Archive for the ‘Sex’ Category
No fundo do poço, de cueca
Vamos no seco. Um antigo e divertido companheiro de redação num jornal do interior foi preso hoje, após ser acusado de abusar de um estagiário na Câmara Municipal da cidade, onde ele trabalhava desde ter sido demitido do jornal (por motivos outros). Ele estava de cueca, e parece que obrigando o tal rapaz a chupá-lo. O moleque saiu gritando, chamou atenção e policiais prenderam o jornalista, que, muito nervoso, resistiu à prisão e enfrentou os policiais.
Isso é o que diz a notícia que vai sair amanhã e posts de hoje em blogs de jornalistas da cidade. A TV Globo local publicou imagens do tal jornalista na cela da delegacia, de cueca, barriga proeminente, pernas não muito longas. Parece que não mostrou o rosto de olhos azuis desgastados.
Esse antigo e divertido colega de redação dividia algumas madrugadas no fechamento do jornal. Cobria esportes enquanto eu me aniquilava pelo noticiário dominical de Cidades. Tem duas filhas, gêmeas, de uns 8 anos no máximo. A mulher ia buscá-lo todos os dias na redação com as crianças, que me irritavam, confesso. Ela conversava com a gente, esperava pacientemente embora de má vontade. O tal jornalista hoje preso era heterossexual convicto. Parecia.
Era bobão, brincalhão, mas desconfiado e um tanto arredio. Tinha cara de ter sido o zoado da escola. Experiente, passara por vários veículos na região, inclusive os de âmbito nacional. Pacífico, era completamente dominado pelas filhas nas vontades delas. Literalmente subiam no ombro dele e desfaziam o penteado quando quisessem (alguns fios de lado sobre a careca proeminente). Deve ter uns 40 anos.
Dava para sentir que não era feliz. Acabou tentando encontrar sentido para as coisas liberando instintos sexuais selvagens numa sala de repartição pública diante de um rapazote. A sociedade revidou: foi parar nos jornais que ele, um dia, ajudou a construir. Lá, sim, teve o nome publicado.
decadência ou o menino é o que há de pior no homem
Fiquei absolutamente pirado com A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, do Mutarelli. Devorei em dois dias — tá bom, madrugadas. Eu vi pessoas na pele do Júnior, do Sênior e da Bruna. Impressionante. Não conseguia dormir, uma puta angústia de ir esquecendo as palavras do nada. Medo de morrer como homem, de ser destruído sem perceber. Ele consegue descrever exatamente, num puta ritmo frenético, a decadência da classe média e o processo de enlouquecimento de um cara. Porque é diferente do processo na mulher. Quero falar rápido dessas duas coisas.
Já visitei alguns manicômios pra fazer reportagens. E uma ideia simples não entrava na minha cabeça: como as pessoas enlouquecem. Nunca esqueço de um cara que ficava o tempo todo deitado no chão, todo sujo, meio falando sozinho baixinho, e levantava às vezes, chegava perto e falava: “Nossa, eu trabalhei demais, não aguento mais trabalhar, meu deus, tô muito cansado, trabalhei, trabalhei, eu trabalhei demais, não paro de trabalhar… Já volto, preciso voltar pro trabalho”. Aí voltava pro chão, deitava lá, ficava mais uns 10 minutos e voltava: “Eu trabalhei demais…”. Isso mil vezes por dia. Conclusão: o cara enlouqueceu de tanto trabalhar. Porra, isso é possível. E o Mutarelli mostra em ficção que o controle não está exatamente nas nossas mãos.
Principalmente no caso do Júnior do livro. Ele entra “numa espiral negativa” porque flagra a mulher dando pro amigo do filho dele, um moleque de 15 anos. Porra. Isso é o cúmulo para um homem, para a masculinidade que há na testosterona e nos óculos morais, sociais e etc. É aquele negócio: fica com quem quiser, vai se divertir, mas não com um moleque de 15 anos. Isso dói realmente. Eu já falei sobre isso aqui quando assisti a Notas Sobre um Escândalo, em que a Cate Blanchet fica de quatro (literal e simbolicamente) por um fedelhinho lá. Putz, doeu ver o filme, eu fui afundando na cadeira, ficando incomodado. Inexplicável. Ou melhor, explicável: é (tomara) o último resquício de machismo aqui dentro.
