Cubo Mágico

aqui tem artes, teatro, cultura digital e crônicas contemporâneas

Archive for the ‘Crônicas’ Category

Escrever profissionalmente é vender apartamentos

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A pior aflição de alguém que adora escrever – e acha que assim pode mudar o mundo – é escrever profissionalmente. O que é ser profissional? É entender de algo a ponto de vender esse conhecimento. É fazer as coisas com um distanciamento tal que independe de subjetividades como inspiração, vontade, gosto. É usar técnicas para fingir que ali naquelas palavras há elementos transformadores. Não há.

A pior aflição de alguém que escreve profissionalmente é perceber que tudo o que sai em troca de uma graninha no final do mês vai se tornando mecânico, enrijecido, com uma criatividade sempre igual e, pior, se torna um produto. Escrever profissionalmente é vender apartamentos, é carregar caixas, é estampar camisetas, é gritar “Amendoim R$ 0,50, Amendoim R$ 0,50″.

A pior aflição de alguém que adora escrever é perceber que, em 90% do tempo, não há NADA de arte nisso.

Um dia, essa aflição vira um monstro.

Escrito por Lucas Pretti

Agosto 16, 2008 em 22:41

Publicado em Arte, Crônicas, Quadrinhos

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cerumanos

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olhe para o lado e verá um deles. há cerumanos por toda a parte, nos sufocando, sugando o sangue, apertando nos vagões de trem. eles chegam perto, não entendem o que vc fala, grunem, cospem, se fundem uns aos outros, têm olhos amarelados. e o que fazem de melhor é o que faz com que sobrevivam e nunca mais desapareçam: tiram toda a sua energia e esperança.

cerumanos não são seres humanos. são um tipo de homo erectus da pós-modernidade. caras e garotas que usam gel no cabelo para sair na foto, velhos com cotovelo branco e bigode de 40 anos e aquele olhar filho-da-puta pra bunda das meninas, perfume barato, gente que vomita certezas depois de comer o que ouviu na televisão. sanguessugas. parasitas.

artistas e poetas um dia já pediram piedade. cerumanos vivem contando dinheiro, vêem a luz mas não adianta, e, por existirem, nos igualam em desgraça. mas vivem felizes dentro das aspirações ultramedíocres. quero descer pra praia pegar minas comer churrasco falar mal do governo dar esporro no filho fazer mais um filho e ir trabalhar só pra zoar o joão que senta do lado na mesa. tenho até pena do joão, mas ele é um bosta mesmo, né, rararara. na maioria das vezes cerumanos usam gravata. são os piores porque se disfarçam. são fanáticos. acham que o mundo está pronto.

acham que eles mesmos estão prontos. olhe para as faculdades e verá cerumanos, nos guichês de serviços públicos também, na fila para se consultar no mesmo guichê, com o fone de ouvido no talo dentro do ônibus, lendo auto-ajuda para pintar uma nova camada de certeza sobre as já paridas. lotam as igrejas. as reuniões de condomínio. eles correm, esbarram em você, não podem perder o jogo hoje à noite, amanhã vai ser o assunto do dia, antes de ver a novela, claro. cerumanos se auto-organizam em uma política de proliferação, querem dominar o mundo.

eles são ricos também. e como são. há cerumanos de todos as castas, um conceito típico entre cerumanos. nossa, a fulana engordou. meu deus, o cicrano é uma bichona. lucramos x% a mais neste mês. onde essa juventude vai parar? são ignorantes. repetem sempre as mesmas coisas, há gerações. rezam muito. vestem grifes culturais, posam por aí com comunidade do andy warhol no orkut, postam fotos adoidados no orkut, todas com biquinho, cabeça inclinada e o gelzinho no cabelo. gravatas às vezes. cerumanos nascem para crescer, crescem para procriar, procriam para envelhecer e envelhecem para morrer. não deixam nada. levam a esperança de que essa raça é diferente dos animais.

nunca vão ao teatro. se vão, deixam o celular ligado.

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Quem me falou essa palavra pela primeira vez foi a Renata Gama. Adotei.

