, para explorar as relações entre as pessoas e o meio ambiente – o digital também. Em Play On Earth (foto), o rosto projetado de um personagem é formado por dois atores atuando ao mesmo tempo.

Telematic Dreaming, Paul Sermon
Paul Sermonwww.hgb-leipzig.de/~sermon
Salford, Inglaterra
A instalação Telematic Dreaming, do artista britânico, está mais perto da performance que do teatro, mas inspirou atores e diretores a pesquisar, nos anos 90, a presença do digital na vida das pessoas. Uma cama serve de palco para qualquer um, inclusive atores, interagirem com projeções de vídeo cujas fontes também são a internet.

Experiências brasileiras

A Verdade Relativa da Coisa em Si, Phila 7
Phila 7www.gag.art.br
São Paulo
Os espetáculos foram avançando na discussão da presença, sob as teorias de Flusser (imagem técnica) e Foucault (espaços heterotópicos). O próximo espetáculo, sem nome, se baseia na pesquisa Desesperando Godot, inversão contemporânea do texto de Beckett. Godot chegar ou não pouco importaria para o mundo conectado de hoje.

ensaio, II Trupe de Choque
II Trupe de Choquewww.trupedechoque.org
São Paulo
Os 26 atores se dividem em núcleos para pesquisar tecnologia e vídeo. São quase três anos de estudos em áreas periféricas da cidade sob as teorias de Marx e da Escola de Frankfurt aplicadas ao capitalismo da informação. O espetáculo, em setembro, unirá locais pela internet para discutir o “centro” das coisas com a pretensão de fissurar o modelo hegemônico e alterar mentalidades.

Corpo Estranho, Teatro Para Alguém
Cia. Automecânica de Teatrowww.teatroparaalguem.com.br
São Paulo
A companhia convida autores contemporâneos, como Lourenço Mutarelli, para montar peças e transmiti-las pela web. Os espetáculos passados ficam disponíveis para sempre, num banco de dados que se fará riquíssimo com o tempo. A principal pesquisa é de linguagem e modelo de negócios, que mistura TV, teatro, cinema e internet.

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Teatro digital na estante


Hamlet no Holodeck
, de Janet Murray
www.editoraunesp.com.br/titulo_view.asp?IDT=102
A autora teoriza sobre as novas formas de narrativa contemporâneas e a necessidade da interrelação das artes.


Computers as Theatre
, de Brenda Laurel
vig.pearsoned.co.uk/catalog/academic/product/0,1144,0201550601,00.html
O livro trata da relação entre o teatro contemporâneo e os videogames. Eles são experiências dramáticas de certa forma.

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Encenação hi-tech nem sempre é digital

Da mesma forma que a relativização trazida pelo digital pode ser altamente benéfica para a criatividade e a arte contemporânea sem barreiras, é perigoso encará-la como uma abertura sem critérios. Nem tudo que usa tecnologia é inovador. Nem todo teatro com elementos eletrônicos é digital.

Deu sono a montagem de 'O Sono de Fauno', em Curitiba, pretensamente uma experiência de teatro digital. Foto: Divulgação

Deu sono a montagem de 'O Sono de Fauno', em Curitiba, pretensamente uma experiência de teatro digital. Foto: Divulgação

Um exemplo claro dessa confusão ocorreu no Festival de Curitiba deste ano, um dos eventos mais influentes do País. Uma das peças apresentadas na mostra Fringe, O Sono do Fauno, da companhia piauiense Os Shakespirados, tinha como atração dois atores contracenando por Skype. Um deles no Japão, outro no Brasil.

A peça usava palco italiano e todas as premissas do teatro tradicional, mas com texto e proposta cênica ininteligíveis. Um telão no fundo mostrava a gravação do ator no outro lado do mundo – o Skype não funcionou no dia, pois o Memorial Oscar Niemeyer não tem rede de internet disponível no anfiteatro –, sem nenhum ganho para a história. Era a tecnologia pela tecnologia, um recurso que poderia ser substituído criativamente por algo ali fisicamente no palco.

