Archive for the ‘Livros’ Category
decadência ou o menino é o que há de pior no homem
Fiquei absolutamente pirado com A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, do Mutarelli. Devorei em dois dias — tá bom, madrugadas. Eu vi pessoas na pele do Júnior, do Sênior e da Bruna. Impressionante. Não conseguia dormir, uma puta angústia de ir esquecendo as palavras do nada. Medo de morrer como homem, de ser destruído sem perceber. Ele consegue descrever exatamente, num puta ritmo frenético, a decadência da classe média e o processo de enlouquecimento de um cara. Porque é diferente do processo na mulher. Quero falar rápido dessas duas coisas.
Já visitei alguns manicômios pra fazer reportagens. E uma ideia simples não entrava na minha cabeça: como as pessoas enlouquecem. Nunca esqueço de um cara que ficava o tempo todo deitado no chão, todo sujo, meio falando sozinho baixinho, e levantava às vezes, chegava perto e falava: “Nossa, eu trabalhei demais, não aguento mais trabalhar, meu deus, tô muito cansado, trabalhei, trabalhei, eu trabalhei demais, não paro de trabalhar… Já volto, preciso voltar pro trabalho”. Aí voltava pro chão, deitava lá, ficava mais uns 10 minutos e voltava: “Eu trabalhei demais…”. Isso mil vezes por dia. Conclusão: o cara enlouqueceu de tanto trabalhar. Porra, isso é possível. E o Mutarelli mostra em ficção que o controle não está exatamente nas nossas mãos.
Principalmente no caso do Júnior do livro. Ele entra “numa espiral negativa” porque flagra a mulher dando pro amigo do filho dele, um moleque de 15 anos. Porra. Isso é o cúmulo para um homem, para a masculinidade que há na testosterona e nos óculos morais, sociais e etc. É aquele negócio: fica com quem quiser, vai se divertir, mas não com um moleque de 15 anos. Isso dói realmente. Eu já falei sobre isso aqui quando assisti a Notas Sobre um Escândalo, em que a Cate Blanchet fica de quatro (literal e simbolicamente) por um fedelhinho lá. Putz, doeu ver o filme, eu fui afundando na cadeira, ficando incomodado. Inexplicável. Ou melhor, explicável: é (tomara) o último resquício de machismo aqui dentro.
Por isso acho que o enlouquecimento de mulheres deve ser diferente. Pelo menos nesse caso. Mulheres são mais etéreas, me parece que se importam com coisas menos mundanas, menos afetáveis por um negócio carnal de orgulho. São mais complexas e isso às vezes é ruim, óbvio, mas nessa complexidade há qualquer coisa de muito avançado. Daí a sensação de nunca satisfazê-las que todo homem sente. E daí enlouquecer com a ideia de que um molequinho fez isso, e vc não. Pq, na boa, com 15 anos eu era o cara mais ridículo de todos os tempos, como a maioria dos moleques de 15 anos que eu vejo hoje…
Acho que o que dói é essa sombra do passado.
A Mari escreveu sobre o livro tb. Vai lá: http://doublestandards.wordpress.com/2008/07/31/a-arte-de-produzir-efeito-sem-causa/
Interiores fervilhantes
Trombei ontem com Berimba de Jesus na praça Benedito Calixto, tradicional centrinho de compras descolado e cult em Pinheiros. Ele veio me vender seu livro de poesias, encarna, editado pela Annablume com “aval” do eraodito Marcelino Freire. Não botei fé mas dei os R$ 10. Chegando em casa, abri numa página qualquer:
correr paralelamente hoje
é retornar ao trabalho
e ter dois turnos
nos meus interiores
Estarei de volta amanhã ao trabalho, depois de quase 40 dias de férias. Energia nova para encarar o velho. E haja turnos nos meus interiores.
BTW, o Berimba tem um blog.