Escrito por Lucas Pretti

Agosto 7, 2008 em 2:44

Publicado em Crônicas, Urbanidades

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Um luxo radioso de sensações. Era ela

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De olhos bem fechados, André vê Suelen pela primeira vez. Um rosto delicado, olhos ligeiramente puxados, sorriso encantador. Aquela figura etérea se move em sua direção e o faz transpirar. Coração em ebulição. Os lábios se juntam, quentes, macios, eternos. O pequeno descendente de japoneses, então com 12 anos, dá seu primeiro beijo. E acorda.

O delírio noturno ficou guardado por muito tempo na cabeça de André Koga Fernandes, paulistano de 30 anos. Ele precisou viajar o mundo todo para, enfim, encontrar a garota dos sonhos juvenis. Foi em 2005 em Otawara, cidade japonesa de 60 mil habitantes. De olhos bem abertos, André viu a rio-pretense Suelen Mayumi Miura, 23, pela primera vez.

Após o expediente na linha de montagem de uma fábrica de divisórias para escritório, André foi convidado por uma amiga brasileira para uma festa. Era a despedida de uma outra amiga, também brasileira, que voltaria para o Brasil após um tempo de trabalho no Japão.

Mesmo cansado e sem muita vontade, encarou 200 km de estrada entre Saytama, onde morava, e Otawara. Chegou com a promessa de que a festa, para ele, não duraria mais de dez minutos. Cumprimentou os conhecidos e se espantou com uma desconhecida. Rosto delicado, olhos ligeiramente puxados, sorriso encantador. Sua alma se cobriu de um luxo radioso de sensações. Era ela.

André e Suelen se casaram no sábado numa chácara de Rio Preto em cerimônia religiosa com efeito civil. Foi o fim de uma longa e rápida história de conquista, apesar de, para ele, ter durado quase a vida toda.

De início, Suelen não acreditou na devoção de André. “Para mim era um psicopata que usava a história do sonho para me seqüestrar”, diz hoje, entre risos. Ela foi embora do Japão três dias após a festa e manteve contato disperso com ele pela internet durante dois anos.

Enquanto isso, André se desfazia de tudo. Vendeu carro, abandonou o apartamento, pediu demissão. Veio atrás de Suelen em Rio Preto mesmo sem qualquer promessa de relacionamento. Não avisou os pais, moradores de Praia Grande.

Ele chegou à cidade em 10 de março, há pouco mais de um mês. Quando sentiu que o amor do rapaz era para valer, Suelen fez o mesmo. Deixou o emprego na TAM, largou o curso de turismo na Unilago e marcou o casamento. Os dois embarcam em breve para o Japão, onde escolheram viver.

O sonho ainda não terminou para André. Não parecia ser verdade ver  noiva descer do carro e desfilar em sua direção. No final do caminho, uma lágrima, um beijo. “Não dá para descrever o que estamos vivendo”, disse ele pouco antes da troca de alianças.

Estavam lá familiares, padrinhos e 150 amigos. O abraço longo e emocionado no pai e os vivas alegres dos convidados no brinde reafirmaram as duas palavras que destacam a união de André e Suelen. Ele tatuou o caracter japonês “amor” no braço. Ela tem uma tatuagem com o texto “sonho” nas costas. Os descendentes de japoneses, então, dão o primeiro beijo. E sonham.

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Mais um texto meu publicado durante a gestão Matinas Suzuki Jr. na rede BOM DIA de jornais, em 1 de maio de 2007. Ele criou a seção Casamentos & festas, inspirada nos artigos de Weddings/Celebrations, publicados no New York Times. Pelo que saiba, é a única publicação brasileira a tratar o tema jornalisticamente. Outro texto que reproduzi no blog está aqui: Ela passaria a freqüentar a mesa do almoço.