O Sono do Fauno também serve de exemplo para as dificuldades técnicas encaradas diariamente pelo teatro digital. É a minoria dos teatros que está equipada hoje com a infra-estrutura necessária para um espetáculo com internet.

A precariedade atinge inclusive as companhias de pesquisa. No Pinel, onde ensaia a II Trupe de Choque, não há rede banda larga. Para um espetáculo da Phila 7 existir, é preciso rede dedicada e uma parafernália técnica de câmeras e microfones. Tudo isso significa dinheiro, um tema delicado ao teatro, cujo fomento estatal está longe do ideal no Brasil.

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O diálogo teatro-tecnologia

Eletricidade
Eletricidade

A luz elétrica causou fervor no século 19. O recurso foi muito aproveitado pelo naturalismo, originou o movimento futurista moderno e possibilitou então formas menos figurativas de arte. Foi quando Edward Gordon Craig e Adolphe Appia revolucionaram a cenografia com as “esculturas de luz”. A iluminação passou a ser um dos pilares do abstracionismo teatral.

A dança de Loïe Fuller
A dança de Loïe Fuller

Espetáculos de dança da americana deram bases, a partir de 1890, a pesquisas mais profundas sobre iluminação. Nas coreografias de Loïe, a luz atuava ao lado da bailarina. A peça OP 1, da Phila 7, é uma releitura disso a partir da complexidade contemporânea.

'Arte total' de Wagner
‘Arte total’ de Wagner
O compositor alemão Richard Wagner produzia óperas grandiosas no século 19 e foi um dos primeiros a falar em “arte total” (Gesamtkunstwerk), a origem dos movimentos híbridos potencializados de forma gigante pelas novas tecnologias e a internet. O filósofo Friedrich Nietzsche analisou todos os movimentos artísticos e a natureza da arte a partir da obra de Wagner, no livro O Nascimento da Tragédia.

Contracultura e happening
Contracultura e happening

A contracultura dos anos 1950 e 60 assistiu ao aparecimento do happening, que mais tarde originaria a performance. Mantém a tríade do teatro (pessoa, texto, público), mas relativiza o espaço cênico e usa qualquer recurso para dar a mensagem.

Avatares
Avatares

Com a popularização da internet e o desenvolvimento das tecnologias gráficas, apareceu nos anos 2000 o conceito de avatar, a representação virtual utilizada em jogos e mundos virtuais. Qualquer um no controle de um avatar está representando, com fins dramáticos ou não. A noção de presença é ampliada, e as artes começam a se valer dela.

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ENTREVISTA – RODOLFO ARAÚJO

‘Teatro digital é presença na ausência’

Se tudo é relativo e permitido na era digital do teatro, parece impossível catalogar as ideias. Abaixo, o pesquisador Rodolfo Araújo traça um panorama da nova arte, com a única certeza de que ela é múltipla.

Já é possível falar na categoria “teatro digital”, assim como há o épico, rústico, físico?
Eu sou avesso a essas denominações. Acho que, da mesma forma que o Link é mais um caderno de cultura digital e menos um caderno técnico, o teatro também vive dessa mistura toda. Mas há quem use a expressão “teatro digital” e coloque limites para a execução, a existência – mesmo relativa – da tríade pessoa, texto, público.

Telepresença é fundamental para o teatro digital existir?
O que se vê muito em conferências, o cara em tamanho real num holograma 3D, é uma baita possibilidade para criar espaços cênicos de convergência total. Peças como Play On Earth trazem uma presença na ausência. O ator está aqui e na Inglaterra ao mesmo tempo, fazendo-se ver e ouvir numa presença inclusive social, porque ele interfere culturalmente com um grupo de pessoas. A carne deixa de ser uma necessidade inexorável.

Qual o futuro ou as novas possibilidades do teatro fora a telepresença?
É a questão do corpo. Na semana passada foi notícia o australiano Stel Arc, nome famoso da body art que colocou uma orelha no antebraço. Ele vai usar um microfone para tentar ouvir o que se passa nessa orelha (risos). São dimensões radicais, mas válidas para responder qual será o corpo biotecnológico do futuro. Que outras modificações o corpo pode ter num contexto de representação? É uma questão obscura, mas um dos caminhos.