Por isso acho que o enlouquecimento de mulheres deve ser diferente. Pelo menos nesse caso. Mulheres são mais etéreas, me parece que se importam com coisas menos mundanas, menos afetáveis por um negócio carnal de orgulho. São mais complexas e isso às vezes é ruim, óbvio, mas nessa complexidade há qualquer coisa de muito avançado. Daí a sensação de nunca satisfazê-las que todo homem sente. E daí enlouquecer com a ideia de que um molequinho fez isso, e vc não. Pq, na boa, com 15 anos eu era o cara mais ridículo de todos os tempos, como a maioria dos moleques de 15 anos que eu vejo hoje…
Acho que o que dói é essa sombra do passado.
A Mari escreveu sobre o livro tb. Vai lá: http://doublestandards.wordpress.com/2008/07/31/a-arte-de-produzir-efeito-sem-causa/
Nudez
O Pedro Cardoso conseguiu o que queria. A Veja deu capa nesta semana pro manifesto contra a nudez no cinema que ele levantou há uns meses. O objetivo era a discussão. E discussão está havendo.
Ainda não li, mas aqui está o link aberto: http://veja.abril.com.br/101208/p_148.shtml
Outras opiniões sobre o caso, pra quem quiser mais visões sobre o assunto (em se tratando de Veja, isso é sempre recomendável):
Gerald Thomas – http://colunistas.ig.com.br/geraldthomas/2008/10/14/nudez-somos-todos-voyeurs/
Ronaldo Bressane – http://impostor.wordpress.com/2008/11/24/esconde-esconde/
O próprio Pedro Cardoso – http://todomundotemproblemassexuais.zip.net/
Entrevista do cara pro Roberto Dávila:
Independentemente das motivações talvez egoístas e ciumentas do Pedro Cardoso, é uum tema a ser tratado sob o ponto de vista da concepção artística. Não há qualquer problema no nu ou em qualquer outro recurso cênico polêmico. Há quando o que está em questão não é a arte.
O negócio é fazer com que o nu não desconcentre a platéia, que o espectador não veja a atriz pelada atrás da personagem, que a camada de fantasia não se desfaça. Por isso Kubrick é genial. As cenas de suruba de De Olhos Bem Fechados são algumas entre as mais tensas e aterrorizantes da história do cinema. O malabarismo sexual perde para a história. Que bom. Mesma coisa ocorre com Perfume. Não é excitante ver as mulheres nuas. É belo, é cheiroso, tem informação, intenção, dramaturgia. Agora comparemos: você acha que Entre Lençóis, em que a Paola Oliveira se atraca com Gianecchini o tempo inteiro, tem as mesmas pretensões artísticas?
É a mesma coisa quando o beijo de dois atores no palco passa a sensação de que eles estão se curtindo, se pegando, tirando casquinha. A história foi pro saco. Não dá pra competir. É muito melhor ver duas pessoas se beijando, passando a mão, se comendo, do que acompanhar uma narrativa, qualquer q seja. Fui ver um Romeu e Julieta no Célia outro dia e sobrou mãozinha no abdome do cara, sobrou beijinho do cangote da mina. Ridículo, na boa.
Isso sem entrar no mérito de problematizar os nus de celebração do Oficina e o que tem a finalidade de chocar, como nos Satyros. O foda é quando a platéia só paga o ingresso para ver isso. No caso da TV, é de graça.
Post sobre um escândalo
Foi presa hoje nos Estados Unidos uma professora que transou pelo menos três vezes com um aluno de 15 anos. Ela é loira, bonita, jovem, e costumava enviar mensagens de texto após os encontros. “Eu amo você… foi a melhor… estou sensível mas não machucada… você foi bom” teria sido a última, interceptada pela mãe e, logo depois, pela polícia.
A história não parece familiar? É exatamente a mesma do filme Notas sobre um Escândalo. É de impressionar a capacidade da arte de recriar situações reais e nos modificar para sempre. Uma notícia como essa, publicada aqui pelo jornal Sun Herald, passaria despercebida para mim entre as zilhões de todos os dias não fosse o filme. E por melhor que seja a jornalista e a história, nunca se chegará perto de explorar o que a levou a isso, que turbilhão de emoções passou por sua cabeça enquanto transava com o garoto e que implicações anteriores à prisão mexeram com a vida de diversas pessoas.