Escrito por Lucas Pretti

Julho 28, 2008 em 2:46

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Não tinha naqueles olhos do velho de longas e mal cuidadas barbas brancas apenas o esperar do metrô

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O vento daquela modernidade toda chegou forte não ao cabelo ressequido, mas à barba ainda mais acabada. Nunca acharia normal aquilo tudo acontecendo debaixo da terra, com um trenzão de metal correndo e correndo sem a gente saber por onde anda. O velho fechou os olhos com o primeiro sopro; não era preciso na verdade. Os óculos de aro grosso que um dia já foram beges, amarronzados mas ainda assim translúcidos, e hoje muito amarelecidos pela fumaça do tabaco, protegiam os olhos. Olhos vermelhos, pequenos, com algo latejando, urgente. Não tinha naqueles olhos do velho de longas e mal cuidadas barbas brancas apenas o esperar do metrô.

Aquele bichão parou, as pessoas dificultaram a entrada. Sabia lá atrás que a humanidade chegaria a um ponto em que ninguém se daria conta de que os outros existem. Mas nunca achou que viveria para chegar próximo disso. Apertou forte dentro da mão as duas alças de plástico da sacola de supermercado. Sacolas também amareladas, mas industrialmente. Ouviu uma campainha chata que sabia ser o último instante para se misturar àquela gente toda. Se apressou e conseguiu entrar. Um poste de metal frio o salvou do desequilíbrio repentino, mas o meio ambiente não ajudava. Logo um sopro gelado voltou a incomodar os olhos protegidos pelos grandes óculos. Por que essa gente precisa de tanto vento?

Por fim deu uns passos e achou uma cadeira vaga. Era cinza, mas o velho mal ligava para isso. Não conhecia ninguém no vagão de paredes amareladas, ah, isso antigamente não aconteceria. O sr. Joaquim, cobrador, o cumprimentaria, assim como d. Matilde, que sempre estava por ali no mesmo horário com aquele vestido sempre do mesmo corte mas com cores diferentes e aquele calcanhar alvo. Até o jovem Robertinho devia se lembrar da fraqueza da moça, que como Aquiles arrepiava ao ser tocada uns três centímetros acima dos pés. Estava na cara dela, o velho, então jovem, via. Bom dia, diriam. Bom dia.

Percebeu que a sacola do supermercado já escorregava nas mãos apertadas, molhada pelo suor das mãos mesmo com aquele ar seco todo que a envolvia. O trem parou. As portas se abriram de novo, todo mundo se empurrou, e o velho baixou os olhos vermelhos para o saco de plástico amarelo. Não tinha nada lá. Ou parecia não ter, já que de tão leve mal era preciso força e o saco balançava com o jato de ar que chegava entre os joelhos do velho. Aqueles olhos tinham mais do que a espera pelo metrô, que o cansaço da rotina, que o enfado da viagem embaixo da terra. Abriu o saco, tirou dois pedaços de papel com imagens amareladas.

Estava tremendo um pouco, mas podia ser apenas da idade. Ajeitou os óculos. Puxou os papéis para mais perto e os olhos avermelharam-se um tanto mais. Viu de um lado do papel com bordas brancas uma garota, garotinha, só o busto na fotografia, a gola e o colo cobertos pelo vestido xadrez. Cabelos negros e presos e um olhar terno, como que escondendo um segredo que só o fotógrafo sabia. Olhava direto para a câmera e, agora, para o velho de barba longa. Ao lado da garota, aparecia um velho, de barba longa, com a aparência de quem não entende o vento daquela modernidade toda. Parou. O trem andou, parou, andou novamente. Os olhos lacrimejaram, mas podia ser só reação ao vento seco e gelado.

O papel de trás foi se revelando lentamente. Os dedos velhos pareciam também precisar de óculos para sentir melhor, já que tateavam a fotografia como que para reconhecer o que estava ali gravado. A mesma menina do segredo apareceu no outro papel, que também tinha borda branca, essas que os fotógrafos pouco criativos vendem por uns R$ 10 aos clientes que nada sabem de computação. A menina, o mesmo vestido com gola xadrez, o mesmo segredo. Mas ao lado a barba havia desaparecido. Os olhos vermelhos deram lugar aos mais esbranquiçados que já vira. Mas, engraçado, era o mesmo nariz, sob sobrancelhas aparadas, cabelo rente e uma boina dessas de militar. A roupa também era de militar, um pracinha talvez, como é que se chamavam mesmo, perguntou a si mesmo o velho. Eram pracinhas, isso mesmo. Sentiu que os pensamentos daquele rapaz na foto eram muito ingênuos, tão despreparados para prever que as dores sempre acabam, que as maiores qualidades de um homem passariam a ser a velocidade com que ele entra num vagão, que as sacolinhas de plástico de supermercado, antes tão úteis, seriam perseguidas por um pessoal que diz querer salvar o mundo amarelado.