Escritor sempre opta pela palavra
A Mostra Sesc de Artes deste ano tem um projeto que está me impressionando, o Literatura Celular. Quem quiser, pode se cadastrar de graça para receber minicontos de escritores brasileiros contemporâneos. Os textos vêm por SMS, no celular. Veja alguns exemplos bem fodas e, se quiser, se cadastre:
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O OUTRO
Mal encarou a própria sombra no muro, engoliu um ódio velho, pois descobriu por quem vinha sendo traído. Menalton Braff
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Palavra ou mágica? Só uma opção. Escolheu. Errado: não era palavra. Mas escritor sempre opta pela palavra. Moacyr Scliar
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A NOITE
Sentou-se (quando parecia flutuar) e levantou-se (quando parecia cair): sempre a mesma insônia. Maurício de Almeida
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O FÓSSIL DE SILVIO SANTOS
Os dentes não estavam mais lá. Mas ele continuava sorrindo. Mário Bortolotto
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TEMPESTADE
Negro, hipnótico, furioso, o mar brame, espuma, e chama. Ele vai. Maria José Silveira
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O enfermeiro estava no elevador com o cadáver na maca. Acabou a luz. Ele acendeu um cigarro e ofereceu ao morto. Marcelo Rubens Paiva
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O QUE DISSE A MORTE PARA O REI
Sim, eu era o mendigo… Marcelo Ariel
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James, quase que eu piso nisso que você fez. Ainda bem que não pisou. Minha mulher é muito ciumenta. Lourenço Mutarelli
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Mãe, Alice me bateu. Não liga, essa boneca é muito ignorante. Livia Garcia-Roza
Quanto vale o livro que estou vendendo?
Saí da estréia de Mercadorias e Futuro agora há pouco me perguntando o que Lirinha faz de fato no palco. É uma performance, um recital de poesias, uma leitura dramática; não é teatro. O músico pernambucano líder do Cordel do Fogo Encantado e poeta desde pequeno lançou no mesmo dia da estréia da peça o livro Mercadorias e Futuro. A versão cênica é o improviso do autor sobre o texto de sua autoria com um personagem que é ele mesmo. Então vamos resumir o conflito inicial: é teatro, mas sem trabalho de ator.
Isso muda muito pouco qualquer análise da peça, visto que o foco principal buscado por Leandra Leal como encenadora (ela é mulher do cara e co-assina a direção) é a própria obra poética do músico. Lirinha dá entonação às frases que, no livro, correm o risco de passar despercebidas. Não pelo impacto insignificante que se pode deduzir que causem, mas pela profusão de períodos iluminados, pela multiplicação de palavras bem encadeadas. Ditas pelo autor, interpretadas com a intenção de quem escreveu, pronto, temos a certeza se tratar de poesia da boa.

Lirinha junta a opressão do povo nordestino — e a riqueza cultural óbvia e historicamente daí surgida — com uma aura dos dias de hoje. Consegue falar aos poetas e aos modernetes. Apesar de ser apenas parcialmente entendido por ambos, e por todos. “Não busco o entendimento”, afirma em algum momento o alter-ego Lirovsky, no livro, na peça. É verdade.
O texto de Paes de Lira existe apenas em si. Ao mesmo tempo em que borbulham significados e interpretações, por outro há beleza estética só no juntar palavras, no som novo causado por elas, em rimas improváveis (mesmo que sem sentido imediato). Qualquer associação à poesia musicada de Fernando Anitelli e seu Teatro Mágico é justa, embora Lirinha exista desde bem antes da trupe. As frases são recitadas com tom épico, como se ressoassem após o rufar dos tambores, o gritar das cornetas. Tanto é que a temática de Mercadorias e Futuro é a vida de três profetas fictícios, loucos, que tinham (têm) toda a consciência possível sobre a inconsciência dos seus ditos proféticos (ué, não estou falando de Estamira). Eis a beleza de fora da forma.
Por isso dá para dizer que a pena de Lirinha está apontada para a esquizofrenia do capitalismo. Dá para colocar preço em poesia? Ele é a própria contradição. O livro custa R$ 25 por algumas páginas de arte que ele mesmo ironiza no palco: vende, oferece a obra incansavelmente ao público até passar a metáfora de que o inferno de artistas é sobreviver. O inferno de todos é pagar pela sobrevivência. Diz o vendedor de livros no espetáculo: “Saí de casa num domingo, deixei mulher em casa, meus filhos brincando no sol, deixei meu sofá gostoso, a tranqüilidade da minha casa para estar aqui. Agora, me diga, quanto vale o livro que estou vendendo?”. Muitos outros poetas e filósofos aparecem: “Posso citar Platão aqui porque ele já morreu há muitos anos, caducou e não sou obrigado a pagar nenhuma porra de direito autoral”.