Já escrevi sobre o filme, neste post com o título “Sobre pedófilos e machistas”, e classifiquei como um dos mais incômodos dos últimos tempos. Se não quiser ler, sem problemas, mas vá assistir ao filme.
Curtas dois curtas
Assisti a dois curtas-metragens nesta semana, indicações de pessoas diferentes, mas que trazem no roteiro discussões contemporâneas parecidas. O primeiro deles, Faça Sua Escolha, é premiadíssimo em festivais nacionais e temdireção profissional de Paulo Miranda. Está no Porta Curtas, site de hospedagem de filmes da Petrobras.
O segundo, Mundo em Mudanças, é mais amador e usa do humor para questionar costumes. O mote do filme produzido pela ERD Filmes (veja vídeos deles no YouTube aqui): “O que é melhor, desejar ou ter?” Vale a pena assistir aos dois. Clique nas imagens abaixo.
/ Faça Sua Escolha (Paulo Miranda, 2006)
/ Mundo em Mudança (2006)
Curtas-metragens são como contos. No tempo de um filme normal, você pode ver 10 deles. Às vezes, a mensagem é tão ou mais contundente.
No fim do ano, o futuro
Qualquer fim de ano é inundado por retrospectivas, olhar para trás, balanços, o que foi, as 10 mais do que passou. Para terminar o ano, prefiro apontar para o futuro. A Época desta semana traz um artigo impressionante pela contemporaneidade. O jornalista Adriano Silva usa os adjetivos corretos e os cenários perfeitos para uma tese muitíssimo provável: em pouco tempo, todos seremos bissexuais. Quem não pensa assim, diz Adriano (e eu humildemente endosso), é “cafona, desinteressante, desinformado, jeca”.
Ainda não está disponível no site para não-assinantes (o link é este), por isso reproduzo abaixo:
Em breve, todos seremos bissexuais
Numa boa, sem estardalhaço: em uma ou duas gerações essa parede de silêncios, vergonhas, desconfianças e incômodos que há entre heterossexuais e homossexuais vai ser reduzida a uma risca quase invisível no chão. Se estivéssemos no fim dos anos 60 e eu escrevesse aqui que, em 40 anos, os conceitos de esquerda e direita, proletariado e burguesia, de explorados e exploradores não significariam mais nada, provavelmente seria metralhado. Ou pela polícia política do regime ou pelos guerrilheiros da oposição.
Da mesma forma, minha tese sobre o esmaecimento da importância da escolha sexual corre o risco de ser metralhada hoje tanto por ativistas gays quanto por machões homofóbicos. Mas é o que parece que vai acontecer. Transar com gente do mesmo sexo ou do sexo oposto não vai pesar muito nem para a aceitação social de uma pessoa nem para sua discriminação pela comunidade.
Quais os indícios de que isso vai rolar? Ligar para a opção sexual de cada um, ficar preocupado com a orientação das pessoas na cama, sala, varanda ou casinha de sapê é uma postura cafona, associada a gente desinteressante, desinformada, jeca. Ter medo da diferença que o outro nos impõe, sentir-se ameaçado ou agredido pelo que o outro faz ou deixa de fazer com seu corpo, na intimidade, com outra pessoa também é postura que remete a gente que está atrasada, uma ou duas curvas aquém dos giros que o mundo não pára de dar.
Entre meninos e meninas, mas especialmente entre elas, um dos valores mais fortes da nova geração é a liberdade para ter experiências, para tentar a mão – entre outras partes do corpo – e ver qual é. Na vida profissional, na hora das férias ou de escolher alguém para namorar. Outro valor dessa moçada é o hedonismo. Tudo tem de envolver prazer. As regras existem, mas vêm sempre a reboque das sensações, da satisfação estética, do deslumbre com uma novidade, do que pede a epiderme e do que manda a paixão. Essa turma beija um monte de gente na boca pela farra, sem compromisso, e começa a enxergar homens e mulheres não como dois gêneros estanques e bem definidos, mas como pessoas. Esses garotos e garotas vão virar adultos em dez anos. E depois vão dar à luz, com todo o seu espectro de liberalidade, uma nova geração de adolescentes.