O mundo não era mais do velho de óculos. Então o vento do metrô fê-lo espirrar.

Escrito por Lucas Pretti

Julho 22, 2008 em 1:32

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a luz apagou antes da hora

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tudo começa cheio, luminoso, definido

qual o nome que se dá pra uma coisa que a gente quer pra sempre? sei lá, essas coisas não costumam ter nome. rola dentro da gente, sabe. e acontece sempre que vivo momentos fora de órbita, do tempo, do mundo, uma situação que quero viver para sempre.

qual é a palavra pra definir o conforto e a segurança de estar entre verdadeiros amigos? e qual o termo significa o mesmo que o despedaçamento de experimentar o conforto e perdê-lo rapidinho? viver qualquer situação para sempre é certamente o inferno – duro não recorrer à terminologia católica neste nosso país lusodescendente. a repetição infinita do bom é necessariamente o ruim, diz o mateus. o sol da praia queimando é ótimo, mas so é ótimo porque tem fim. a loucura de uma noite entorpecente só é prazerosa porque ela vai acabar. as duas coisas, se para sempre, seriam infernais. um gozo sem fim, incômodo, desmedido, larga isso logo.

eis a dualidade primordial. o feliz só existe porque há a idéia de triste. e assim por diante. e todo carnaval tem seu fim. e ainda bem isso.

ainda bem nada. é o que digo nessa hora em que o tal conforto acabou de ser perdido. queria mais e mais de tudo o que estava acontecendo. não era hora de terminar. ou talvez até fosse a hora, mas não pelo motivo que foi: a necessidade de tudo voltar ao normal, a rotina, a beleza da rotina. a grana que faz ser possível haver situações que se quer para sempre.

o fit mexe com as pessoas. ainda mais quando está em jogo a saudade sufocante de amigos de verdade. e quando a luz apaga antes do espetáculo acabar.

e termina vazio, escuro, desfocado

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queridos, as fotos estão aqui.

Escrito por Lucas Pretti

Julho 15, 2008 em 1:39

Publicado em Crônicas

Ela passaria a freqüentar a mesa do almoço

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O vendedor autônomo Paulo Cézar Pitelli não se arrumou muito para ir à casa da tia Helena. Estava sempre por lá. Fazia calor, era fim de verão em 2002. Tocou a campainha, deu um alô para o primo Binho, chamou pela tia, que não respondeu. Foi então até a cozinha. Deu de cara com o amor de sua vida.

Quem estava lá era a nova empregada da família, Deili Bernardes. Com 31 anos, Paulo não acreditava que ainda pudesse se apaixonar. Nunca foi de morrer de amores, já desmanchara dois noivados. Queria curtir a vida, mas o rosto da jovem de 19 anos inspirou confiança. Puxou conversa.

“Oi”, disse. Um “oi” tímido e cabisbaixo veio em troca. “Sabe onde está minha tia?” Ela respondeu, e olhou para ele: “Não”.

Paulo então reparou melhor em Deili. Havaianas, camiseta, calça legging, mãos molhadas e cabelo preso. Um sorriso lindo. Sim, ela sorriu logo após.

O vendedor saiu do cômodo e precisava falar para alguém o que sentia. Trombou com Binho, apelido do primo Cléber Rogério Moda. Resumiu a surpresa de minutos antes em uma frase: “Primo, com essa eu caso”. Casou.