A relativização contemporânea pode ser perigosa? Podemos chegar ao nada a partir do “tudo pode”?
Não acho. É um cenário de experimentação naturalmente confuso. Duvido que essas estéticas hoje testadas pela Phila 7 ou pela La Fura dels Baus sejam a mesma que irá se popularizar daqui um tempo. Não estamos numa estética definitiva. É o primeiro passo na direção de algo que ninguém sabe o que vai ser.

Mas não pode também ter a pretensão de ser massiva. Estamos na cauda longa, afinal.
Exatamente. O digital não se pressupõe massivo. O conceito de popular acabou, não deve ser a pretensão desse teatro. O processo é colaborativo, a própria ideia de direção mudará.

Em São Paulo, mesmo entre companhias “offline”, há uma força de teatro de grupo voltando, com criações coletivas. O digital é responsável por isso?
É também. O digital alimenta o físico, que realimenta o digital, e essa dialética faz a arte avançar. Definitivamente, vivemos num mundo sem verdades absolutas. Daí um espetáculo ser ultrapassado quando quer “vender” ideias fechadas. O teatro de grupo evita esse tipo de comportamento.

‘Salvar a cultura ou salvar o Cultura?’

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Impossível não republicar aqui o texto da atriz Daniela Carmona que está circulando por e-mail. Reflexões sobre política cultural. Penso igualzinho.

Teatro Cultura Artística após o incêndio

Teatro Cultura Artística após o incêndio

SALVAR A CULTURA OU SALVAR O CULTURA?

Antes de tecer qualquer consideração, tomo a iniciativa individual que, espero, inspire demais cidadãos (pois não posso apenas me reportar à classe artística, já que a exclusão é da sociedade civil no geral…) a fazê-la coletiva. Transcrevo abaixo, palavra por palavra, grifo por grifo, nota da coluna “Direto da Fonte”, de Sonia Racy, do Caderno 2 do Estado de São Paulo, de sexta feira, dia 20 de março de 2009:

O novo TCA, na nova Roosevelt

Sete meses depois do incêndio, o Teatro Cultura Artística dá a volta por cima. Em jantar na casa de Gilberto Kassab, anteontem, empresários e banqueiros, além de lideranças culturais, assistiram a vídeo inédito de sete minutos mostrando o novo projeto da Sociedade de Cultura Artística para o TCA.

A idéia é criar o Centro de Cultura Artística, com uma área de construção cinco vezes maior. E transformar aquele pedaço da praça Roosevelt em área nobre, padrão rua Avanhandava, ali do lado. O custo disso tudo? Na primeira fase do projeto, R$ 40 milhões. Na segunda, R$ 30 milhões.

Entre os pesos-pesados presentes, Henrique Meirelles, Luciano Coutinho, Aloisio Faria (Odebrecht), Caco Pires (Camargo Corrêa), David Feffer (Suzano), Zeco Auriemo (JHSF), André Esteves (BTG), Rubens Ometto (Cosan), Ricardo Steinbruch (Vicunha). Pelos artistas, Karen Rodrigues.

O novo TCA…2

No encontro, o vice-presidente da Sociedade, Cláudio Sonder, detalhou como ajudar. Haverá cotas platinum, brilhante e ouro, de R$ 3 milhões a R$ 500 mil. Antonio Quintella, do Credit Suisse, avisou já ter destinado, via Lei Rouanet, R$ 2 milhões para preservar o mural da frente, de Di Cavalcanti, não atingido pelo fogo.

Carlos Jereissati assegurou que doará R$ 3 milhões. Luciano Coutinho prometeu ver como o BNDES poderá ajudar. E Roberto Baumgarten avaliava o que poderia dar a mais – ele doou o segundo Steinway ao TCA.

Todos elogiaram a idéia, mas alguns comentavam ser esta a “fase do atacado”. E que vão esperar “a do varejo”.

O novo TCA…3

Ao justificar sua adesão, o prefeito – que cedeu sua própria casa para o encontro – disse ter-se emocionado quando foi ver os restos do incêndio, em agosto.