No palco, Mercadorias e Futuro tem altos e baixos, ignorando falhas técnicas típicas de estréia (a luz não acende na hora certa, desarranjos entre sons e movimentos, perdoáveis). O cenário é “desmontável”, dá em certos instantes a impressão de ser moldável às vontades e decisões do ator na cena, mas depois vê-se que está tudo marcado. Funcionam bem os pedais como se fossem botões play de efeitos sonoros, mas a iluminação muito agitada e sem significado de cores e ângulos empobrece o livro como cena. Mas a harmonia e a surpresa se restabelecem com as gravações das vozes da mãe de Lirovsky e do profeta Benedito Heuráclito sendo atravessadas pelo personagem mudando apenas o tempo e sujeito do verbo. Impressiona.
A grandeza e o problema cênico de Mercadorias e Futuro são Lirinha. Penso que um ator profissional interpretando Lirovsky poderia solucionar problemas técnicos (o trabalho de corpo é zero, o pensamento do personagem durante a cena, análise ativa do texto, etc.). Na condição de peça, o espetáculo ficaria melhor. Mas o que dizer de o próprio autor recitar suas frases — nenhum ator alcançaria a intenção, a medida exata. Por isso a questão: Mercadorias e Futuro é teatro? No fundo, sejamos sinceros: who cares?
O que vale em manifestações artísticas é a apreensão da mensagem e o poder de transformação e de reflexão gerados. Lirinha e Leandra Leal foram felizes nesse quesito. Veja exemplos tirados do livro (que, aliás, eu devorei antes mesmo de chegar em casa):
No segundo Câmbio Pólvora. O planeta Terra assistirá ao renascimento e florescimento de galhos verdes e fortes nos troncos das árvores que viraram cercas, mesas, cadeiras, portas e armários.
Conforto alucinante. Tranqüilidade na clareira do caos. Naquele quarto fumamos o tempo. Os ponteiros rodaram mais rápidos no mesmo relógio de anteontem. O que as horas guardavam nos espaços de contratempo? As cores das cartas, as letras riscadas, aquela mulher? Sei que vivi horas e senti minutos. Jogo bom.
Um é o todo e por ele o todo e nele o todo e se não contém tudo é nada.
Minha antologia bêbada

Volumes 1, 2 e 3, by Dulcinéia Catadora, R$ 5ão cada.
Notas rápidas sobre blogs, filme e livros
A Época publicou nesta semana uma matéria grande sobre blogs e literatura, com enfoque em duas coisas sobre as quais já escrevi aqui (1 e 2) e lá no Estadão, o filme Nome Próprio e o projeto Estrangeiros. A Daniela Abade tinha comentado comigo que conversou com a Gisela Anauate uma semana depois que me deu entrevista, há uns dois meses. Gostei do “gancho” da revista – “Nome Próprio captou o fenômeno dos blogs. Mas eles já mudaram. No lugar do narcisismo, está nascendo uma nova literatura”. Um resumo feliz (se bem que muita gente da panelosfera está mais narcisa do que nunca e só pensa em grana).
Engraçado como Nome Próprio provocou e ainda provoca discussões. A Clarah Averbuck não se decide sobre apoiar ou não o longa baseado em suas obras (ela é contra aqui e se diz mal interpretada aqui). Os blogueiros, em tese retratados no filme, detestaram. Escritores da nova geração, em tese na mesma onda da clara, também criticaram. Leitores e fãs da obra de Clarah ficaram divididos. Críticos de cinema louvaram a qualidade técnica de Murlo Salles e a atuação de Leandra Leal, a única unanimidade da história. Minha opinião está aqui.
Voltando à literatura, a Daniela fez um comentário pertinente outro dia. Disse que “aparecem” na imprensa apenas novos escritores que ousam e arriscam na forma, não no conteúdo. A pauta nunca é “o que” eles estão escrevendo e sim “como” estão. Uma visão a se pensar sobre.
Falando em escritores, na terça-feira tem churrascão na Mercearia São Pedro para relançamento da Antologia Bêbada, dessa vez com projeto gráfico do Dulcinéia Catadora (o nome desse projeto sempre me lembra a Estamira). Quem não sabe o que é clique aqui — e pense sinceramente em ir. Será divertido.