Paulo e Deili trocaram alianças no último sábado, em cerimônia religiosa na Basílica Nossa Senhora Aparecida, em Rio Preto. De lá, partiram para lua-de-mel em Balneário Camboriú (SC).

Todos os personagens daquele primeiro dia estavam presentes. A tia Helena Maria Costa, 50 anos, transbordava orgulho por ter servido de cupido. “Logo depois daquela vez era eu que falava de um para o outro”, disse. Ela lembra bem da dificuldade de uni-los; afinal, ela era empregada e passaria a freqüentar a mesa do almoço.

A conquista foi mesmo penosa. No meio da cerimônia, padre Torrente pediu para que os noivos se declarassem, deixassem gravada no vídeo e no coração dos dois uma mensagem para a eternidade. Conciso como no primeiro dia, Paulo resumiu no altar a história dos dois: “Demorou, hein?”. Ela só respondeu “Eu te amo”.

Foi o vendedor que tomou iniciativa e, com a ajuda de Helena, dobrou a resistente Deili. Uma semana apó o encontro na cozinha, combinaram de jantar no Canecão, o da avenida Murchid Homsi. Alguma conversa fiada depois, antes de ensaiar qualquer beijo, Paulo falou em namoro.

“Mal nos conhecíamos, não tínhamos ficado, ele já queria namorar”, diz hoje Deili. Puro charme. Ficaram juntos naquele dia e não se largaram, pelo menos espiritualmente, até o dia do casamento.

O namoro teve altos e baixos. Insegura, a doméstica não tinha certeza se ficar com o sobrinho da patroa seria saudável. Deixou Paulo e o emprego. E entrou a tia Helena em ação novamente — notícias de um para o outro, sempre que dava.

Balançada de tanto ouvir argumentos, um dia a doméstica comprovou os últimos boatos: Paulo estava noivo de outra. Deili encontrou os dois na casa noturna Sarau.

Olhou para dentro de si, assumiu seu amor e decidiu que aquilo não ficaria assim. Ligou para Paulo, que terminou o romance na hora. Namoraram, marcaram o casamento.

Na mesma semana em que anunciaram a união, nasceu o basset Saddam, que consideram o primeiro fruto do casal. O cão só não esteve na igreja.

Outra paixão além dos cachorros (a família de Deili tem mais dois) é a música. Paulo toca cavaquinho e durante o namoro manteve o hábito de ligar para Deili e não falar nada no telefone. Ela atendia e só ouvia o som do instrumento.

Uma lágrima rolou no rosto dela no momento em que o casal saiu da igreja. O órgão da Basílica parou e a música Ave Maria, gravada, começou. Não qualquer Ave Maria. Tocada por Jorge Aragão. No cavaquinho.

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Uma das boas iniciativas de Matinas Suzuki Jr. quando esteve à frente da rede BOM DIA de jornais foi criar a seção Casamentos & festas, inspirada nos artigos de Weddings/Celebrations, publicados no New York Times. Pelo que saiba, é a única publicação brasileira a tratar o tema jornalisticamente. Inaugurei a seção em 2007, com esta crônica acima, publicada em 17 de abril. Vou resgatar alguns dos textos aqui no Cubo Mágico.

Escrito por Lucas Pretti

Julho 8, 2008 em 1:37

Publicado em Crônicas

A tranqüilidade do sempre acertar porque simplesmente não há erro

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O que faz do homem um ser provinciano? Isso não é certamente uma crítica, um mau humor existencialista, muito menos desabafo de qualquer natureza. Engraçado como corre até na veia da mais cosmopolita das pessoas uma coisinha de se sentir à vontade em ambientes ordinários, mesquinhos, pautados pela baixa qualidade, pelas gambiarras, por uma não-cobrança por qualidade.

Veja o exemplo junino das festas de época. Digo isso após ter vivido 10 anos no interior de SP e visto eventos organizados em cidades minúsculas obviamente trashs, com luz e som falhos, quadrilha desorganizada, pastéis gordurosos e narradores com observações do mais absoluto senso comum no chiado microfone. Tudo isso acontece também na capital, pois é. Na festa junina, por exemplo (e certamente há infinitos mais), de uma igreja da Moóca, onde fui buscar algumas já acabadas paçocas e finados cachorros-quentes em pleno feriado romano de Pedro e Paulo.

