As mãos de Moema, por Antunes
O espetáculo de teatro mais concorrido neste momento em São Paulo – e que talvez seja um dos mais concorridos do ano e da História – é a leitura de Antunes Filho de Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues. É uma montagem histórica pela maturidade que o diretor (já com 78 anos) esperou desenvolver para enfrentá-la. Fui assistir no último domingo.

Dr. Misael (Lee Thalor) e a filha-amante Moema (Angélica di Paula)
Realmente Antunes já tem um estilo determinado, depois de 26 anos com o mesmo grupo, o CPT do Sesc, em parceria com o Macunaíma. Coros, grupos de pessoas funcionando como prólogo, música, movimento. Com A Pedra do Reino (de Suassuna) foi assim. E deve ter sido com Macunaíma, sua montagem histórica, em 1978 . Eu não havia nascido.
As diferenças, a meu ver, de Senhora dos Afogados (sinopse) para as outras criações de Antunes são a iluminação e a preparação principalmente vocal dos atores. O vulto de crianças correndo logo no início, o espelho com a imagem de Dona Eduarda morta, as cenas da praia mais iluminadas e as de casa mais escuras, além do contraste das roupas – branco, preto -, dão excelência ao espetáculo, sombio. Já a fala propositalmente forçada, métrica, é discutível. Houve exagero se a intenção era delinear o arquétipo dos personagens. E mais ainda se aquilo fosse apenas o sotaque dos “estrangeiros”.
Igualmente discutível é o figurino “pesado”. Usavam sobretudo, luvas e chapéus de frio no Rio de Janeiro dos anos 1950? E as prostitutas, não morriam de frio? Pequenos detalhes técnicos que se explicam apenas se o aspecto de sonho fosse intencional – o que é uma possibilidade.
Opiniões à parte, a Senhora antuniana é um espetáculo de um diretor pleno. Cenas, diálogos e dilemas ficam por algum tempo na cabeça dos espectadores. A pizza depois da peça fica mais sem gosto. E o coro estridente das prostitutas assalta a memória com qualquer distração: “Tenha pena dela, mamãe/Tenha dó/Ela é filha-de-santo/São Benedito, tenha dó”. Não é à toa. Difícil ver alguém impassível diante de relações incestuosas e de representações do mito de Electra.
Separei algumas críticas mais especializadas, valem a pena:
- “Antunes só não faz obra-prima por falta de um elenco à altura” – Sérgio Sálvia Coelho – Folha
- “Faltou coloquialidade ao Nelson de Antunes” – Daniel Piza – Blog Estadão
- “Sobre teatro e b…” – Luiz Carlos Merten – Blog Estadão
- “Senhora dos Afogados” – Nelson Sá – Blog Cacilda/Folha
- “A noiva desnudada” – Nuno Ramos – Revista Piauí
O mesmo texto de Nelson Rodrigues está em cartaz também pela visão de outro diretor, Zé Henrique de Paula (crítica aqui). É uma das raras oportunidades de assistir ao mesmo espetáculo com olhares diferentes. Mais raro ainda o fato de Zé Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, também estar preparando sua versão de Senhora dos Afogados para o fim do ano. Evoé, Zé Celso!
[Atualização 17/4: duas outras críticas saíram no Estadão de hoje:
- "Em nome do imaginário poético" - Mariângela Alves de Lima
- "O equilíbrio entre o tom farsesco e o humor perverso" - Jefferson Del Rios
É isso.]








Quero muito ver. Tanto a do Antunes quanto a do Zé Celso. Ai, tem tanta coisa que quero ver que eu nem sei por onde começar…
segueoseco
Abril 11, 2008 em 12:11
Nossa, acho que eu te conheço, do evento do Jorge Amado, com o Chico…cheguei aqui muito por acaso, te reconheci pela foto…
Eu fui ver a montagem do Antunes e saí do teatro perturbada com tudo que vi, achei um espetáculo muito bonito, mas preciso ver novamente para fazer comentários mais profundos do que isso…rsrs…aquela risada do Misael (Lee) me acompanhou por um tempo, meio sinistra, acho que foi o que mais me marcou…provavelmente eu vá novamente no feriado…quero ver também essa outra montagem, que está no CCSP, vou ver se consigo ir até a semana que vem, e em novembro tem a do Zé Celso…
Bruna Ramachiotti
Abril 11, 2008 em 19:05
Certeza, Bruna, a risada do Misael é muito marcante. Mas não foi o que mais me perturbou.
Fiquei realmente tocado com a humilhação da D. Eduarda (talvez pela vontade que tinha de ser humilhada) e também com o coro das prostitutas. Seria uma musiquinha alegre fora do contexto, pensa bem.
E acho que te conheço mesmo!
Lucas Pretti
Abril 11, 2008 em 21:18
Cheguei aqui no seu blog procurando posts sobre o “Senhora dos Afogados”, e adorei o texto (fiz um link pra cá em um post que escrevi sobre o assunto).
Mas não sei se em outro contexto a musiquinha das prostitutas seria alegrinha não, pois é uma ladainha meio melancólica…
Ah sim! E chegando aqui descobri que leio vc no “Link” sempre.
Vou vir “visitar” vc mais vezes!
bjs
Lady Rasta
Junho 29, 2008 em 23:59
Volte sempre, Lady Rasta!
Bjos
Lucas Pretti
Junho 30, 2008 em 16:09
[...] uma vez por ano. A peça é figurinha fácil em São Paulo, assim como outras da programação (Senhora dos Afogados, Besouro – Cordão-de-Ouro, Acqua Toffana, Top! Top! Top!), algo quase inviável para quem mora lá [...]
Respirar teatro é pouco perto do que acontece no FIT « Cubo Mágico
Julho 9, 2008 em 22:38