Falando em escritores 2, linda a manifestação do João Ubaldo Ribeiro sobre o Prêmio Camões, que ele ganhou. Falou alguma coisa nessa linha: “Se fosse dizer que não estava esperando ganhar, estaria mentindo. Eu mereço”. Matou a pau. Modéstia, em algumas muitas vezes, é hipocrisia.
chá com bolinhos, igreja e casa de esquina
Dois trechos fodas do Bukowski em Fabulário Geral do Delírio Cotidiano – 2:
quem não ouviu ainda essas velhas que vivem dizendo: “oh, acho simplesmente ATROZ o que essa juventude anda fazendo por aí, com todas essas drogas e sei lá mais o quê! que coisa horrível!” e aí a gente olha pra ela: sem olhos, sem dentes, sem cérebro, sem alma, sem bunda, sem boca, sem cor, sem ânimo, sem humor, sem nada, apenas um sarrafo ambulante, e a gente fica pensando o que o chá com bolinhos, a igreja e a bonita casa de esquina fizeram por ELA. e os velhos às vezes ficam bem agressivos com o que uma parte da juventude anda fazendo — “que diabo, trabalhei DURO a vida inteira!” (eles acham que isso constitui uma virtude, quando a única coisa que prova é que o sujeito não passa de um perfeito idiota), “esse pessoal quer ganhar tudo sem fazer NADA! passando o tempo todo sentado pelos canto, estragando o corpo com drogas, esperando viver às custas da riqueza da terra!”
a í a gente olha pra ELE:
que dúvida.
mas, no fundo, a maior parte dos bodes surge com indivíduos que já estavam contaminados de antemão pela própria sociedade. se o cara anda preocupado com o aluguel, a prestação do carro, o relógio de ponto, a educação escolar dos filhos, um jantar de 12 dólares com a namorada, a opinião do vizinho, a defesa do país ou o que vai acontecer com Brenda Starr, um tablete de lsd irá provavelmente enlouquecê-lo porque, de certo modo, já está louco e só resiste às manifestações sociais por causa das grades visíveis e dos surdos martelos que o deixam insensível a qualquer raciocínio individualista. uma viagem requer um homem que ainda não esteja enjaulado, que ainda não tenha sido fodido pelo grande Medo imposto por qualquer sociedade.
Link, 30/6
Reportagens minhas no Link de hoje:

Um novo uso para a velha literatura
(perfil da escritora Daniela Abade – mais aqui e aqui)
Coisas da Daniela
Coisas dos Outros
Filme ‘aberto’ leva cultura livre à telona
(já tinha falado de Big Buck Bunny neste post)
Para professor de animação, Blender não faz milagre
Web tem tutoriais de animação
O não-caber no mundo move e se cumpre, ocupando tudo
Andando a esmo pela internet, trombei com um poema de Joca Reiners Terron. Ele é um escritor e poeta contemporâneo que simples e vergonhosamente desconhecia. Veja este poema lindamente boêmio:
No centro
Um bar diante do cu de bronze
do cavalo do Duque de Caxias,
que, à guisa de enigma, fica
na praça princesa Isabel:
isto me faz sentir tão inadequado
quanto o brônzeo ânus desse
quadrúpede, afinal que faço
num boteco no centro da
cidade, alvejado por perdigotos
discursados pelos beatniquins?
No entanto o não-caber no mundo
move e se cumpre, ocupando
tudo: eu, cascos de cerveja, o Ceará-
dono-do-bar e até mesmo o cu
eqüino, buraco negro e cego
como uma galáxia prestes
a nos engolir sobremaneira.
E entre mugidos ou seja lá que
impropérios assoprem cus de
estátuas eqüestres, nos dissolvemos,
Caxias, princesa Isabel, praças,
bêbados, vosmecês e eu:
sob o vasto merdaçal de pombas
sob a penumbra onde já não vejo gestos
sob asas que não deixam rastros nem sombras
sob a mira da gigantesca merda de bronze
que certamente uma hora soltará o cu desse cavalo.
Tudo em um parágrafo
Impressionante como, em um parágrafo artístico – visto que é um romance –, é possível resumir a vontade angustiante de mudar as coisas, a certeza absoluta sobre a impossibilidade do ato e o romantismo de tentar mesmo assim. Não é à toa que o checo Franz Kafka é um dos genios da literatura moderna.