Tinha tudo isso lá. O som acabava no meio do “Olha a chuva” e depois recomeçava com outra melodia (quer dizer, a faixa pulou, seguiu a seqüência do mal planejado CD), a banda ruim tocava músicas sertanejas num palquinho fraco, esmilinguido, com a lâmpada a dez centímetros da cabeça do vocalista. O povão todo lá, se divertindo, vaiando risonha e compreensivamente as falhas nossas e esperando o sorteio de uma motoca. Ainda reclamavam: – Eles vão segurar isso até meia-noite…

Foi lá pelas 10 que o padre da paróquia de São Rafael (que vai ser reformada até o final do ano, minha gente, nossa igreja vai ficar novinha) foi chamado a algum lugar próximo do palco e invisível para a maioria das pessoas. Ouviu-se apenas a voz. “70 é a dezena”, disse o locutor empolgado com algo que o público não estava ligando tanto assim, um clima de mistério que não colou. “A centena é 800. Fica 870. Quem é 870?” Silêncio, zunzunzum, eis que o 870 já havia desistido dos últimos crepes de chocolate e ido embora. Quem é da honestidade é, não tem jeito. Guardaram o número para contatar o sujeito no outro dia.

Enquanto as barracas se dispersavam, já sem comida, vinho quente no fim, via-se o amadorismo (não é crítica, sim?) das pessoas, certamente voluntários da paróquia, membros da comunidade, esse talvez o organismo-master no universo do provincianismo. Algumas tias nunca haviam fritado pastel na vida, o do crepe exagerava na massa porque também não devia ter treinado, o que já não acontecia com o cara do chopp, este sim à vontade ali na função de tirar o Braumeister a 2,50 com algum colarinho.

Logo acima da chopeira, os fios elétricos se enroscavam para garantir a luz a cada tenda. Em algumas, um provinciano papelão era colocado em volta da lâmpada para não derreter o plástico que envolvia a barraca. Todo mundo muito feliz, realizado com aquela caipirice no sentido exato da palavra, aquela despreocupação com as aparências, aquele estar em casa, o relaxamento da tosquice, a tranqüilidade do sempre acertar porque simplesmente não há erro.

Em plena metrópole pós-moderna de dois mil e oito anos após Cristo, o que o ser humano quer mesmo é ser provinciano.

Escrito por Lucas Pretti

Julho 2, 2008 em 3:18

Publicado em Crônicas, Urbanidades

American way of life, eca!

com 2 comentários

Após a publicação deste artigo na revista Época duas ou três edições atrás, andei refletindo sobre o “pós-americanismo” tratado por Fareed Zakaria. Não que já seja uma situação consolidada, uma “nova ordem mundial”. Mas alguma coisa de anti-EUA realmente ecoa no mundo desde o 11/9.

A ficha caiu neste fim de semana, quando assisti ao já antigo (é de 2006) American Dreamz, filme que ironiza a sociedade de espetáculos em um dos mais rentáveis frutos, o programa American Idol (que no Brasil virou Ídolos e que não emplacou nenhum ídolo, só babacas adolescentes que não sobreviveram aos primeiros 15 minutos de fama). American Dreamz é um American Beauty dos anos 2000. Traduzido por aqui para Beleza Americana, o longa de Sam Mendes venceu o Oscar de 1999 com uma crítica mordaz aos costumes do Tio Sam.

Sinceramente, se assistisse ao “the dream with a z” (o ridicularizado slogan do programa fictício do filme) há uns 12, 15 anos, acharia o máximo. Bailes de formatura em que o capitão do time de basquete declara amor pela menina mais bonita da escola não me incomodavam. A crítica aos nerds, o entusiasmo dos “snickers”, o jeito molenga-malandro de andar com calça jeans e all star dos anos 80-90, a dancinha trash dos seriados Disney à la Hanna Montana… nada disso era problema. Aquilo era o mundo.