E viu os artistas chorando.

Impressionante. Quando achávamos que a crise estava engolindo todos os investimentos nas áreas culturais via leis de Incentivo, com as empresas cancelando editais de patrocínio, reduzindo drasticamente sua verba para a Cultura, como noticiado pelo mesmo Caderno 2 há duas semanas, eis que, solenemente, elas resurgem das cinzas com a boa nova: estão dispostas a doar um mínimo de 500 mil  e um máximo de 3 milhões de reais para salvar esse ícone cultural, o Teatro Cultura Artística, teatro sabidamente freqüentado por uma parcela significativa da população (uns 5%?), que podia ter acesso aos preços digamos, pouco populares. Que para reerguer-se, pretende captar 70 milhões de reais junto ao empresariado brasileiro. Fácil assim.

Impressionante a sensibilidade do empresariado brasileiro. Que deve ter revisto suas contas e visto que a crise talvez não seja tão grave assim, e que poderá com gesto tão nobre revitalizar uma área que… bom, pra qualquer cidadão medianamente bem informado, que já está sendo revitalizada há anos pelos grupos teatrais que têm sede na praça Roosevelt (Satyros, Parlapatões, a Cia. Da Revista, Teatro 184, Teatro dos Atores…) e pelo cada vez mais numeroso público que a freqüenta, sem contar com um tostão sequer deste tão sensibilizado empresariado brasileiro, tampouco com o comovido poder público, que promete uma reforma na referida praça há mais de duas gestões e até agora nem varrer a praça foi capaz. (aliás, se eu fosse de qualquer um desses teatros, aconselharia a abrirem os olhos e ouvidos pois, para crescer em cinco vezes de tamanho, o tal Centro, se não for crescer pra cima, só tem a opção de passar o trator por cima de quem estiver na frente, digo, atrás, como é o caso).

Impressionante que a política cultural praticada pela atual gestão esteja tão empenhada em ajudar um único teatro (fico triste pelo incêndio, mas minhas lágrimas estão voltadas para causas mais abrangentes, agora lágrimas de indignação) e pretenda, por outro lado, excluir, através do Projeto de Lei 671/07, do Plano Diretor Estratégico, os artigos 17 ao 53, que dizem respeito justamente, entre outras áreas fundamentais, às áreas culturais, de recreação e lazer. Quem quiser, informe-se no site www.cooperativadeteatro.com.br, sobre manifestação ocorrida no dia 13 de março, por ocasião da audiência pública na Câmara Municipal para examinar a constitucionalidade desse projeto de Lei.

Impressionante que a classe artística de São Paulo organize-se e brigue por leis de fomento públicas mais substanciosas há mais de dez anos, sobrevivendo aos trancos e barrancos e fazendo o milagre da multiplicação dos tostões para apresentar à população não só obras de arte de qualidade, mas também trazer essa população para uma participação ativa dessas mesmas obras, orientando, formando, ensinando, empregando… sem que esses números impressionantes… impressionem ou sensibilizem nossa tão sensível gestão municipal, que semestre após semestre ameaça cortar drasticamente o montante de seus mecanismos de fomento (senhor prefeito, vá consultar quantas pessoas a Lei de Fomento ao Teatro, bem como a da Dança, já beneficiou direta e indiretamente, e veja que daria para encher seu tão amado novo Cultura Artística por bem mais de uma centena de vezes).

Nesse momento, não represento grupo nenhum, não sou porta-voz de nenhuma organização. Mas sou artista e cidadã, e sinto-me na obrigação de expressar minha sincera indignação pelo absurdo da situação promovida por nosso digníssimo prefeito. E faço aqui uma sugestão, leve a sério quem achar pertinente: que os artistas de São Paulo marchem em coro e reúnam-se em frente à casa do Sr. Prefeito e abram o berreiro por umas cinco horas pelo menos, todos juntos, fazendo um legítimo Dia do Choro, banhando de lágrimas a fachada de sua residência, para ver se o Sr. Prefeito se comove sinceramente conosco como se comoveu na ocasião do incêndio (pois botar fogo em nossos teatros seria um pouco demais…). E faça algo de fato pela cultura, e não somente pelo Cultura.

