Você certamente não sabe, mas mora em uma cidade chamada Caldé. É a cidade por trás da cidade em que você mora. Como a filosofia, que dá base para as ciências, todos os vilarejos, povoados e metrópoles estão construídos em cima de Caldé. Só há um grande problema. Caldé não foi descoberta.
Na verdade foi. Pelos poucos que já assistiram à montagem Caldé e os Peixes que Aprenderam a Nadar no Ar, com o grupo Tubos de Ensaio dirigido por Marcelo Lazzaratto. Digo poucos, mas sou inexato. O Teatro Célia Helena lotou em todos os dias da primeira temporada, em março. O espetáculo era gratuito e servia como formatura do curso profissionalizante de Interpretação Dramática. O grupo e a faculdade de atores decidiram arriscar uma segunda temporada, profissional, comercial, cuja (re)estréia foi neste sábado, 10. Depois de aclamados, os artistas agora sentem na prática o discurso de como é difícil fazer arte sem apoio de ninguém.

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Assisti pela segunda vez à peça neste domingo, num teatro quase vazio, a não ser pelos 15 ou 20 conhecidos do elenco com seus acompanhantes. Quatro atores foram substituídos e o espetáculo ficou melhor ainda, um dos mais tocantes, líricos e transformadores em que já estive. Saí de lá com a certeza de que, como encarecidamente os atores pediram, é preciso divulgar a peça, vencer pelo boca-a-boca a mídia repetitiva e fechada aos não-famosos. Simplesmente porque todos (você também) precisam ver Caldé.
O espetáculo é riquíssimo. Trata de um povoado isolado numa montanha qualquer que sabe ter seu fim próximo, já que uma movimentação tectônica ameaça a cidade, que será alagada a qualquer momento. A partir da noção do fim, cada personagem se transforma. Difícil explicá-los porque as nuances são infinitas. A recatada vendedora de flores resolve dizer as verdade nunca ditas. O assessor puxa-saco e cheio de tiques e manias resolve abandoná-las; percebe que consegue viver sem elas. O cientista cientificista ouve os conselhos, pára de questionar Deus, e cancela as mesquinharias que distribuía por aí. O mais realista de todos é a quem ninguém dá ouvidos: o retardado, garoto com doença mental. Diante da iminência de Caldé submergir, ele quer apenas aprender a respirar embaixo d’água.
A relação entre os personagens é muito bem construída pelo grupo, sob supervisão de Lazzaratto (também escrevi sobre ele aqui). Foram os atores coletivamente que criaram Caldé, com base nas obras de Dario Fo, Fellini e Modigliani. Isso dá ainda mais qualidade ao espetáculo, com momentos técnicos fabulosos. Os atores congelam as cenas para dar ênfase à determinada fala, estão milimetricamente integrados quando há movimentos conjuntos e a fé cênica é tão presente que nos sentimos realmente em Caldé.
Bem, na verdade estamos. Ou você nunca resolveu acreditar numa mentirinha para viver melhor? Não reparou que a herança que deixamos não são só bens materiais? Ou que, mesmo após uma catástrofe na vida, tudo se ajeita, o fluxo continua, as coisas não mudam tanto assim?
Descubra Caldé. Porque Caldé está dentro de você.
Sábados (20h30) e domingos (18h), no Teatro Célia Helena (mapa) (3209.0470)
$ 20 / $10 (estudantes, professores e idosos)
Até dia 1 de junho
Elenco: Adriano Motta, Carla Kinzo, Felipe Mello, Guta Fernandes, Jonaya de Castro, Daniela Caielli, Carolina Fabri, Pedro Lopes, Marina Vieira, Léo Stefanini, Rodrigo Spina e Sheila Mello.
Direção: Marcelo Lazzaratto / Assistente de direção: Gisele Valeri
Dramaturgia: Pedro Lopes, Felipe Mello e Os Tubos de Ensaio
Cenografia: Ulisses Cohn
Figurino: Atílio Beline Vaz
Iluminação: Marcelo Lazzaratto
Trilha sonora: Rodrigo Spina
Preparação corporal: Ana Thomas
Preparação vocal: Nydia Licia






2 Comentários
Maio 30, 2008 em 13:01
Caro Lucas!
Todos do elenco ficamos muito felizes que tenha gostado da peça e queríamos agradecer-te pela linda publicação neste espaço!
Um grande abraço!
Pedro Lopes.
Maio 30, 2008 em 15:53
Imagina, Pedro. Obrigado vocês por terem despertado emoções tão legais.
Abraço!
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