Não sei se foi o natural amadurecimento da idade ou se algo realmente mudou no mundo, mas hoje isso não passa pela garganta. Não é vergonha nem incomoda mais ser latino, as culturas européias e asiáticas (com exceçao do Japão pop, que conseguiu piorar o americanismo) têm seu lugar de honra e o Oscar, bah, não é mais “a” referência. Muito menos os musicais da Broadway e Andrew Loyd Weber.

Foi com American Dreamz — novamente a crítica feita por eles próprios — que despertei para o novo mundo. É muito melhor assim! Nada mais justo do que agradecer aos fundamentalistas de تورا بورا e aos loucos do 中国共产党.

Thanks, bin-Laden and Hu Jintao.

Escrito por Lucas Pretti

Junho 10, 2008 em 2:55

Publicado em Contemporâneos, Crônicas

Plenitude

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Não sei se é decorrência do flerte com as artes dramáticas, mas estou com uma tendência a achar que as expressões visuais e animadas têm mais capacidade de arrancar sentimentos das pessoas. É como se tivessem uma luva própria com determinada forma e textura capaz de, só ela, despertar certos ânimos no coração. Claro que bons livros com tremendos textos fazem chorar, óbvio, ululante. Mas aquela lágrima rápida e furtiva, um encantamento imediato e o suspiro de quem sentiu de novo aquilo que estava guardado muito fundo parecem ter sido feitos para o audiovisual.

Pois foi a partir das imagens e sons de Ratatouille que me dei conta de algo triste, tristíssimo, tristeza camará. Me dei conta de é que na infância, só lá, que sentimos uma tranqüilidade plena, um esperar sem pressa, que não temos hora no sentido exato da expressão. O que nos espera daqui a anos ou minutos parece ter importância zero – e fechamos os olhos, dormimos ou não, com um senso de responsabilidade ainda não desenvolvido. É ali, só ali, que está o ser humano dono de suas vontades.

Sim, nada a ver com Ratattouille numa primeira análise. A sensação veio quase ao final do filme. O ratinho Remy, chef de cozinha, consegue, pelo prato ratatouille (receita), transportar o temido crítico Anton Ego às suas mais queridas lembranças de infância. Ao sentir o tempero da comida, é remetido diretamente a um ambiente iluminado, na cozinha de sua casa, em que gozava dessa tranqüilidade plena. Sua mãe chega, traz a refeição e marca para sempre seu cérebro ainda uma cêra mole com o gosto, o cheiro. Adulto, é pelo ratatouille que ele ativa as mesmas sensações físicas daquele dia – e o cérebro relembra a situação sentimental.

Aquele take, um flash na cabeça de Anton Ego, me levou direto à rede da casa de meu avô em Monte Alegre do Sul, uma cidadezinha no interior de SP. Passava feriados e férias ali todos os anos. Aquela tranqüilidade depois do almoço, o não-preocupar-se, a plenitude de uma vida estranha pela frente (em relação à qual não há qualquer expectativa e não nos importamos – na verdade nem nos damos conta). A um adulto não é permitido sentir isso. Por mais que tenha férias, que tente não se preocupar com nada, que o sol queimando a cara leve a um estado de sonolência em que o mundo é só aquele sol e pronto. Mesmo assim, há uma volta das férias, um calendário a cumprir, um aperto no peito pela pressão do trabalho, por mais seguro que se esteja.

A libertação é instantânea, mas há. Como água, ar e comida, o homem precisa de segunda realidade (mais ou menos o que isso quer dizer aqui).

[Posts relacionados: Ah, as artes e Sabores perdidos]

Escrito por Lucas Pretti

Abril 21, 2008 em 2:26

Publicado em Crônicas

Equilíbrio e contradição

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Viver em São Paulo tem algo de não fazer parte. Um mistério de ao mesmo tempo ser protagonista – de idéias, de estréias, de movimentos – e apenas vítima dos acontecimentos. A multidão cria a sensação desesperadora do determinismo, a coletividade forçada gera a impessoalidade natural. O que acontece ali me atinge aqui, mas não tenho controle sobre o início. Quem perde essa visão fatalmente se afundará em observações egocentristas. Quem se perde nessa visão tem fim mais trágico e perde a individualidade. Viver em São Paulo é equilibrar. Ou se divertir na contradição.