Daniela Carmona
Atriz

Dois curtas

sem comentários

Ainda em Curitiba (fui ao festival de teatro lá), assisti O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, em cartaz há séculos em SP mas que ainda não tinha conseguido ver. Fiquei impressionado com o elenco, que salva a montagem um tanto burguesa e divercionista de Rubens Ewald Filho (só um comentário, a peça tem méritos). Mas o que me chamou a atenção foi a atriz Ana Carolina Lima. Além de linda, o que neste caso era importante para o papel, consegue variar de estado geral, situação e trazer verdade para sensações e sentimentos absurdos para uma mulher brasileira de hoje. Grande trabalho.

Formada pelo Indac em 2001, ela foi premiada em 2008 no Festival de Paulínia pelo curta-metragem Espalhadas pelo Ar, de Vera Egito. Olha que saboroso o enredo: meninas fumam escondidas na escada do prédio, só de lingerie, porque tiram as roupas para não deixar rastro. Uma moradora mais velha (Ana Carolina) flagra as meninas. Assista:

Espalhadas pelo Ar

Falando em curta, um amigo meu, o Pirajuí (Marcelo Daniel), faz uma pontinha no filme Condomínio. Na verdade o cara é um videomaker, faz uma porrada de “zines” trash em vídeo. É engraçado. Acreditem: a cara dele é a mesma de sempre, hehe. É o de camisa branca aí embaixo. Assista:

O teatro e o ‘financiamento público de campanha’

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Só depois que já estava em Portland há alguns dias é que soube da fama da cidade, de ter uma das maiores e ativas comunidades artísticas dos Estados Unidos. Realmente dá para perceber. Além de diversas companhias (são 42 para 550 mil habitantes, uma coisa estrondosa no mínimo — veja a lista aqui), há uma organização em torno da “indústria” das artes cênicas, uma gestão realmente diferenciada, algo digno de nota, e de post.

Fachada do PCS na NW 11th St.

Fachada do PCS na NW 11th St.

Vejamos particularmente a experiência do Portland Center Stage (PCS), onde eu assisti à peça How to Disappear Completely and Never Be Found. Além de algum incentivo oficial, eles têm diversos patrocinadores/apoiadores e contam principalmente com algo parecido com o financiamento público de campanha: é a comunidade, o público, a plateia que banca a existência da companhia, do espaço, dos espetáculos. A assinatura mensal é vantajosa para o pagante. Ele passa a ter lugar privilegiado em todos os espetáculos da temporada, estacionamento gratuito na porta do teatro e alguns outros brindes e promoções (sorteios, coisas do gênero).

Antes da peça a que assisti, o diretor executivo do PCS, Greg Philips, esteve no palco e falou por um tempo com a plateia. Agradeceu pelo apoio voluntário, pelo financiamento, e anunciou quais outros espetáculos o teatro apresentaria na temporada 2009. Cada título era recebido com um ‘Oh’ ou ‘Ah’ mais ou menos rumoroso dependendo da peça. Para se ter ideia, Frost-Nixon(que deu origem ao filme finalista no Oscar deste ano) voltará à casa em abril. O simpático Philips ainda fez algumas piadas, convidou todos a entrarem no site do PCS e comentarem sobre a peça, além de deixar muito claro que “nossa proposta de reinventar o modo de sobrevivência das artes cênicas, num mundo em que teatros passam por dificuldades, só pode existir com a colaboração de vocês. Nossa contrapartida é fazer bons trabalhos de pesquisa que sejam relevantes para a existência da comunidade de Portland”.

Hall principal, em frente ao Armory Cafe

Hall principal, em frente ao Armory Cafe

Hall do Ellyn Bye Studio

Hall do Ellyn Bye Studio

Entrada de 'How to Disappear...'

Entrada de 'How to Disappear...'