“Era necessário procurar compreender que esse grande organismo de justiça era de certo modo eterno em suas flutuações, que se alguém pretendia mudar nele alguma coisa era como tirar-se ele próprio o solo de sob os seus pés e que ele mesmo é que se precipiava na queda enquanto o grande organismo, vendo-se apenas muito ligeiramente afetado por isso, conseguiria facilmente uma peça de reposição (sempre dentro de seu mesmo sistema) e permaneceria imutável se não acontecia que – e isto era até o mais verossímel – se tornava ainda mais fechado, ainda mais atento a tudo quanto acontecia, ainda mais severo, ainda pior.”
Extraído de O Processo (download aqui), traduzido por Torrieri Guimarães

Lembro desse trecho por três motivos: 1. Está em cartaz a peça A Acusação (foto) (crítica aqui), do grupo mineiro Oficcina Multimédia, montagem contemporânea para O Processo. A história é de1915, mas parece 2010; 2. Há de se lembrar sempre que combater sistemas é algo natural da dinâmica condição humana – veja os exemplos de Antígona, tragédia de Sófocles, e Moulin Rouge, longa de Baz Luhrmann e Craig Pearce; 3. Acabei de ler a obra-prima de Kafka.
Sombras na Luz

Voltei há pouco do espetáculo Assombrações do Recife Velho, que a companhia Os Fofos Encenam levaram ao Museu da Língua Portuguesa, em SP, como parte das homenagens a Gylberto Freire. O texto original é dele e dividido em contos (o livro completo está disponível para download aqui). A montagem chama a atenção por ser gratuita (uhu! parece que a cultura free da internet chega, aos poucos, ao teatro de qualidade) e adaptada para um galpão em plena Luz.
A transição de cenas e o aparato técnico dos atores são bastante ricos. Aliás, a magia só acontece se essas duas características estiverem somadas. Enquanto o elenco em cena distrai o público com os personagens – na maioria das vezes – cômicos, todos os outros se trocam, fazem sonoplastia e “somem” atrás da atenção fixa dos espectadores. Atores bons são esses, os que provocam catarse.
A montagem d’Os Fofos no museu é reduzida, na verdade; eles selecionam algumas histórias da peça original para os 50 minutos de apresentação (será que tem a ver com o não-preço do ingresso?). De qualquer forma, sou privilegiado porque já havia assistido a Assombrações… no Festival Internacional de Teatro de Rio Preto (o FIT), em 2006. O link para o espetáculo apresentado lá é este.
Como já disse neste post, não linko os Fofos aqui porque não achei site oficial – se alguém encontrar, comente, por favor. Mas a produção é de Leopoldo de Leo Jr., este sim com site bacaninha e detalhes da peça.
Vá à Luz assistir às Assombrações…
Estrangeiressência
A escritora independente Daniela Abade, que citei neste post, me procurou para falar de seu novo projeto, o Foreigners/Estrangeiros. A idéia é produzir textos de ficção sobre a condição de se sentir estranho a um lugar. Obra conjunta com outros seis escritores de diversas nacionalidades pelo mundo. Eles fazem contato pela internet, escrevem um livro “ao vivo” diante dos leitores e arriscam um novo formato de produção bem adequado aos tempos 2.0. Trocamos e-mails e ela explicou a aura do Foreigners. Veja:
“Eu acho que o mais interessante do Estrangeiros é mostrar que um escritor não precisa de muita coisa para escrever, nem de papel. Só é preciso de talento e vontade. E também é bem importante essa comunicação que está aocntecendo entre 7 escritores – que muito provavelmente nunca se conheceriam ou trabalhariam juntos se dependesse da disposição de editoras. Acho que os escritores ficam muito dependentes de validar projetos, mesmo quando na Internet, por editoras ou por outros meios. Isso acaba nos eximindo um pouco da responsabilidade, dá uma desculpa para não escrever ou não expor o nosso trabalho. Escritor tem que escrever. Não tem que esperar lei de incentivo, contrato com editora, tapinha nas costas ou afago. Se tem uma idéia, faça acontecer. As editoras que corram atrás depois.
Com a Internet do jeito que está acho que está tudo fica mais fácil. Não tem mais desculpa. Já passou da hora de dar a cara a tapa. Com o perdão da citação vale até usar aquela frase ridícula do Faustão: “Quem sabe faz ao vivo.”. É muito legal ver que sete caras do outro lado do mundo toparam se expor desse jeito também. De criar um livro com testemunhas.”