Não há outra forma de representar isso artisticamente a não ser em particularidades. Particularidades universais. Uma coisa meio Guimarães Rosa, meio Jorge Andrade, meio Baz Luhrmann. Uma coisa, agora, meio Bruna Lombardi.

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Ela é a roteirista de O Signo da Cidade, criadora da narrativa entrecortada na qual Carlos Alberto Richelli pôde surfar na direção. Ela também escreveu personagens não-piegas como Júlia (Laís Marques) e Adélia (Eva Wilma). Para si, guardou a condutora da história – o que já fazia atrás das câmeras. Não é estilo ainda, por se tratar do primeiro trabalho como cineasta, mas o filme consegue segurar o determinismo, a coletividade, o equilíbrio de São Paulo. E por isso é muito bom.

Quem não vive na cidade mal pode entender o que significam o longa, a música abaixo e o poema mais abaixo, todos presentes na visão de Ricelli e Bruna sobre a capital do Brasil de fato. Ou entende não entendendo, naquela melancolia própria de quem quer experimentar, se jogar, e sofre.

Poema de Sombra

Se perdem gestos, cartas de amor, malas, parentes
Se perdem vozes, cidades, países, amigos
Romances perdidos, objetos perdidos, histórias se perdem.

Se perde o que fomos e o que queríamos ser.
Se perde o momento, mas não existe perda, existe movimento.

Bruna Lombardi

Escrito por Lucas Pretti

Fevereiro 21, 2008 em 2:34

Publicado em Cinema, Crônicas, Urbanidades

Sabores perdidos ou Como a bolota se transforma em knödel

com 11 comentários

Qual o gosto da infância? Pode ser chocolate, asfalto pintado, terra molhada ou um bom copo de sorvete bem gelado. Tem gente que ainda sente o gosto do carinho de um avô que não existe mais ou as palmadas de uma mãe que a vida acertou em tirar do caminho. Independente do que seja, ninguém além de nós mesmos sente aquele gosto como nós sentimos.

bolota.jpg

Já ouviu falar em knödel? É o gosto mais puro da minha infância. Mas a culpa não é do knödel, e sim da páprica. Palavrinhas chatas que provam a falta de criatividade de qualquer adulto, como aquele em que me transformei. Na época, knödel com molho de páprica, servidos no restaurante Juca Alemão, eram apenas “bolotas do Vovô Choppão”.

Qual o gosto da infância sentido anos depois? Pode ser chocolate amarelecido, asfalto desbotado, terra sem vida ou um bom copo de sorvete já derretendo. Qualquer que seja, a revisita à infância tem um sabor um tanto amargurado, melancólico, como os 8 anos que não voltam mais. Fecha-se o olho e por um segundo o chocolate tem a mesma pureza – e o knödel vira bolota -, mas no instante seguinte tudo já passou.

Qual o cenário da infância? Ele é turvo, etéreo, salpicado de sensações. E o cenário da infância sentido anos depois? Exato, preciso, real. Não é o mesmo, simplesmente.

Estive no Juca Alemão de novo há alguns dias e comprovei que o Vovô Choppão não existe mais (a referência infantil era ao logotipo do restaurante, um senhor alemão segurando uma caneca de chopp). O knödel está lá, mas agora custa alguns reais. As mesmas paredes estão lá, mas agora lembro delas com perfeição.

Por mais que aconteça com todos, ninguém é capaz de sentir isso. Da mesma forma que não sou capaz de fechar os olhos e viver a sua terra molhada, o asfalto pintado daquele sujeito. Só nós mesmos sentimos aquele gosto como nós sentimos.

Por um segundo.

Apenas um segundo.

Aí tudo vira real.

Escrito por Lucas Pretti

Fevereiro 12, 2008 em 18:18

Publicado em Crônicas, Epifania, Família