Trazer o namorado para dormir em casa, que já não é problema para muitas meninas, vai deixar de ser problema também, logo, logo, para os meninos. E não será raro uma garota engatar um namoro firme com um rapaz e, depois, com outra garota. Afinal, ela não estará procurando o “homem”, mas a “pessoa” de sua vida, de um amor que a encante e a complete – busca que vai passar a muitos quilômetros da questão de gênero que ainda trava tanto a minha geração como as anteriores.
[Imagem retirada do site e-jovem]
[Atualização 8/01: Me mandaram o link desta notícia publicada pela BBC, que dá base científica para a teoria comportamental do Adriano Silva: Cientista italiano diz que humanidade será bissexual]
Sobre pedófilos e machistas

Se o pior preconceito é o latente, não-revelado, potencial, o mesmo talvez sirva para o machismo. A lógica de que homens têm mais direito a algumas coisas e a punição a mulheres que rompem as regras foi o que emergiu sofregamente de mim ao assistir Notas sobre um Escândalo. Um tapa na cara. Um dos filmes mais incômodos dos últimos tempos, pelo menos na minha visão - vê-se agora, retrógrada. Primeiro, a sinopse:

Uma bela professora de Artes (Sheba – Cate Blanchet) oprimida pelo casamento (marido bem mais velho, filho com síndrome de Down) começa a lecionar em determinada escola e desenvolve grande amizade por outra professora (Barbara – Judi Dench), veterana, solitária, conservadora mas lésbica, que dá aulas de História. Viram confidentes, até que a amiga mais velha descobre o caso da outra com um aluno bonitinho de 15 anos. O garoto é o escape de uma vida sem graça. Barbara usa o segredo para se aproximar de Sheba, acaba por denunciá-la por ciúme e o caso vira um escândalo de pedofilia.
Notas sobre um Escândalo, antes de qualquer avaliação, é um filme sobre mulheres, sobre a alma feminina e o modo de levar a vida de quem sofre com homens obrigatórios e só consegue redenção no sexo proibido. Todas as mulheres têm essa característica, em maior ou menor grau (ou vocês, homens, nunca tiveram a sensação de não satisfazê-las plenamente?). A feminilidade do filme é que talvez me tenha tocado e me feito não aceitar os argumentos.
A tal visão cultural masculina não fica impassível diante do sucesso do garoto Steven, de 15 anos, nas investidas contra a professora. Ele não tem direito e não merece noites e noites de sexo clandestino (e o pior: o amor!) de uma mulher como Sheba, linda, inteligente, feita. Ela não deveria ceder. Ele não deveria chegar lá. Mas não. Contra toda a torcida masculina, e para a loucura do meu machismo, brota um sentimento incontrolável entre os dois.
Nesse meio todo há inveja, claro, boas doses de competição entre machos e algum fetiche aluno-professora. Mas fetiche é isso mesmo, fantasia, irrealidade, não pode se concretizar em alguém que não é você. Eis a dor masculina ao assistir um filme sobre mulheres.
Engraçado é fazer uma relação pertinente. Adultos com desejos infantis também é o mote do clássico Lolita, de Vladimir Nabokov, só que ao contrário. É o homem na posição de sedutor, pecador, sujo. Outra diferença é o papel do espectador/leitor. Eu, pelo menos, torcia por Humbert Humbert, me angustiava com as quase-relações e jogava na menina Dolores a responsabilidade por tudo. Diferente de Notas…, em que torci contra a professora e me refestelei quando foi descoberta e pagou pelo erro, mais do que com a prisão, com a desconfiança dos seus e a solidão existencial.
Um machista. Que vergonha…
Hipocrisia fina
Início de madrugada de um sábado que o trabalho me espera. Cervejinha na mão, sofá, televisão, MTV, Ponto Pê. Me senti ridículo tendo vergonha de algumas coisas que a Penélope falou, ou de coisas que os participantes falaram, ou de coisas que eu imaginei, ou de coisas que eu não imaginei.
Nessas horas a gente vê que muito do papinho liberal – como o meu! – é balela.
Depois passou.
Desencana.










