cerumanos
olhe para o lado e verá um deles. há cerumanos por toda a parte, nos sufocando, sugando o sangue, apertando nos vagões de trem. eles chegam perto, não entendem o que vc fala, grunem, cospem, se fundem uns aos outros, têm olhos amarelados. e o que fazem de melhor é o que faz com que sobrevivam e nunca mais desapareçam: tiram toda a sua energia e esperança.
cerumanos não são seres humanos. são um tipo de homo erectus da pós-modernidade. caras e garotas que usam gel no cabelo para sair na foto, velhos com cotovelo branco e bigode de 40 anos e aquele olhar filho-da-puta pra bunda das meninas, perfume barato, gente que vomita certezas depois de comer o que ouviu na televisão. sanguessugas. parasitas.
artistas e poetas um dia já pediram piedade. cerumanos vivem contando dinheiro, vêem a luz mas não adianta, e, por existirem, nos igualam em desgraça. mas vivem felizes dentro das aspirações ultramedíocres. quero descer pra praia pegar minas comer churrasco falar mal do governo dar esporro no filho fazer mais um filho e ir trabalhar só pra zoar o joão que senta do lado na mesa. tenho até pena do joão, mas ele é um bosta mesmo, né, rararara. na maioria das vezes cerumanos usam gravata. são os piores porque se disfarçam. são fanáticos. acham que o mundo está pronto.
acham que eles mesmos estão prontos. olhe para as faculdades e verá cerumanos, nos guichês de serviços públicos também, na fila para se consultar no mesmo guichê, com o fone de ouvido no talo dentro do ônibus, lendo auto-ajuda para pintar uma nova camada de certeza sobre as já paridas. lotam as igrejas. as reuniões de condomínio. eles correm, esbarram em você, não podem perder o jogo hoje à noite, amanhã vai ser o assunto do dia, antes de ver a novela, claro. cerumanos se auto-organizam em uma política de proliferação, querem dominar o mundo.
eles são ricos também. e como são. há cerumanos de todos as castas, um conceito típico entre cerumanos. nossa, a fulana engordou. meu deus, o cicrano é uma bichona. lucramos x% a mais neste mês. onde essa juventude vai parar? são ignorantes. repetem sempre as mesmas coisas, há gerações. rezam muito. vestem grifes culturais, posam por aí com comunidade do andy warhol no orkut, postam fotos adoidados no orkut, todas com biquinho, cabeça inclinada e o gelzinho no cabelo. gravatas às vezes. cerumanos nascem para crescer, crescem para procriar, procriam para envelhecer e envelhecem para morrer. não deixam nada. levam a esperança de que essa raça é diferente dos animais.
nunca vão ao teatro. se vão, deixam o celular ligado.
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Quem me falou essa palavra pela primeira vez foi a Renata Gama. Adotei.







Perfeito. Eles são a maioria…Infelizmente!
Bia Rodrigues
agosto 10, 2008 em 3:47
Mais uma estrelinha para cubomágico!
segueoseco
agosto 10, 2008 em 22:58
Nossa, que medo de ser assim. Por que às vezes a gente fica e nem percebe.
Mandou muito bem, Lucas!
Beijos
Vivian
agosto 11, 2008 em 10:44
Certeza, Vi, tenho um medão disso. Acho que o caminho é nunca se dar muita importância.
Bjos.
Lucas Pretti
agosto 11, 2008 em 16:55
Olha Lucas, toda vez que venho aqui encontro alguma coisa muuuuito legal – como esse texto aqui. Caramba! Sabe o que é pior? Eu já fui assim. Ainda bem que consegui sair fora…
beijos e parabéns pelo texto!
Lady Rasta
agosto 13, 2008 em 12:16
Puxa, obrigado! Tomara que das próximas vezes vc não se decepcione, Lady.
Bj.
Lucas Pretti
agosto 13, 2008 em 23:44
[...] diria que, numa escala de prioridade, eles não estariam no topo. Muito engravatado por aí, muito cerumano, precisa ser tocado pela arte mais do que atores, diretores, [...]
A bendita formação do público. Ou maldita? « Cubo Mágico
outubro 24, 2008 em 16:23
[...] sifu, haha), dirigida pelo filho da protagonista, Jayme Monjardim, e feita para distrair cerumanos em janeiro antes de começar o Big Brother? Nepotismo, [...]
‘Fizemos esse trabalho com a alma’. X pra eles « Cubo Mágico
janeiro 6, 2009 em 0:21