Daniela Abade, escritora (assista a ela aqui)
Falando sobre o ser estrangeiro, parece tendência das artes latinoamericanas buscar uma respostas para a angústia existencial do não fazer parte. Neste sábado, estréia em São Paulo a peça Topografia de um Desnudo, do dramaturgo chileno Jorge Díaz, com direção do peruano Hugo Villavicenzio (grupo Conexión Latina). O espetáculo discute exatamente as experiências de latinos vivendo longe de casa, em lugares que não os pertence – e a que eles também não fazem parte.
A cena latina, com mil faces, tenta se descobrir.
[Posts relacionados: Livro antes / Banda antes]
Livro antes

O pessoal da Trip e da Ray-Ban publicou outro daqueles livretos Reveal sobre artistas independentes, dessa vez na revista TPM de dezembro. Já falou de música, como disse neste post, e agora o assunto é literatura contemporânea.
Já conhecia alguns dos nomes listados por eles, li algumas das coisas, mas não sabia que a maioria tinha blogs. A idéia do projeto fazer um guia para entender movimentos e fenômenos que não tem tempo suficiente para terem sido catalogados. Quase todos estes blogs são fortemente recomendáveis a qualquer lista de feeds. Veja:
• Andréa Del Fuego – http://delfuego.zip.net
• Bruna Beber – http://www.badtrip.com.br/bifesujo/
• Clara Averbuck – http://adioslounge.blogspot.com/
• Daniela Abade – http://www.mundoperfeito.com.br/
• Índigo – http://diariodaodalisca.zip.net/
• João Paulo Cuenca – http://blogdocuenca.blogspot.com/
• Marçal Aquino – http://br.geocities.com/marcal_aquino/ (não é blog, mas tá valendo)
• Marcelino Freire – http://www.eraodito.blogspot.com/
• Marcelo Montenegro – http://marcelomontenegro.blog.uol.com.br/
• Mário Bortolotto – http://atirenodramaturgo.zip.net/
• Santiago Nazarian – http://www.santiagonazarian.blogspot.com/
• Xico Sá – http://carapuceiro.zip.net/
Poema-diálogo de Índigo, retirado do blog dela:
- Mãe, convidei meu namorado pra passar o Natal aí.
- Que ótimo! Todo mundo vai ficar em cima dele.
- Não, mãe. Ninguém vai fazer isso. Todo mundo vai se comportar.
- Ah, é… verdade. Vamos nos comportar.
[Foto de Clara Averbuck, retirada daqui]
[Post relacionado: Banda antes]
A fúria de Tim, gratuita

A editora Objetiva, que publicou a biografia Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia, de Nelson Motta, deu um passo à frente no modo de distribuir livros da nossa era: disponibilizou os quatro primeiros capítulos de graça na internet, em PDF. Além de atrair gente (1) para o site, (2) para o livro e (3) para a “causa” do “síndico”, eles ainda prepararam material de apêndice do livro com acesso gratuito.
Seria revolucionário mesmo se mirassem o exemplo das lojas online de música e vendessem o livro todo ou cada capítulo separadamente em formato digital. Se a moda dos e-books não pegou com os (antigos?) computadores de mesa, é possível que venha um boom com a telefonia 3G e eletrônicos como o Kindle, da Amazon.
Um trocadalho: “vale tudo” na hora de levar o conhecimento ao público.
Faça o download dos capítulos aqui:
capítulo 1 | capítulo 2 | capítulo 3 | capítulo 4
Abaixo, uma relíquia: Nelson Motta filma Tim Maia.
[Via Música & Poesia]
‘Bookmark’ de livros sobre tecnologia
O artigo de Ethevaldo Siqueira no Estadão do último domingo é referência para quem quer entender tudo o que acontece neste instante à nossa volta. O jornalista, especializado em tecnologia vencedor de diversos prêmios (incluindo o Comunique-se, neste ano) e autor de diversos livros, faz um “bookmark” de obras sobre web e coisas contemporâneas na área de informação digital. A íntegra para o artigo na íntegra está neste link, mas separei a lista de obras abaixo:
- Wikinomics, de Don Tapscott e Anthony D. Williams
- O Líder do Futuro, de John Naisbitt
- A Cauda Longa, de Chris Anderson
- O Mundo é Plano, de Thomas Friedman
- Riqueza Revolucionária, de Alvin e Heidi Toffler
- A Era da Turbulência, de Alan Greenspan
São quase 3 mil páginas. E você com certeza não leu todas. Então, corra.