Público espera a peça começar

Público espera a peça começar

Palco, com cenário de Chris Rousseau

Palco, com cenário de Chris Rousseau

Na placa, o endereço do site www.pcs.org

Na placa, o endereço do site www.pcs.org

O site é outro exemplo de como, em geral, os teatros não acordaram para o poder da internet (com exceções, claro). O PCS.org tem um blog, se integra com ferramentas de redes sociais como Facebook, Twitter etc., mostra todos trailers de peças e funciona mesmo como um hub para unir comunidade artística e espectadores. Cada peça ganha um PDF com entrevistas, ficha técnica e várias informações contextuais. Não é à toa que, pelo site, é possível também se tornar voluntário de eventos determinados do teatro (como festivais e oficinas) e se tornar sócio, claro. Toda essa organização resulta numa organização tal que, no dia da peça, cada espectador recebe uma revista sobre o espetáculo, com reportagens, perfil de todos os envolvidos na produção (do ator ao iluminador) e anúncios, a maioria relevante para quem está ali.

Página da revista com informações dos atores Cody Nickell, Kate Eastwood Norris, Darius Pierce, Laura Faye Smith e Ebbe Roe Smith, além do dramaturgo Fin Kennedy e da diretora Rose Riordan

Página da revista com informações dos atores Cody Nickell, Kate Eastwood Norris, Darius Pierce, Laura Faye Smith e Ebbe Roe Smith, além do dramaturgo Fin Kennedy e da diretora Rose Riordan

O único grupo brasileiro que tenho notícia de tentar fazer algo semelhante é o Folias D’Arte, em SP. Pelo site, é possível se tornar sócio, doando R$ 30 ou R$ 100 mensais. Mas não há qualquer vantagem. Quem não conhece o grupo tem a sensação de ter jogado dinheiro no limbo.

Exemplos como o de Portland mostram que, se bem trabalhado, o nicho teatral pode subsistir — e muito — sem mendigar recursos do governo e atenção dos pouco interessados nas performing arts.

Escrito por Lucas Pretti

Março 16, 2009 em 3:38

Percepções friorentas

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Como diria o sábio Irineu Masiero, a principal notícia de todos os dias é a previsão do tempo. Por isso não é ridículo, como fez o USA Today hoje, dar manchete para novidades sobre o clima. E eles estão particularmente certos. O inverno estadunidense está mais seco do que nunca — e frio, óbvio. Meus lábios estão ardendo, as juntas dos dedos também, o corpo todo sofrendo com a temperatura às vezes negativa. Imaginem o que sente esta árvore da foto que tirei.

Árvore seca em Portland

O dia nos EUA rende muito. Portland, onde estou, é uma cidade pequena até, com 550 mil habitantes, atravessável em uma hora de trem. Então dá pra ir pra todo lugar a pé e se impressionar como aqui realmente as coisas funcionam, de novo o exemplo batido do semáforo de pedestres (sempre respeitado).

Uma boa novidade é que o hotel em que estou hospedado fica ao lado do Portland Center for the Performing Arts, do Museum of Art of Portland, da Portland State University, da Niketown e do Portland Center Stage (veja o mapa que fiz, abaixo). Mais pra lá, a Pionner Square – e portanto bondes para todos os lados (particularmente caros — US$ 2,30 por duas horas). Bonde em inglês é streetcar. Aí não dá pra não lembrar do A Streetcar Named Desire com o Marlon Brando e a Vivian Leigh.


View Larger Map

Dá gosto de chegar numa cidade, conversar com a senhorinha do serviço de informações do aeroporto e saber por ela que Frost-Nixon é realmente uma puta peça teatral (ou vc só conhecia o filme?), a que ela assistiu no final do ano passado em Portland. Duas coisas tiramos daqui: as pessoas comuns vão ao teatro e, segundo, as temporadas americanas são nacionais. Você lembra de alguma peça no Brasil excursionando por Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Rio Branco? Nem festivais, se bobear.

Amanhã vou assistir How to Disappear Completely and Never Be Found, peça de Fin Kennedy, no PCS. Conto no próximo post. Mais novidades de Portland nas fotos abaixo, e no twitter durante o dia: http://twitter.com/cubomagico.

PSU - Portland State University

Pionner Square

2 Big Macs por 3 USD

Escrito por Lucas Pretti

Março 12, 2009 em 5:55

estado em que o indivíduo responde de forma inadequada aos estímulos externos e apresenta desorientação, esp. quanto à sua identidade e quanto ao tempo e espaço

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Estou numa fase de não conseguir organizar direito os pensamentos. Estranho. Weird. Especialmente no meu caso, que sempre vivi sob a síndrome do cerebralismo, da racionalização. Minha cabeça borbulha como sempre, mais talvez, mas o máximo que consegue produzir de palpável é o necessário para sobrevivência: reportagens e páginas de jornal. É o que dá grana por enquanto e que não demanda outra coisa que o botão de piloto automático. Fora isso são vários posts rascunhados, muitas ideias mirabolantes mal formatadas, trechos de canções, insights etéreos, dezenas de livros pela metade, filmes para ainda pensar sobre.

Isso talvez faça parte do processo de formação artística, que voltou à condição de vento em popa desde o início de fevereiro – e coincide com o jejum de impressões escritas neste blog. Some à absoluta falta de tempo (ou melhor, ao desperdício fundamental de tempo em atividades não enobrecedoras no trabalho) e pronto. Temos um sujeito confuso.

Não fosse o caos, é isto que deveria ter chegado ao Cubo nos últimos dias:

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- Fiz duas matérias pro Link, uma delas sobre teatro (ahá!): http://1ou2escritos.wordpress.com/2009/02/23/perfil-da-cia-barbixas-de-humor/, sobre a Cia. Barbixas. Foi um texto arriscado (isso não significa bom) como poucas vezes consegui publicar na grande imprensa. Os caras até comentaram no blog (e minha amiga Ariana, que deixou de ser míope nesta semana, viu): http://www.barbixas.com.br/blog/?p=64.

Barbixas

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- A outra foi sobre o quadrinista Rafael Sica: http://1ou2escritos.wordpress.com/2009/02/09/perfil-do-quadrinista-rafael-sica/, autor de algumas tirinhas q eu republico às vezes neste blog (veja como ele é foda na abaixo). Só que dessa vez o texto arriscado não passou (os limites na grande imprensa são tão grandes quanto a imprensa se considera grande) e acabou no limbo da burocracia literária. Enfim, leia se quiser.

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- Fiz um vídeo pra TV Estadão sobre pirataria na internet. Naquela semana fazia todo sentido, hoje já quase esqueci dele.

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- Migramos as peças do Teatro Para Alguém para o YouTube, a primeira entre várias iniciativas wébicas que ainda vão rolar. O canal: http://www.youtube.com/teatroparaalguem. Veja um exemplo em alta definição (e aproveite pra seguir a gente no Twitter – http://twitter.com/teatrotpa):

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Fora isso, conheci umas pessoas novas, re-conheci umas antigas e me surpreendi com outras. Com algumas, que pena, não me surpreendi e acabei arranjando confusão. Enquanto isso, o cabelo crescia, as unhas também, e ainda mais as contradições. Como sempre será.

O importante é ser tranquilo e otimista, não é, Vivian?

Escrito por Lucas Pretti

Março 2, 2009 em 1:32

Histórias de um palco redondo

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Estive anteontem pela primeira vez no Teatro de Arena. Essa frase escrita assim tão rapidinha não consegue, por mais que fosse dita e o tom tentasse acrescentar subjetividades e emoções, expressar a importância do que eu quero dizer. São as tais coisas que não se diz com palavras, mas a gente tenta, tenta, tenta. Aquele lugar no Centro de SP tem impresso nas paredes tudo aquilo que um dia já foi o teatro neste país. Tem o cheiro, tem o gosto.

Interior do Teatro de Arena

Assisti à montagem de Chapetuba Futebol Clube, texto de Vianinha dirigido pelo José Renato para a reabertura do espaço, que foi reformado no final do ano passado. José Renato foi o fundador do Teatro de Arena, em 1958 (há 50 anos), e o Vianinha teve quase todas as peças encenadas naquela época, inclusive Chapetuba, em 1959.

A noite chuvosa de anteontem é uma boa metáfora para as diferenças entre aqueles tempos e os nossos. O teatro tinha 17 “corajosos espectadores”, como disse o ator João Ribeiro ao final da apresentação de ontem. Nem de longe encheu as cadeiras que circulam o palco pequeno e sufocante do Arena. Só estando lá para imaginar e entender o poder das montagens de Eles Não Usam Blak-Tie, À Margem da Vida, A Mandrágora, do show Opinião e de tantas outras coisas fervilhantes que forjaram nossos anos 60. Dá pra entender o que o Juca de Oliveira quer dizer sobre o realismo levado às últimas consequências, sobre suar em cima da plateia. Dá pra supor o que o espaço representou para uma época importante do Brasil — em que os problemas políticos e o mundo pré-globalização favoreciam a arte.

Mas também dá para se emocionar de tristeza diante do diretor José Renato foto de Lenise Pinheiro. Hoje um senhor de 82 anos, ele comparece a todas as apresentações do elenco, de 6ª a domingo. Vestido com uma camisa de mangas curtas amarela-clara e calça social marrom, veio ate a porta do Arena três minutos antes do horário, olhou o relógio, sentiu os respingos da chuva que insistiam em entrar no pequeno hall e, numa visão geral, viu que estavam ali umas 5, 6 pessoas esperando — e que provavelmente só uma ou duas sabiam quem ele era. Deve ter lembrado de cenas como esta:

arquivo Cecilia Thompson

Fachada no dia da estreia de "Eles Não Usam Black-Tie", de Gianfrancesco Guarnieri, em 1958. Foto: arquivo Cecilia Thompson

Por mais importante que seja na classe teatral, José Renato é hoje um grande desconhecido da população (não está nem na Wikipedia, se que isso é parâmetro). Até aí, dane-se. Ele é o tipo de pessoa que pouco se importa com fama ou qualquer outra influência que se descole das intenções artísticas. Mas de qualquer forma é de se refletir sobre o fato de qualquer vedete carnavalesca ser infinitamente mais importante — sim, importante — para nossa cultura do que um dos maiores diretores teatrais que o Brasil já viu.

Pesquisando sobre o Arena, acabei trombando num site feito especialmente para as comemorações dos 50 anos, riquíssimo em informações históricas, fotos, mapas, críticas, cartazes de peças e uma infinidade de conteúdo sobre o teatro. Vale realmente a pena: http://www2.uol.com.br/teatroarena/arena.html

Sobre a peça em si, cinco coisas a dizer: 1) o texto do Vianinha é belíssimo por fazer, com doçura, beleza e numa linguagem popular, duras críticas sistêmicas ao capitalismo, ao estilo de vida burguês, à opressão pelo dinheiro e toda essa merda que só piorou desde que a peça foi escrita; 2) dois dos jovens atores, Pedro Monticelli  e Vinicius Meloni, eu já tinha visto em outras montagens (Lágrimas de um Guarda-Chuva e Ensaio_Fausto.org), e isso é legal porque mostra que a profissão ainda pode dar futuro; 3) a atriz Melina Menghini destrói no papel de Fina. Diria que é uma das mais bem construídas em cena, fé cênica impressionante; 4) eles fizeram um blog sobre o processo de montagem e para divulgação: http://chapetuba.blogspot.com; e 5) queria ter assistido à montagem original (foto abaixo), com Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves, o próprio Vianinha e Riva Nimitz, entre outros clássicos. Mas meus 25 anos não permitiram.

Hejo (Arquivo Multimeios/Idart)

Flávio Migliaccio, Xandó Batista e Vianinha na "Chapetuba F.C." de 1959. Foto: Hejo (Arquivo Multimeios/Idart)

 

Lenise Pinheiro

Elenco da "Chapetuba F.C." de 2009. Foto: Lenise Pinheiro

Só me resta imaginar uma época em que o teatro ditava a cultura no Brasil. Se bem que sonhar é um verbo melhor.

Escrito por Lucas Pretti

Fevereiro 1, 2009 em 15:26